Total de visualizações de página

Seguidores

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lula malufou para Maluf lular

POR JOSÉ NÊUMANNE
 
Há nos afagos entre o ex-governador Paulo Maluf (PP-SP) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), sob os olhares embevecidos de Fernando Haddad, mais filustria do que possa perceber nossa vã filosofia. Mas, por incrível que pareça, há também muita sintonia. Ou, como reza o título do romance famoso de Goethe, Afinidades eletivas. Como? - perguntará o leigo desabituado aos vaivéns da política, que o ex-governador de Minas e banqueiro Magalhães Pinto comparava com a mutação das imagens formadas pelas nuvens no céu. Ele mesmo comprovou sua metáfora fundando o PP com seu principal adversário mineiro, Tancredo Neves - um, ex-UDN, outro, ex-PSD -, aparentemente inconciliáveis. Os mais ingênuos dirão que não há traços ideológicos comuns entre o PT de Lula e o PP atual, que conta entre seus mais fortes dirigentes com um sobrinho do presidente que foi sem nunca ter sido, como a Viúva Porcina, Francisco Dornelles, também aparentado do caudilho gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Ora, ora, mas quem está interessado em ideias? Na política contemporânea contam cargos na máquina administrativa pública e segundos no horário da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O PP ficou com um cargo; o PT, com mais 95 segundos para vender seu peixe fora d'água ao eleitorado escaldado, como sempre o foi o paulistano.

Maluf nunca deixou de ser o que dele dizia Lula nos tempos em que encarnava o furibundo João Ferrador, personagem das greves do ABC lideradas por ele nos jornais dos metalúrgicos nos anos 70 e 80 do século 20: um "filhote da ditadura". Prefeito nomeado pelos militares para administrar a maior cidade do País, o ricaço descendente de libaneses ganhou de seus admiradores a imagem do realizador, tocador de obras. O símbolo desse gestor que faz mais é o horrendo Minhocão, sem o qual hoje o trânsito paulistano não fluiria. Seus detratores, entre os quais os petistas que estão no poder federal e os tucanos que governam o maior Estado da Federação, o rotularam como símbolo da malversação do ensebado dinheiro do Zé Mané, que paga impostos e quase nada recebe em troca do Estado. Essa moeda de duas faces, não necessariamente excludentes nem sequer opostas, poderia ter a inscrição "rouba, mas faz" do velho Adhemar.

Mas Lula está longe de ser o demônio execrado pelos malufistas de antanho como um perigoso inimigo do mercado e da democracia, um sindicalista subversivo que liderava grevistas furiosos no ABC e se deixou, depois, politizar por antigos guerrilheiros que queriam mudar o sinal de uma ditadura de direita por outra de esquerda. Mais longe ainda está o PT, que o sindicalista fundou, de sua imagem original de partido ideológico comprometido com a mudança de "tudo o que está aí". Atolado até o pescoço num pântano de corrupção e desmandos em administrações municipais, estaduais e federal, o partido se deixou levar pelo canto da sereia da conciliação de seu principal líder e ocupou o bote salva-vidas ao lado de Jader Barbalho, Severino Cavalcanti e... Maluf.

Para sobreviver no campo minado da política partidária brasileira, Lula trocou os piquetes do ABC pelo toma lá dá cá franciscano, superando os aliados que combateu antes de cingir a faixa presidencial. Para tanto adotou, sem pejo, a retórica dos cultores da velha realpolitik tupiniquim. Nisso o milionário da madeireira foi um mestre valioso para o aplicado estudante egresso do miserável semiárido nordestino. Se não o superou em cinismo, tarefa reconhecidamente hercúlea, cultiva a caradura com eficiência ainda maior. Pilhado em algum passo em falso, aplica fintas que nem Mané Garrincha foi capaz de incluir em seu amplo repertório. E com muito mais credibilidade do que as tentativas de drible que seu mais recente aliado tem repetido para tirar o pé das armadilhas dos repórteres maledicentes e dos promotores incansáveis que vasculham as contabilidades de suas gestões. O dono do PP já foi muitas vezes alcançado pelos braços longos da lei, mas nessas ocasiões, até agora, escapou desse abraço escorregando como bagre ensaboado para o amplo território da impunidade do país da Justiça lerda e vesga. O senhor do PT lança mão de súditos que assumiram bandalheiras que chegaram pertinho de seu gabinete palaciano e se tem saído com habilidade de invejar Arsène Lupin, protagonista de populares folhetins policiais. Posto diante das evidências de que, no mínimo, não ignorava o que faziam seus auxiliares na fraude dita "mensalão", saiu-se com a patacoada tornada dogma de fé de que tudo não passara de "intriga da oposição".

É notório - e não deixa de ser ridículo - o truque chinfrim de marketing de Maluf de se apropriar de quase tudo o que pareça plausível de ter sido obra dele desde a posse de Tomé de Souza como governador-geral. Lula foi adiante em esperteza e criatividade ao criar o próprio slogan, "nunca antes na história deste país". Maluf sabia que nunca precisaria comprovar afirmações duvidosas. Lula construiu o próprio mito de forma a nem sequer ser questionado a respeito.

Maluf foi beneficiário do arbítrio. E Lula tornou-se dirigente sindical atendendo ao anseio de parte dos militares que topavam tudo para impedir a influência de Leonel Brizola, herdeiro presuntivo do inimigo número um das casernas, Getúlio Vargas, no aparelho sindicalista que o caudilho de São Borja forjou. Com as greves, o esperto sobrevivente da pobreza do semiárido passou a simbolizar o ideal do povo brasileiro cultivado pela esquerda que ganharia nas urnas a guerra perdida na tentativa de tomar o poder com as armas. Maluf foi escorraçado dos palácios e virou uma aposta perdida de volta da direita ao topo.

Neste ambiente em que governabilidade justifica barganha e pouca vergonha se confunde com pragmatismo, Lula malufou para Maluf lular, enfurecendo os tucanos que perderam a chance de preceder o PT no afã.
Estadão
20/06/2012 

domingo, 17 de junho de 2012

Sérgio Augusto recorda Ivan Lessa

Por Sérgio Augusto

Lamentávamos não termos sido amigos de infância. A diferença de idade, porque pequena, não seria estorvo. Tivemos a mesma formação cultural; crescemos vendo filmes, devorando quadrinhos e, no devido tempo, prosa mais exigente. Até no futebol éramos almas irmãs, alvinegras. Quase nos conhecemos pessoalmente em 1965, na redação do Diário Carioca, mas como não a frequentávamos, apenas enviávamos para lá nossas colunas de cinema e teatro, seus alôs nunca encontraram o meu olá.

