Total de visualizações de página

Seguidores


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

As idiossincrasias do casal Tolstói


Amor, sexo e ciúme

A turbulenta vida familiar do casal Tolstói 




RESUMO
A "beatificação" do autor de "Anna Kariênina" e o estigma de "megera" de sua mulher reforçaram a mística em torno do casal Tolstói. Em textos de Liev, contra o casamento e a hereditariedade, e nos diários de Sofia, marcados pelo ciúme e pela devoção, aflora a peculiar visão de amor, sexo e vida familiar do mestre russo.

BERNARDO CARVALHO
ilustração MARCELO COMPARINI


O CASO FAZ PARTE do anedotário da literatura universal: na madrugada de 28 de outubro de 1910, aos 82 anos (48 deles casado), Liev Tolstói (1828-1910) abandona para sempre a propriedade rural da família, Iásnaia Poliana, onde nasceu e onde será enterrado dias depois, a 200 km a sudoeste de Moscou. Como o protagonista de sua novela "Padre Sérgio" (1898), pensa em se refugiar num mosteiro distante ou numa ermida e lá, longe da mulher, Sofia Andrêievna, viver finalmente em paz. 
Não é a primeira vez que foge (ou ameaça fugir) de casa. Vinte e seis anos antes, quando a mulher entrava em trabalho de parto (pela 15ª gravidez), o escritor saiu de casa para fazer a vida na América. E voltou horas depois, a tempo de ver a criança nascer.
"Ele estava passando por sua conversão -para o Cristianismo! Só que nesse Cristianismo, o martírio era meu", escreve Sofia Andrêievna nos diários recém-publicados em inglês, pela Harper Perennial, com tradução de Cathy Porter e prefácio de Doris Lessing. 
ATO PATÉTICO Ao acordar e ler a carta de despedida (desta vez, definitiva) do marido, ela decide se afogar. Está com 66 anos. Atira-se num tanque. O ato patético e intempestivo lembra mais uma cena do filme "A Última Noite de Bóris Grushenko", de Woody Allen, do que um texto do autor de "Anna Kariênina". Não é a primeira vez que ela tenta o suicídio. Nas anteriores, além do tanque, recorreu à inanição, à overdose por ópio e à morte por congelamento, indo deitar-se na neve depois de uma briga conjugal. 
Retirada das águas pela filha mais jovem, Aleksandra, de 26 anos, e pelo secretário do marido, ela passa dias delirando, aos prantos, até receber o telegrama de um jornalista caridoso que revela enfim à família o paradeiro do escritor -conhecido até então apenas pela caçula, que tinha razões de sobra para escondê-lo da mãe. 
"Serei grata até a morte ao correspondente do jornal 'A Palavra Russa'", escreverá anos depois a filha mais velha, Tatiana, num opúsculo publicado em francês, em 1928 ("Sur Mon Père", Editions Allia), para salvar a reputação dos pais -na verdade, mais do pai do que da mãe: "Se hoje saio do silêncio, é porque apareceram certos livros [...] que pintam um quadro falso das relações entre meus pais e, de minha mãe, um retrato deformado pela parcialidade". Ainda assim, não vai se conter em sentenciar sobre a mãe: "Esse ser doente, profundamente infeliz e moralmente só, me causava a maior piedade. [...] A culpa da solidão era dela". 
DEMÔNIO Informada pelo telegrama, Sofia parte às pressas, com os filhos, para Astapovo, onde uma pneumonia obrigou o marido a abortar a fuga -e onde ele agoniza, com febre de 40º C, na casa do chefe da estação de trem. Só vai conseguir vê-lo quando ele já estiver inconsciente. Como se escoltassem o demônio, os próprios filhos preferem mantê-la longe do pai, ao qual reservam tratamento de santo. "Retiveram-me à força, trancaram a porta, atormentaram meu coração", ela desabafa ao diário dias depois, já viúva. 
As circunstâncias da fuga de Tolstói são conhecidas (em seu diário, ele exprime a revolta e a repugnância de pegar a mulher vasculhando entre seus papéis pessoais, na véspera, às escondidas -não é a primeira vez, é claro, nem o pior que ela já fez). 
A julgar pelo testemunho da filha Tatiana, Sofia vai passar os nove anos que lhe restam depois da morte do marido preocupada em limpar o nome: "A calma veio para ela nesses últimos anos. [...] Era menos estrangeira às ideias de meu pai. Tornou-se vegetariana. [...] Mas conservou uma fraqueza: [...] temia por sua reputação. E assim não perdia a oportunidade de justificar suas palavras e seus atos". Não obstante, ainda terá forças para, pouco antes de morrer, durante a guerra civil que sucede à Revolução de 1917, encantar-se com os rapazes mais prestativos do Exército bolchevique acampados em suas terras. 