Até que um dia, cerca de 1968, apertamos as mãos, entre as gôndolas de LPs da Modern Sound, em Copacabana, apresentados pelo amicíssimo comum José Lewgoy. Só aí fiquei sabendo por que ele ficara tão pouco tempo como crítico de teatro do jornal. Ao cabo de cinco ou seis semanas de divagações sobre teoria do teatro, Eric Bentley, Shaw e quejandos, foi-lhe lembrado de que precisava criticar alguma peça em cartaz. "Ir ao teatro? Deus me livre!", respondeu (por telefone, claro) e largou a coluna.

Fazia quase uma década que o lera pela primeira vez, na revista Senhor, agosto de 1959, um necrológio de Billie Holiday. De arromba desde a frase de abertura: "Em sua voz, primeiro, uma amargura preguiçosa". O resto vocês podem conferir na antologia O Melhor da Senhor, que Ruy Castro organizou para a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Ivan Lessa sabia tudo de música popular, de Cyro Monteiro a Buddy Greco, e foi em sua vitrola que ouvi pela primeira vez Bobby Short, entre tantas outras revelações. Idolatrava especialmente Billy Eckstine, o genial Mr. B (a quem imitava à perfeição e entrevistou, na cadeira de um barbeiro londrino), Dick Haymes e Lucio Alves.

Não foi, como andaram dizendo, um dos fundadores do Pasquim. Demorou 27 números para debutar em suas páginas, já (ou ainda) de Londres, para onde se mandara por motivos estritamente pessoais. sem qualquer motivação políticaNão era formado em nada, trabalhara apenas e por curto tempo numa agência de publicidade, vivia como um saltimbanco do texto - na BBC encontrou emprego seguro, que deixaria em 1972 para um interregno de seis anos na cidade que sempre foi sua maior obsessão.

Inevitável, diga-se. Ivan descobriu o mundo de um mirante privilegiado: o mítico Rio de Janeiro dos anos 40 e 50, jogando peladas nas areias de Copacabana, embasbacando-se com o futebol e o glamour de seu vizinho Heleno de Freitas, convivendo com o chantilly da intelectualidade e da boemia cariocas. Foi uma espécie de Robin do cronista Antonio Maria, tornou-se o maior (e mais respeitado) amigo de Paulo Francis e um parceiro fundamental de Jaguar, isso tudo antes de fazer do Pasquim o seu palco iluminado.

Já éramos carne e unha quando ele chegou de volta ao Rio para dar outra dimensão às doidices pasquinenses. Sua frenética inventividade invadiu quase todas as páginas do jornaleco, a começar pela seção de cartas dos leitores, às quais respondia, de forma insultuosa, com o heterônimo de Edélsio Tavares. A impaciência era o principal combustível de seu conflituoso relacionamento com o Bananão (vulgo Brasil) e sua implacável repulsa à burrice e à babaquice alheias. Debochado, desconcertava até o Millôr. Francis (ou "Francês", como o chamava) sofreu um bocado em suas mãos; volta e meia se estranhavam, mas logo faziam as pazes.

Com Ivan por perto, não tinha hora para o recreio acabar. Até por força das circunstâncias, formamos uma dupla inseparável dentro e fora da redação. Dois moleques dadaístas. Saíamos à tarde por Copacabana, dando cotações a empadas e pastéis de queijo, a cães engraçados, loucos mansos e rotundos traseiros ao acaso encontrados pelo caminho, e, last but not least, espantando transeuntes sensíveis às frases desconexas e obscenas que, com ar circunspecto, trocávamos no meio da rua. Vez por outra íamos ao cinema para, na saída, aturdir os espectadores com comentários sobre cenas inexistentes no filme que acabáramos de ver e irritar os que aguardavam a sessão seguinte, na sala de espera, revelando-lhes o final do filme.

Brigamos duas vezes. O primeiro cachimbo da paz foi um folheto musicográfico de Duke Ellington; o segundo, os quatro primeiros anos da New York Review of Books encadernados, que Ivan deixou de presente ao partir definitivamente para Londres e para seu antigo emprego na BBC, no início de 1978.

Alguns bocós da blogosfera o acusaram de abandonar o Brasil, de não ficar aqui "para resistir à ditadura", preferindo falar mal do País a distância. Putzgrila, Ivan enfrentou aqui os piores anos da ditadura, atuando na publicação mais censurada pelo regime militar; foi embora na vazante autoritária, na contramão dos retornados.

Aprendi uma enormidade com ele e sua memória prodigiosa. Alguém aí sabe quem foi Roland Firbank? Pois é, eu só fui saber de sua existência (romancista inglês, morto em 1926, aos 40) através do Ivan, a.k.a Ivanhoe, Van Ness e (sintam a delicadeza) Baitolão.

Trocávamos e-mails com menos assiduidade do que a saudade exigia. Sempre divertidos, descaradamente saudosistas e algo esotéricos, com títulos inspirados pelo cancioneiro (Abajur Lilás), pelo teatro (Adeus à Casa de Bonecas), por velhos programas de rádio (Nada Além de Dois Minutos). Ermitão por temperamento, plugado em livros, CDs, DVDs e na internet, ainda mais caseiro ficou depois que um enfisema obrigou-o a passar 15 horas por dia ligado a um tubo de oxigênio. Nos últimos meses abriu ainda mais seu baú de ossos. Sempre por e-mail. Skype, nem pensar. "Minha voz ficou fininha, irreconhecível. Nem posso mais imitar Mr. B."


Estadão 16.06.2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O cinema atual não quer idéias na cabeça

POR ARNALDO JABOR
 
Tenho visto muitos filmes de ação. Vou ao cinema com meu filho de 12 anos e já sou um entendido nas missões impossíveis, nas porradas, nas cidades destruídas, nas armas assassinas. Quando estou no cinema, tudo me parece perfeito, de uma eficácia absoluta, como se estivesse dentro de uma máquina de sensações programadas. Sou levado a um mergulho em suspense, em medo, em prazeres sádicos, tudo narrado em uma tempestade de 'planos' curtos, nunca mais longos do que quatro segundos, ao som de orquestras sinfônicas plagiando Beethoven ou Ravel para cenas românticas e Stravinski para violência e guerras, pois não há um só minuto sem música, tudo montado para não desgrudarmos os olhos da tela. Antigamente, os filmes 'comerciais' ou de ação apelavam para alguma comoção humana das plateias, histórias em que o 'bem' era recompensado, em que chorávamos ou ríamos desde o Gordo e o Magro até Hitchcock.

Hoje, passamos por uma maratona de emoções incessantes que nos exaurem como se fôssemos personagens daqueles mundos em 3D, de pedras e balas que nos voam na cara, atravessando túneis de ressonâncias visuais e sonoras que nos fazem em pedaços espalhados pela sala, junto com os copos de Coca-Cola e sacos de pipocas. Somos pipocas desses filmes. No entanto, quando saio do cinema, caio num grande vazio nas ruas barulhentas, feias e terríveis, onde tudo parece irreal.

Esses filmes são de uma eficácia assustadora, como seus heróis. Os roteiros são feitos em programas de computador especiais que não deixam respiros para o espectador. É preciso encher cada buraco, para que nada se infiltre na atenção absoluta. Os efeitos especiais são mais importantes que os conflitos psicológicos. Não importa o enredo; só o gozo da cena. O filme de ação busca na violência e nos desastres a mesma visibilidade total do filme pornô.

É uma nova dramaturgia de Hollywood: a estética do videogame, onde a personagem principal não é mais o "outro", mas nós mesmos, com o joystick na mão e nenhuma ideia na cabeça. Cresce uma cultura da incultura, a profundidade do superficial, a rapidez do julgamento, num mundo feito de fugazes e-mails, celulares tocando, corridas sem fim, vidas sem "roteiro".

Está fora de moda um filme para ser visto, refletido, com choro, risos, vida. O desejo dos produtores é justamente apagar o drama humano dentro de nossas cabeças. A ação na tela é incessante, o conflito é permanente, de modo a impedir o espectador de ver seus conflitos internos.

Ao contrário das obras comunas ou nazistas, que vendiam um "futuro", um paraíso soviético ou um Reich de Mil Anos, os EUA vendem o "presente". Americano não tem futuro. Só um enorme presente prático, feito de objetos e gadgets, serviços e sentimentos redentores. Por outro lado, nada é parte de um "complô" para nos "lavar o cérebro", nada disso. Não é uma propaganda consciente. Não há Comitê Central nem CIA, por trás. Os americanos são um produto deles mesmos, acreditam no que dizem. A sinceridade é sua arma total. O verdadeiro cinema político é o filme americano.

Logo depois da Guerra Fria, os filmes mostravam uma América em "frenética lua de mel" consigo mesma. Os Estados Unidos eram o país da "cultura da certeza". A ideia de 'paraíso americano' era a perfeição do funcionamento. Com o fim da Guerra Fria, os americanos ficaram meio desamparados, sem inimigos reais. Cultura paranoica não gosta disso. Com o 11 de Setembro, junto com as torres, caíram também a arrogância e o orgulho da eficiência. Deprimiram por uns anos, mas, retomaram a trajetória do mito americano e, assim como estão reconstruindo as torres gêmeas, voltaram a fazer filmes para reabilitar o herói americano, tão humilhado na horrenda era Bush.

Antigamente, sofríamos durante a trama, esperando que os heróis ou amantes fossem felizes no fim. Hoje, sabemos que tudo vai acabar bem, mas nos fascinam mais os infernos que eles terão de atravessar, para chegar a um desfecho fatalmente bom. A catarse chegará, mas antes temos amputações, temos bazucas estourando peitos, bombas e vemos que, mais importantes que as personagens, são as "coisas" em volta. Sim, as coisas. Personagem é só um pretexto para mostrar o décor. E o décor é um grande showroom dos produtos americanos, que são as verdadeiras personagens: maravilhosos aviões, os supercomputadores, a genialidade tecnológica. Neste neocinema épico século 21, as personagens não fogem de um conflito; fogem dos produtos.

E pior: não adianta se refugiar na arte. O cinema de autor ficou mirrado diante de tanta homérica violência. A arte pressupõe uma imperfeição qualquer, uma fragilidade que evoca a natureza perdida; a arte inclui a morte ou o medo, mesmo no triunfo das estátuas perfeitas.

A destruição que vemos na vida, a sordidez mercantil, a estupidez no poder, o fanatismo do terror, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além de qualquer crítica. O mal é tão profundo que denunciá-lo ficou inútil. Pela influência insopitável do avanço técnico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, toda aquela dimensão espiritual chamada antigamente de 'cultura' que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando um sentido à vida e uma razão de ser para a existência. Na arte atual, não há vestígios de esperança. Vivemos diante de um futuro que não chega e de um presente que nos foge sem parar. Isso nos faz saudosos do presente como se ele fosse um passado.

Uma espantosa nova linguagem surgiu e cresce como um 'transformer' nas telas do mundo. E talvez, daqui para a frente, só essa língua aliviará um pouco nossa solidão, saciará nossa fome de ilusão. Só em filmes brutos e desumanos teremos o consolo do esquecimento.
Estadão
O Globo
12/06/2012 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ensaio de José Umberto sobre Machado de Assis



existe uma ordem no mundo a priori; e, se houver, no que consiste?
Wittgenstein


A navalha expõe o remoto

José Umberto



Para André Olivieri Setaro

O
conto Viagem à roda de mim mesmo que Machado de Assis publicou em 1885 é a coroação paradigmática do seu `instinto´ de desencanto. De um mundo considerado quase suspenso na caverna protozoária das ocasiões. Numa fisiologia de percurso metafísico a desandar na biologia primeva. Desse universo latente com o sabor da perdição. Com o encanto de ilusões submersas nos pântanos. Distante da nostalgia e próximo do desvelamento. Essa regressão como atalho ao redemoinho do tempo. Como se desse uma síncope de reversão: o profeta das origens. Um começo que se expande para o sem-início, numa queda de pressão. E de lá contempla o imponderável. Num acerto de contas com a sutileza. Ou a seara de linguagem do indefinível. A exigir o mergulho em ambientes também indeterminados. Daí estabelecer a ponte entre níveis recônditos do ser e as aparências dos eventos. Talvez um dom quiçá inato de dialogar e interpretar os fatos extraordinários. Procedimentos de uma língua tão da intimidade dos magos. Esses ilusionistas a transgredir as barreiras do limite.

E é quando o `bruxo´ de Cosme Velho estiliza, nesta narrativa curta, o que também desenvolvia em outros gêneros como romance, poesia, crônica, teatro, além da atividade crítica. Aliás, esse conto pontifica uma síntese desses recursos literários. Um escritor que já está com o coração patético de sol em excesso. Um urbano andante debaixo de uma lua arcaísta. Uma personalidade de fina verve porém desafiante desconstrutor de futuro. E com a ironia na ponta da caneta de tinteiro. Observando o passar dos dias com palavras que acertam nas horas vagas e empurram os ponteiros do relógio com o ar certeiro de mestre reservado no seu convívio econômico.