RAZÃO Contra tudo o que já se disse, a voz convincente dos diários vem dar alguma razão a essa figura condenada pela história a não ter razão nenhuma, megera histérica e intratável, principal estorvo na vida do santo escritor e de seu projeto de despojamento dos valores burgueses e dos interesses materiais. 
A publicação simultânea, na França, da autobiografia inédita, "Minha Vida" (Editions des Syrtes), e de uma nova tradução do único romance que Sofia Andrêievna escreveu, "De Quem é a Culpa?", relançado pela editora Albin Michel como "uma resposta a Liev Tolstói e a 'A Sonata a Kreutzer'" (novela na qual o escritor apresentava uma visão idiossincrática sobre as mulheres casadas e o sexo), faz pensar no sentido de oportunidade revisionista dessas edições como um efeito de certo modo tardio e desesperado dos estudos culturais e de gênero. 
Como se, além de pôr em dúvida a canonização do autor por ocasião dos cem anos de sua morte, já não restasse nenhuma outra forma possível de resistência ou dissonância ao consenso natural que vai se formando em torno do realismo da obra de Tolstói como paradigma absoluto para uma literatura que precisa superar os questionamentos pós-modernos e se massificar para sobreviver. 
MOÇA INEXPERIENTE Quando ele se apaixona por Sofia Behrs, filha de um médico do Kremlin cuja família vai lhe servir de modelo para os Rostov de "Guerra e Paz", tem 34 anos e ela é uma moça inexperiente de 18. Antes de se assentar na propriedade rural de 1.600 hectares e 300 servos, o jovem conde levou uma vida de prazeres em Moscou e São Petersburgo (à qual a mulher vai se referir como "as abominações do seu passado"), viajou pelo Cáucaso e participou como oficial do Exército russo na Guerra da Crimeia (1854-56). 
Mesmo antes de escrever as obras-primas "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", já era um escritor respeitado. Quando se encontram, Sofia está acompanhando a mãe e os irmãos numa visita ao avô, vizinho de Tolstói. Dois meses depois, estarão casados. Duas semanas depois de casados, ele lhe dirá que já não confia no seu amor. E em dois meses, ela estará grávida. 
A primeira gravidez é o batismo de fogo. Sofia passará por outras 15 até os 44 anos. E a provação só vai aumentar conforme também forem se agravando as contradições do ascetismo cristão prescrito pelo marido. Um ascetismo que, embora não lhe impeça o sexo fora do casamento (Tolstói teve um filho, Timofei, com uma camponesa, Aksínia, que vivia em suas terras) nem as crises de ciúmes, condena a contracepção e restringe o sexo matrimonial a fins reprodutivos, banindo-o durante a gravidez: "Ele não me deixa entrar em seu quarto [...]. Tudo o que é físico o enoja. [...] A verdade cruel é que a mulher só descobre se o marido realmente a ama quando está grávida". 
CIÚME Sofia se martiriza lendo o diário do marido às escondidas. É um costume incontrolável, que ela manterá até o fim: "Procuro com avidez [...] alguma referência ao amor, e fico tão atormentada pelo ciúme que já não consigo ver nada claro". Vai acabar encontrando: "Não existe amor, apenas a necessidade física do sexo e a necessidade prática de uma companheira de vida", ela lê no diário do marido. E responde no seu: "Quem me dera tivesse lido isso há 29 anos, então nunca teria me casado com ele". 
Os diários de Sofia revelam o escritor como a maior vítima dos próprios instintos: "Liovochka (diminutivo de Liev) me acordou esta manhã com beijos apaixonados [...]. Sucumbi à libertinagem mais imperdoável - na minha idade! [47 anos] Estou tão triste e envergonhada! [...] Que homem estranho é o meu marido! Na manhã seguinte a uma cena terrível entre nós dois, ele diz que me ama de paixão. Diz que está completamente sob o meu domínio e que nunca imaginou serem possíveis tais sentimentos. Mas é tudo físico". 
Em outra ocasião, referindo-se à filha Aleksandra, ela comenta: "Se ao menos ela soubesse como o 'papai' dela ficava animado depois de desfrutar do amor que ele nega!". 
Com 18 anos, Sofia ainda esperava que o nascimento do primeiro filho pudesse resgatá-la do martírio. Era só o início de um ciclo. Quando nasce Sergei, ela não consegue amamentá-lo, por causa de uma inflamação nas mamas. Tolstói se recusa a chamar uma ama de leite; acha que é dever da mãe amamentar a criança. Dois anos depois, tendo dado à luz a filha Tatiana, ela desabafa ao diário: "Agora estou bem de novo e não grávida -fico aterrorizada só de pensar na frequência em que estive nesse estado". 