Um fluminense cercado de personagens, tipos tardios e de situações inusitadas ao desfile da humanidade que não evolui nem regride, tampouco se imobiliza, porém aprecia os saltos do abismo da paisagem. Uma visão do indivíduo que se perpetua na espécie. E se dilacera no dia a dia (des)trilhado. Num retrato em preto-e-branco que perfura a realidade com a navalha do espírito. Numa fotogenia das intimidades que se vai imprimindo à galeria do social. São sombras ambulantes de dramas ridículos do nosso ser. Mergulho sem dó, até incomplacente. Ferino e afiado. Num palco de sensibilidades anônimas onde o artista faz o seu esforço de mandarim. Marionetes de fios invisíveis que cabem na câmara escura da imaginação de um mulato descrente da aura da felicidade. Num solipsismo cético que cabe o riso, o sarcasmo e o exílio à ronda de suas próprias criações. Quando a máscara cai e revela o vazio do espaço opaco. E as paredes ficam nuas de doer. A remover a tinta de nosso rosto no espanto da luz e no esboço do escárnio.

A tênue fresta de confissão revela um fio delgado de sinceridade que se confunde com orgulho. Porém a uma distância milimétrica do sórdido. Sem escapar à covardia. Uma protoética que se revela sob a reserva da casca dura do escondido. Há uma dialética entre o explícito e o subentendido. Um jogo de lacunas exposto na textura da ambigüidade. Que se expande em imaginação apoteótica e pontos de vista orbitais. Ampliando-se os deslocamentos, os ângulos e as perspectivas. Por desdobramento permanente de possíveis interpretações e deduções. Num leque de exposições e encobrimentos oblíquos. Aberturas e clausuras. Mal-me-quer & bem-me-quer. Truques. Travessuras. Investigações da suprarrealidade em sucessivas dimensões. Incansáveis invenções feéricas a sobrepor-se ao lúdico e ao mágico. Camadas intuitivas em plenitude de expressão.

Uma viagem em volta da minha linguagem

O grão de areia no oceano é um sedimento, talvez um segredo, um estar-se indiferente, solto ao léu. Não é a solidão. Daí o paradoxo da correlação. Das torrentes cumulativas projetando a policromia das paixões oscilantes. O arco-íris de forças polissêmicas que se propagam pela sinfonia dos afetos em transe. Dissonâncias austeras, elaboradas e profundas. Fundas camadas escatológicas. Partidas de um cérebro em crises epilépticas esporádicas, humilhantes. O espasmo que se dissolve em relaxamento. Num desequilíbrio afortunado. Numa metamorfose ao espelho do princípio da gestalt da jornada da criatura na crosta rastejante da terra. Que implica em modelo de observação participante. De ímpeto ao encontro das situações. Das circunstâncias e de personalidades ímpares: circuncisão do (des)semelhante. Um impregnar-se de impurezas. Um inocular-se nas artérias da cosmovisão. Farol voltado para a imensidão de si mesmo à velocidade do dínamo da mente concentrada, condensada e múltipla. Obra de reconciliação com a inteligência e o delírio. Construtor de mosteiro profano de cujas paredes ásperas ecoam silêncios, sussurros. Elaborador de castelos metásticos por onde circulam gracejos e estertores. As híbridas entonações da alma em trânsito.

A imagem fotográfica que nos fica de um Machado contido, de bengala, colete e chapéu coco pelos paralelepípedos do Rio de Janeiro antigo. O escritor mulato entre o dilaceramento e as passagens ditosas – intercruzamentos. Compondo as pulsões. Decompondo as crispações. Descrevendo os sorrisos ao avesso. Numa sociedade de deformidades. Em transição. Por subjetividades de possesso. Baile grotesco à luz de lampião de gás. Disfarces de sombras chinesas voláteis. Passo pra frente com palhaço; passo pra trás com anti-herói. Invade o salão um vira-lata. E a paisagem segue em linha reta e em curvas. É como se a despedida fosse um mantra. Naquela atmosfera melancólica porém serena, crepuscular. A vida e o seu curso macio, com atropelo. E dando oportunidade ao leitor calmo para, nas entrelinhas, assomar-se a uma sonata. Enquanto Machado desliza a sua pena numa escrita noturna à luz de vela em que se escuta a gravidade das palavras. São garatujas incandescentes, mediúnicas, nervosas e apaziguadas. Pra lá de insólito.

Fissão literária, abrupta.

O tríptico ontem/hoje/amanhã pluridimensional desmonta o rigor cronológico hierático. O escritor assume a ruptura no pico da sua experiência artesanal de interlocução permanente com o leitor. Demandando uma tensão estética. Enquanto a suprarrealidade é partilhada pelo corte sistemático da escrita. Um modo de escrever assimétrico onde o curso do tempo se pauta pelo teor cíclico. Num fluxo descontínuo de acontecimentos em que o exterior e o interior se fundem em pacotes similares às ondas de luz. Justaposição de seixos elétricos de saber quantum. Disposição de camadas fluidas borbulhantes. Escaninhos oceânicos. Idéias que se desprendem da cachoeira temporal. Trovoadas ideogrâmicas do léxico português. Uma cascata de sensações e talento.

Viagem à roda de mim mesmo contempla o rio do tempo à lira ainda saudosa dos vinte e um anos passados. Embora o relato elimine a linearidade temporal e opte pelas elipses da lembrança na escala da paixão e da apatia. E olha que já lá se foram as paixões. (...) E se não se tem o que dizer, melhor calar. O silêncio da sabedoria que vive a dedilhar palavras incertas. Porém duradouras. Naquele palavreado que tinge a página de incertezas numa escrita livre e direta. Importa atingir o alvo: a alma.

Por trás das paisagens bruscas, os espíritos se dispersam nas brumas do tempo. Machado então capta o que envolve numa operação verbal cirúrgica. Ele sutura seus personagens pelos fios de seus cabelos. Apesar dos olhos serem o ponto nevrálgico. A sua mônada de inclusão. Sobretudo os olhos de mulheres: “olhos gelados” de Henriqueta; a Capitu de “olhos de ressaca”. Não há nenhuma descrição. Nem o autor possui o dote da discrição. Ele é invasivo: até cruel e imoral com suas criações. Num desatino. Numa tempestuosa imaginação que beira o transe. Epopéia de frustrações outonais. Resvalando ao grito sufocado sob o urinol de louça chinesa do fracasso. Um olhar engajado na ousadia do distorcimento. Na rotação do elogio da queda que se deprime pela derrota. A exclusão atmosférica da degradação da flor no paraíso indecente.

Uma viagem em volta da palma da minha mão

A sociedade brasileira debutante de urbanismo põe-se ao reverso. Isso por intermédio de um minimalismo individual que transcende o biológico para ingressar na metafísica. Uma filosofia artística, todavia. Com direito a toda digressão em torno do coração, da política, da economia, do purgatório, da galhofa, do conhecimento vasto, da lingüística, da ética, do valhacouto, da alcova, do germe, das vísceras, do cosmo, da moda, do chiste, do faz de conta... Enfim, uma enciclopédia da comédia humana tropical sul-americana ou desterritorializada. Ou quando o sorriso brota da sepultura em flor no parnaso. Enquanto se gera no leito de cada segundo mais uma criatura com todo o ´legado da nossa miséria´.

E assim a roda gigante gira gira gira pela constelação dos sofrimentos e das alegrias sob o aplauso de mascarados. A momice da malícia sem galhardia. A caricatura das personas. As essências na esquina do pudor. Os vigaristas e as sublimes distorções. A horda das contingências.

Não foi Dostoievski que descobriu o duplo de si mesmo: a recíproca é verdadeira - o eu já nasce com o outro dentro de nós mesmo; e nós sendo a carapuça do eu ao quadrado. Uma questão matemática, pois. Senão, geométrica. Mas interessa a Machado o tom da ambivalência na rede invisível da rotina do cotidiano. Esse é o mote da sua pena implacável. A realidade monótona sendo gasta como ´sonhos gastos como moedas´. O devagar das horas se enfada com o auxílio inexorável do desdém. O diário que se sucede em acasos ou predestinações ao sabor do vento. Quiçá obediente a um ente mecânico ausente à existência. Na rotina, que é a graça inválida. Tenha pois calma, caro leitor. Sossega. E respira fundo, lentamente, pausadamente, quase ao ritmo manso duma pluma ao ar... uma vez que a morte seja a imobilidade do tempo. A negação radical de tiranas ampulhetas.

“Acorda, Plácido!”, assim o narrador oculto de Viagem à roda de mim mesmo se reporta ao personagem principal do nó górdio. Acorda, rapaz, para os caprichos do destino. Pois o futuro está dentro do bolso de sua velha casaca. O futuro misturado com a poeira do passado e o pó do presente. Um amálgama que não dá mais para separar: ta tudo grudado num visgo só. Ir saltando as fronteiras invisíveis do cíclico. Sem o heroísmo personalista rapsódico.

O indivíduo seria o limite do mundo. E o amor se inviabilizaria nesse mundo. Uma vez que a união implica-se no ilimitado: a fusão exige perfeição. E a comunhão reflete o eterno: uma qualidade diáfana. Que o corpo nega. E a realidade obedece. Uma encruzilhada, entretanto, nos interstícios do labirinto. Um recorte pictórico que beira a simbologia do indecifrável. Num olhar que mira a esfinge nossa de cada dia. O feijão com arroz do mistério. Quem ousa desvendá-lo?

O amor seria um crime?

Ah! esse ideal provocante de combinação metaquímica. O fado que desafia superar os antagonismos latentes. Sustentando o pêndulo do incômodo real. Carregando o fardo na ressonância do drama realista psicológico. Num entreato sofrido. E desentendido. Inconsciente, demente. Numa pândega autoirônica. Patético rito com o traço burlesco de fantasmas insones. Um turbilhão de formas insatisfeitas na quintessência. Mas em busca de sentido. De dar significado à coisa em si. De reconhecer-se. Ao tempo em que se desconhece – oscilação fugidia.

Uma viagem em volta de minha sombra

Partículas alucinadas. Essa combustão no vácuo. A provocar desassossego. O mal-estar, desse modo, não é secreto. O imprevisível impera nos poros das letras conjugadas. Essa articulação de pesos e medidas. O contrato de aliança permanecendo na superfície das relações. Sendo uma exigência da condição humana. Uma necessidade. Que se abre para o precário, para a estupidez ou para a farsa. Pano de fundo de uma estética do desamparo. Aquela superestrutura do fracasso. Conquanto revestida de sutileza e esforço de precisão. Ou seja, cortando desmedidamente os excessos e só deixando a nervura do núcleo de expressão. O sumo da corrente. Numa equação de severidade lingüística. Com o subentendido das séries não lineares estilísticas. Resultando na construção artística do atributo de diversidade pura. Essa complexa e preciosa heterogeneidade eqüidistante do mecanicismo automático.

O mundo é o negativo da alma. Essa imbricação de sujeitos. A nódoa no coração. O peitoril maculado. Numa paisagem embotada cuja efemeridade marca o pano de fundo vazio. Ao tremular de passos na rua suja. Aonde personagens vagam sob as estrelas que cintilam para o nada. Ao escândalo de pensamentos e emoções tremulantes. Tudo não passando de um quadro emoldurado e preso na abóbada celeste. Vagas interpenetrações e ajustes de interdependências. Um conglomerado de perspectivismos. A concha que reproduz o som da un-idade dentro do uni-verso. Dessa diversidade única, intransferível, que se manifesta no minimalismo da troca de olhares: close-up na retina do ser.

O paralelismo de olhares funcionando como o antagonismo do quadro de situação cênica. Uma ética pictogrâmica na sua correlação de forças telúricas. Uma energia emanada do imanente. Na divergência de posições que enquadram o perspectivismo do vago olhar de cada um. Há um oco em cada segmento. Em cada ângulo. Em cada vértice. Cujos quadros são envoltos pela cortina de fumaça que descreve o circunstancial das incompatibilidades de gênio. Que se revela ou que se esconde. Numa névoa de divergências. De transições persistentes. De passagens ao vento dos eus. Num solipsismo que consiste em transpor o tempo. Em emendar o soneto da existência. Em reparar equívocos. Na constatação de ilusões. Ou na aquisição compulsiva de perdas. Mandala dos erros. Carapaça da dissimulação. Esse círculo moralista da tradição na espiral dos espíritos que viajam no tobogã da eterna expectativa. Essa ânsia que é uma provação, ou angústia, ou spleen.