E, alguns anos mais tarde: "Pensar nesse novo bebê me enche de tristeza; meus horizontes se estreitaram tanto e meu mundo é um lugar tão pequeno e lúgubre". Dos 13 filhos do casal que sobreviverão ao parto, 11 serão amamentados pela mãe. 
MANUSCRITOS Logo, entretanto, ela vai encontrar uma função além de procriar, amamentar, educar os filhos e administrar a propriedade: passa a datilografar os manuscritos do marido, obsessiva e incessantemente. É outra maneira de dar sentido ao casamento. "Liovochka estava mais carinhoso hoje. Chegou a me beijar pela primeira vez em dias. Estou copiando sem parar e fico feliz por ser de alguma utilidade." 
Quando Tolstói termina "Guerra e Paz", ela relata: "Liovochka passou o inverno escrevendo, irritadiço e excitado, muitas vezes com lágrimas nos olhos". A depressão, o temor da morte e a crise espiritual vão ganhando a alma do escritor. Ele abre uma escola para os camponeses, começa a escrever "Anna Kariênina", o filho Nikolai morre de meningite com apenas 10 meses e Sofia perde uma filha no parto. 
É inevitável ver na equação conflituosa e contraditória do ascetismo cristão defendido pelo autor da célebre abertura de "Anna Kariênina" ("Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira") um círculo vicioso e uma explicação possível para a sua inaptidão à vida familiar: o horror da iminência da perda, a ameaça de um sofrimento potencial que o maior número de filhos só faz renovar e que será confirmada pela morte prematura, em 1895, do temporão Ivan, adorado pelo casal, marcando com tintas trágicas os últimos 15 anos da vida do escritor. "A cada nova criança, sacrificamos um pouco mais de nossa vida e aceitamos um ônus ainda mais pesado de aflições e doenças", Sofia escreve no diário. 
HUMILHAÇÃO PÚBLICA É difícil não pensar também nesse horror como o que está por trás da visão tão peculiar e paradoxal que ele vai acabar exprimindo sobre o casamento, a mulher e o sexo em "A Sonata a Kreutzer" -e que Sofia receberá como uma humilhação pública. O amor é insuportável, porque é a iminência da perda. É a própria perspectiva do amor individual (e de suas consequências) que o leva ao cúmulo de prescrever a abstinência sexual no casamento, contradição que só se resolve no ideal do amor universal. 
O conflito se torna insustentável conforme Tolstói vai percebendo a incompatibilidade entre seus ideais e a realidade da vida familiar, que a mulher, cuidando dos filhos e da propriedade, passa a representar. Realidade que ele associa aos valores burgueses e, em última instância, à injustiça e à desigualdade social da Rússia czarista. O escritor passa a pregar o amor desinteressado pela humanidade, sem objeto definido, sem família. É o momento da "conversão". 
Quanto mais a mulher assume as responsabilidades da casa (ocupando-se das doenças e da educação dos filhos, da administração da propriedade e dos direitos autorais das obras do marido), mais ele rejeita tudo o que é material. Aos poucos, também a literatura vai dando lugar aos panfletos e artigos de cunho religioso e social, a ponto de fazer o autor renegar os próprios romances como moralmente irresponsáveis. 
Contra a truculência e a corrupção do Estado e da Igreja Ortodoxa, ele propõe um ascetismo incompatível com sua posição de proprietário de terras, tendo que sustentar mulher e uma prole que não para de crescer: "Hoje ele gritou [...] que o seu maior desejo é abandonar a família". 
PAPEL INGRATO Num cabo de guerra progressivo e silencioso, o escritor vai lutar para impor à mulher seu desejo de abrir mão dos direitos de propriedade, inclusive intelectual, condenando-a ao papel ingrato de matriarca insanamente apegada aos bens materiais em nome do futuro dos filhos. Ao principal discípulo e interlocutor, Vladimir Tchertkov, ele descreve a relação com Sofia como "uma luta até a morte". 
E ela se queixa ao diário: "Todos nesta casa -especialmente Liev Nikoláievitch, que as crianças seguem como um rebanho de ovelhas - me impingiram o papel de carrasco. [...] Pergunto-me por que já não acredito cegamente nele como escritor. [...] Liovochka tem agora apenas dois assuntos extremos de conversa: contra a hereditariedade e a favor do vegetarianismo". 