A dramaturgia é atmosfera. A palavra, música. O sentimento, cadência. A gramática, dissolução. E a inteligência é o tom de corte seco, [in]direto - até inconveniente. Num esgotamento sereno, quase memorial-espiritual, uma solenidade de despedida, resignada, impiedosa, uma prece lúdica à natureza humana dilacerada, condenada à introjeção da prosa do mundo. Essa mônoda prisioneira do túmulo cósmico panteísta. A fisionomia de um espaço prenhe de abandono, esse torrão desolado, pasto estéril aonde se divisa o horizonte desértico das miragens da insensatez na verticalidade do íntimo hibernado. Esse adormecimento que entorpece os sonhos. E cujo fundo reacende a translucidez do desvario insigne. O colapso do tino lá no imo.

É Machado num percurso árido povoado pelo absurdo operístico do humor. A urdidura de um pequeno conto diante do contexto do riso (...) de Mona Lisa. Vaga sensação de disparate. De chiste. Ou a fina ironia da sombra para com a desfaçatez da luz. O sarcasmo disciplinado em letras neutras. Descarnado de ornamento. Língua nua e crua. Verbo primordial. Morfologia do arcaísmo no presente dilatado, absoluto. A pronúncia primeva. Sintaxe tardia. O tumulto na alquimia da clareza. Quando a magia cruza com a filosofia, e a literatura se engravida. Num surto.

Uma viagem em volta do meu engano

A memória salta como relâmpago. Recua e se adianta na curva da inconstância do tempo. Sem intervalos. A lembrança como cápsula a navegar no éter. Impossível deter-se no instante preciso. Pois não há precisão das horas. Os ponteiros do relógico foram arruinados. A sombra fica extática no meio da ponte. Enquanto o rio flui em ondas e espumas. E a vida é uma galera embriagada de ócio. Embora exija muita energia para acompanhar o ritmo do movimento continuum. Não há quem o detenha. Quem o paralise. O momento é volátil. Há uma batalha das horas. Assim como corre, paralela, a guerra do amor. Esse amor satélite, até “enjoado”. Esse dito amor que não quer ajoelhar-se aos pés de ninguém nesse mundo grotesco. A curva amorosa na iminência do desmaio. Quando então a alma dá um soluço e se surpreende golfando sob as estrelas opacas.

Pois que o espelho distorcido do personagem nuclear se manifesta na jovem viúva Henriqueta revestida pelo luto do mistério do himeneu. Uma paixão tão acanhada, que beira ao ódio recalcado, remoto, por trás da reticência gráfica. Num amor que se reveste de retaliação ao outro. O ambíguo amor-ódio recôndito que permeia a relação indecisa do casal. Algo não revelado. Assim não declarado. A fúria ou o palavrão não ditos ou não escritos no relato, quiçá por recato de estilo. Senão pela nuance de contar um conto, e pronto. Uma forma de narrar que se assemelha ao furo da navalha na pele. Recurso literário que se desvia da timidez das personagens através de pausas elípticas temporais. Que envolve o leitor e o atrai para o labirinto das experiências humanas. Com a audácia criativa como âncora da construção artística.

A estrela trepa no telhado e ri da miséria alheia. Para completar o escândalo astrológico, o sol saltita em traje de seda diante dos casarões. A ambiência do urbanismo carioca é afetada pelo delírio dos trópicos nos finais do século XIX. A periferia do capital sacode a ordem mental dos personagens provincianos. Mas é o amor que está em pauta. Ou seria o ódio? Não, é o amor mesmo. Ele, o tal.

O que será que será? (...)

Bem, estamos na berlinda da impossibilidade do amor, que rima com rancor. Afinal, defrontamo-nos diante do desejo. E sem subterfúgio. Frente a frente. Escancarado na pena impiedosa, por capricho de Machado. Ele que projeta o desarranjo. Que nos faz enfrentar o estranhamento e que tece a trama não convencional de desconforto.
Esse incômodo em torno de uma palavra singela e querida: amor.

Uma viagem em volta da minha comédia

Mas bem que poderia ser carência. Ou a idealização órfica da fusão, da transfusão, do umbilicamento, das geminações. A inconstância do eu no cobertor do apego. Envolto na posse com as inevitáveis espumas azedas de raiva, ciúme. A tempestade do afeto em desamparo. Enquanto o outro sendo a promessa. E nesse tumulto as vozes dissonantes da alteridade não passam de quimera. Essa polifonia que se projeta e se esvai nas escalas impuras e infinitas das distâncias estelares. Uma sucessão de paixões a vagar na trilha sonora cacófona do cosmo.

Na dispersão da mente, da emoção e do orgânico que convergem para a quiromancia do destino. E sua aspereza. Esse espasmo de inteligência no contraponto da demência. A desfilar na atmosfera azul sob nuvens em êxtase de impermanência. Ao crepúsculo da ânsia pela realização da alma gêmea. Mas que se dilui em frustração ou engodo ou tolice. Escorrendo pela memória e evadindo pelo esquecimento. Na extração do sumo da felicidade com o fastio da desgraça.

A gangorra da vida. Fortuna e azar. Clareza e obtusidade. Entre o murmúrio e a cicio do moribundo. Campo e contratempo. O prisma que decompõe os sentimentos. A forma que se evapora. Dilema essencialíssimo. Enamoramento. Mistura, combinação ou obstáculo. A violência se gerando em placenta de lama. A paixão contempla o precipício. O sangue corre pelo vale das almas. O amor como subjugação de um pelo outro: déspota das sensações. Seria uma flor de lótus na caatinga do coração?

É possível.

Desconfio que pelo canal remoto do medo vaze a dor imemorial da culpa, tirana. O duelo subterrâneo da solidariedade com o egoísmo, a compaixão e a ingratidão, a indiferença e a tolice. Constituir-se-á a cortesia uma `barretada` de insignificâncias? Ou tudo não passará de incertezas? ou de sutis dubiedades no cerne da personalidade de cada um? A dúvida é o adequado consolo do escritor _ a interrogação como o travesseiro do sono da existência-sonho. Ele só não pode ser indeciso no uso preciso da palavra. Ou quando a presença do silêncio efetiva-se como instrumento paradramático. Só as personagens têm direito às indecisões, aos enganos e às lacunas. Ao leitor com soberania: conceito pra lá de obra aberta, escancarada.

A arquitetura da grande arte se espelha na clareza formal das catedrais. O numinoso que evade desses vitrais funciona como refúgio à imaginação. A consciência se dilata na proporção inversa dos quadrados da distância. Numa reverência à beleza como medida de todas as coisas.

O verbo reproduz a duplicidade “entre mim mesmo e mim” reaproveitada pelo classicismo de Camões que vai pongar na modernidade burguesa de globalização. Divisória internalizada. Essa reunião de duas almas e dois corpos no discurso. Num amplificado panorama de obras cuja matriz atômica é o desejo de mergulhar na alma sem recato. Portanto, um projeto de introspecção que vai podando as arestas da paisagem ordinária para o ingresso sem vertigem no fundo de alguns abismos. Esse o intento. Essa a determinação. Por trilhas demasiadamente humanas. Até o insuportável. Embora sem perder o juízo das cenas epifânicas. E de soslaio, pela coxia da ribalta, a loucura hierática acena da sacada do sobrado rococó com seus lenços de cambraia azul marinho. À medida que a cartomante atravessa o umbral do portão de saída. Ou seria de entrada?...

Uma viagem em volta do meu réquiem

Inocência é a linha perpendicular de móbile predestinada ao acaso de vento virtuose, suspeito. O inocente equivalendo ao aborto no paraíso. Uma digressão especulativa infernal. Transgressão à galope. Extremo dual confrontado ao uno. A besta se deita no leito do espírito. O mundo é conspurcação. O lodo ofusca o diamante puro. Choque de posicionamentos. Espelhos se intercruzam. Realidade ao viés de sonho. Elegantes pensamentos cósmicos e microscópicos. A viagem é a metáfora de mente na sua inquietude desenfreada. Um complexo deslocamento no campo magnético. Uma projeção. Assim adentra o livro Voyage autour de ma chambre (Viagem à roda do meu quarto) do francês Xavier de Maistre, publicado em 1872, na tradição enviesada dos grandes relatos de aventura do eu. Sem se omitir ao modelo pioneiríssimo de A sentimental journey through France and Italy (Uma viagem sentimental através da França e da Itália) do irlandês Laurence Sterne, publicado em 1768. Frutos suculentos de estímulo à capacidade inventiva. Sincronicidade em traços notáveis. Tropo de singularidade. O assombro.

O antecessor é o fecundo primordial. Desfruta do deleite da forma que precede. Prático prestidigitador da jornada do herói lendário. Essa ritualística mítica. Aparato lingüístico encorpado de código, convenção, signo e símbolo. Quando então se dá conta do afundamento fatalista matriarcal/patriarcal da célula familiar em maçante gestual de sedentário que evoca a hodierna solidão primigênia. A morada de subjacente âncora para a travessia de navegação imprevisível. Rota de invenções farsescas. Motor de deboche. A pantomima de lágrima circense.

Uma literatura em voga de marcha lenta que Machado saboreava com a identificação irônica de uma certeira metalinguagem onde o leitor assume papel de distanciamento crítico diante da mimese. Reviravolta. A circulação de ideias via Atlântico, à periferia morena. Desde quando o urbano ganha contorno e perfil mercantilistas republicanos improvisados e deformados pelo suor dos mares salitrados de uma sociedade patrimonialista com verniz escravocrata. Um iluminismo bruxuleante acentuado pela áurea ainda romântica dos acendedores de lampião que de vez em quando assobiavam polcas na Rua do Ouvidor.

Esse eu prisioneiro do mundo e da própria carapaça. O ego do deixar-se levar do viajor e dos seus desembarques. Mas, cá com o meus róseos botões, a prisão poderá acenar para a liberdade?

Ilha de si mesmo, à deriva do outro, admirando os astros quais pedras preciosas distraídas no céu ausente. Sinais de solidões celestes desligados na aparência mas conectados em essência. Esses transportes encantados de banzo, saudade, de triste-alegria. Céleres afastamentos estelares expansivos a correr para os apartados de outros quarteirões das galáxias. Mundo fechado, inesperado. Mundo aberto, dependurado. Sensação de vastidão cintilante nas nossas cabeças desoladas. Seres sem vizinhança palpável. Numa sina de expectativa e ameaça velada. Pressentindo zonas de desentendimento. Pressentimento de distâncias despovoadas, alheias, desinteressadas.

Hesita-se de que uma possível fundição arremate o mundo. Daí que, viajar é transpor. Tudo vibra através da tradição oral das “mil e uma noites”. Essa lâmina que corta fino o sistema do infinito. Deixa a matemática zonza. E em que o espectador da eternidade cai no escuro do esquecimento histérico. Na renúncia ao tempo que é a “punição do pensamento”. Esse mesmo tempo sendo a serpente que se come pelo próprio rabo. Na hora do canalha buscar a proteção no afago do apego. No último segundo do tolo se refugiar na prisão sob as nuvens na sua inconstância permanente, monótona e sorumbática, porém bela e arredia. Acolá na prudência da alienação. Pro outro lado de cá das constelações faiscantes no campanário bucólico pelo véu da vacuidade: o avesso de si mesmo.

Uma viagem em volta da minha vírgula

domingo, 3 de junho de 2012

Liberdades iradas


JANIO DE FREITAS


Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo 

O excesso de raiva e a aparente perda de controle em Gilmar Mendes talvez expliquem, mas não tornam aceitável, que um ministro do Supremo Tribunal Federal faça, para a opinião pública, afirmações tão descabidas.

Nem o próprio Supremo é poupado no ataque atual de Gilmar Mendes, que assim o define em entrevista ao "Globo": "Já é um Poder em caráter descendente". Não há por que duvidar desse sentimento particular de Gilmar Mendes, mas também não há como atribuir a tal afirmação, feita de público e plena gratuidade, um qualquer propósito respeitável.

Ali demolidor, pelo método da implosão, é também deste ministro, no mesmo dia, porém àFolha, a atribuição deste motivo para o que diz ter ouvido de Lula: "Dizer que o Judiciário está envolvido numa rede de corrupção", para "melar o julgamento do mensalão".

A afirmação sobre o Supremo, com provável sinceridade; a outra, uma ficção sem sequer um indício em seu favor. Lula, o PT e os réus do mensalão nada ganhariam com uma investida contra o Judiciário. Sabem disso na mesma proporção em que a imaginação ficcionista não sabe.

Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo. Já deu, por exemplo, três versões para o custeio da viagem em que se encontrou, na Europa, com Demóstenes Torres. A tal viagem das suas sensibilidades tocadas pelo que "pareceram insinuações" de Lula.

Na primeira referência feita (estão todas impressas e gravadas), disse haver respondido a Lula que viajou "com recursos próprios". Na segunda, fez viagem oficial, custeada pelo Supremo, para um evento na Espanha, e dali à Alemanha pagou ele mesmo. Na terceira (ainda na entrevista ao "Globo"): "Fui a Berlim em viagem oficial. Por conta do STF".

Afinal, não se sabe como a viagem foi paga nem isso está em questão. Mas é compreensível que estivesse em boatos. Como amanhã pode estar a história de que Lula planejava denunciar o Judiciário como uma rede de corrupção. Por haver boato sobre a viagem, e indagar a respeito, é "gangsterismo, molecagem, banditismo, a gente está lidando com gângsteres", como disse Gilmar Mendes? Não, não disse: vociferou, iradíssimo.

Com base em que fatos um ministro do Supremo Tribunal Federal faz a acusação pública de que Lula -no caso, importa sobretudo serem um ex-presidente da República e um magistrado- é "a central de divulgação" dos boatos infamantes? Acusação de tal ordem não precisa nem indícios, é só emiti-la?
O Congresso foi poupado da reação de Gilmar Mendes graças à falta, na inquirição de Demóstenes Torres, de uma pergunta que, normalmente, não faltaria. Logo no primeiro lote de telefonemas gravados de Carlos Cachoeira, apareceu o pedido do senador de que o contraventor pagasse os R$ 3.000 de um táxi aéreo. Gilmar Mendes, negando ter usado avião de Carlos Cachoeira, disse que foi a Goiás convidado por Demóstenes Torres, para um jantar. Foi "de táxi aéreo".

Ninguém perguntou a Demóstenes que voo seria pago por Cachoeira. Ninguém perguntou se Gilmar Mendes e outros ministros estavam no voo dos R$ 3.000. Nada demais se estivessem, nem poderiam saber quem viria a pagar pelo voo. Apesar disso, a encrenca resultante já estaria engatilhada, com a imagem institucional do Supremo a aguentar suas manifestações.

Com muita constância, somos chamados a discutir o decoro parlamentar. Não são apenas os congressistas, no entanto, os obrigados a preservar o decoro da função.

Folha de S.Paulo
31/05/2012 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um profeta e duas irmãs


CARLOS HEITOR CONY

Aos olhos do Criador, um excremento humano ou bovino pouco difere de um hambúrguer ou pizza


Ezequiel, escravo dos Caldeus, teve uma visão às margens do ribeirão do Cobar, afluente do Eufrates.
Não devemos pasmar de ter Ezequiel visto animais de quatro faces e quatro asas -isso andava em moda naqueles tempos, e o todo-poderoso, cuja autoria dessas visões bíblicas é inconteste, tinha pouca imaginação e muito se repetia.

Mas devemos pasmar da sutileza de Yahveh (também conhecido como Javé), que mandou a Ezequiel um estranho mandamento: comer, durante 390 dias, pão de cevada coberto de excremento humano.
O profeta cumpriu o mandamento sem relutância, mas, à altura de 156 dias, já estava farto de comer excremento humano e apelou para a misericórdia divina no sentido de obter pasto mais saboroso. A bondade divina logo se fez sentir, e Ezequiel obteve consentimento para comer excremento bovino.
Homens ímpios dos séculos que se seguiram acharam semelhante mandamento indigno da majestade divina. A impiedade de tais homens fez com que fosse esquecido um detalhe: aos olhos do Criador, um excremento humano ou bovino pouco difere de um hambúrguer ou de uma pizza napolitana.

Depois de Ezequiel ser submetido a tão longa e extraordinária dieta, não é de estranhar que a leitura de seus livros (que integram o Antigo Testamento da Bíblia, tanto a judaica como a cristã) fosse proibida nas sinagogas aos menores de 30 anos -limite moral que os povos posteriores baixariam para os 18 e, mais tarde, para os 16. Pois Ezequiel é como um ancestral do Nelson Rodrigues, um Henry Miller, uma Dercy Gonçalves dos velhos tempos.

Vejamos o edificante capítulo 26 de seu profético livro: "Quando nascestes, ainda não vos tinham cortado o cordão umbilical, estáveis completamente nua, eu me apiedei de vós: depois crescestes, vosso seio se formou, vosso sexo cobriu-se de pelos, eu passei e vos vi e cobri vossa ignomínia, estendi sobre vós o meu manto, vos lavei, perfumei e vesti".

Quem diz isso é o Senhor. E o mesmo Senhor prossegue no seguinte passo, ainda segundo o relato atribuído ao Espírito Santo ou a Moisés -o direito autoral dos livros sagrados é irrelevante: "Então confiante em vossa beleza, fornicastes por vossa conta com todos os passantes e vos prostituístes até nas praças públicas e abristes as pernas a todos os viajantes e vos deitastes com os egípcios, os medas, os persas, os assírios, os caldeus, os filisteus e os homens de todas as tribos ao longo do Eufrates". A expressão "abrir as pernas", que muito se usa no futebol e na política para significar amolecimento do jogo ou maioria parlamentar, tem, como vemos, uma origem respeitável.
Além do capítulo 26, há o 28, cujo santificado teor é o seguinte: "Oola era louca pelos jovens senhores, deitou-se com os egípcios desde a mais tenra idade".

Pelo visto, o divino Espírito Santo nutria birra especial para com os egípcios, pois deitar com eles era cúmulo, o sumo da vergonha e da depravação. Logo em seguida, há o relato das aventuras da irmã de Oola, cujo nome era Ooliba, e que fornicou até com os medas e assírios (outra pinimba do Espírito Santo). Quando descobriu sua vergonha, tratou de multiplicar suas fornicações. No fim da vida, só fornicava com homens "cujo membro se parece com o do asno e que expandem sua semente como cavalos".

O sábio Concilio de Trento (1545 a 1563), manifestando-se sobre esses piedosos trechos, louvou a sutileza de simbolizar em Oola e Ooliba as iniquidades de Jerusalém e de Samaria.
E o profeta Ezequiel, por cuja boca falou o Senhor de todas as coisas, aí está a espera que um consórcio ítalo-americano, sob direção de Scorsese, Spielberg ou Zeffirelli, ou mesmo de um produtor nacional com patrocínio da Petrobras e com os benefícios da Lei Rouanet, faça um filme sobre as duas irmãs.

Seus edificantes ensinamentos bem merecem uma superprodução histórica, com leões, elefantes, trovões, raios e coriscos, palácios de papelão, gladiadores, música de Morricone, cor em alta definição, censura livre e bonequinho de "O Globo" aplaudindo de pé. Se precisarem de mim, estou às ordens para fazer o papel de um dos egípcios. Em último caso, de um assírio.

Folha de S.Paulo
01/06/2012