Aos poucos, Iásnaia Poliana se transforma em centro de peregrinação dos discípulos do escritor que Sofia identifica a fanáticos e aos quais chama "obscuros": "Não há entre eles um único normal. E a maioria das mulheres é histérica" (ironicamente, será o principal deles, Tchertkov, que, levando a obra do mestre para o exílio inglês, vai salvá-la da sanha destruidora do obscurantismo czarista). 
SONATA É nessa época que Tolstói ouve o filho Sergei ao piano, tocando a "Sonata a Kreutzer", de Beethoven, acompanhado pelo professor de música ao violino. Em 1890, a novela homônima é publicada, sendo em seguida censurada e oficialmente proscrita. Humilhada pela condenação veemente que o marido faz da vida matrimonial, Sofia reage, escrevendo o romance "De Quem é a Culpa?", publicado postumamente. 
"A Sonata a Kreutzer" conta a história de um homem que assassina a mulher, por ciúme. O personagem desfere um ataque radical ao casamento: "O inferno terrível, em consequência do qual aparecem bebedeiras, assassínios, o envenenamento de si mesmo ou do cônjuge [...] Insisto: todos os maridos que vivem como eu vivia têm que se entregar à devassidão, divorciar-se ou matar a si mesmo ou a esposa, como eu fiz". 
E sobre o sexo: "Observe o seguinte: os animais unem-se unicamente quando podem engendrar uma descendência, e o imundo rei da natureza, sempre que lhe apraz. E, como se fosse pouco, eleva essa ocupação simiesca a pérola da criação, a amor". 
Ainda assim, é Sofia quem vai tomar a iniciativa de pedir uma audiência ao czar, em São Petersburgo, para pleitear a suspensão da censura à novela do marido. Quando o czar lhe pergunta se ela deixaria os filhos lerem um livro como aquele, ela responde: "A história tomou infelizmente uma forma demasiado radical, mas a ideia fundamental é que o ideal da castidade absoluta é inatingível". E lhe assegura que o marido está disposto a deixar de lado os textos religiosos e filosóficos e voltar à literatura. "Seria ótimo! É um grande escritor!", o czar responde. E a publicação de "A Sonata a Kreutzer" é liberada. 
IMPASSE Os textos doutrinários de Tolstói fazem crer que o escritor abriu mão da literatura por um ideal moral superior e ascético de justiça para o mundo. O que se depreende dos diários de Sofia é, ao contrário, que a descrença do escritor na literatura era resultado do impasse ao qual fora condenado pela própria loucura. Nas últimas semanas antes da fuga, ele andava lendo "Os Irmãos Karamázov" e achando os diálogos ruins. 
"Acredito em bons e maus espíritos. O homem que eu amo foi possuído por maus espíritos, mas não sabe disso. Sua influência é perniciosa: seu filho está sendo destruído, suas filhas estão sendo destruídas, assim como todos os que entram em contato com ele", ela desabafa num dos instantes de maior desalento. E, sem perceber, descreve o que está na base do desespero do escritor. 
"Um cristão só pode contrair matrimônio sem cometer pecado no caso de saber que todas as crianças que existem têm a vida assegurada", Tolstói escreveu no comentário a "A Sonata a Kreutzer". Estava falando da miséria do mundo, é claro. 
Mas não é preciso chegar ao extremo de reduzir sua imagem pública de santidade e ascetismo a mera vaidade e egoísmo, como faz Sofia Andrêievna em sua exasperação cega, para entender que, se ele chegou à verdade terrível e autopunitiva dessa frase, foi porque também amou e viu a morte dos próprios filhos, dentro de casa. 

Contra tudo o que já se disse, a voz convincente dos diários vem dar alguma razão a essa figura condenada pela história a não ter razão nenhuma, megera histérica e intratável, principal estorvo na vida do santo escritor e de seu projeto de despojamento dos valores burgueses e dos interesses materiais 

Com 18 anos, Sofia ainda esperava que o nascimento do primeiro filho pudesse resgatá-la do martírio. Quando nasce Sergei, ela não consegue amamentá-lo, por causa de uma inflamação nas mamas. Tolstói se recusa a chamar uma ama de leite; acha que é dever da mãe amamentar a criança 

O conflito se torna insustentável conforme Tolstói vai percebendo a incompatibilidade entre seus ideais e a realidade da vida familiar, que a mulher passa a representar. Uma realidade que ele associa aos valores burgueses e, em última instância, à injustiça e à desigualdade social da Rússia czarista 

Hélio Fernandes não tem papa na língua


O surpreendente Palocci, que veio de Ribeirão Preto. Acusadíssimo de atos de corrupção, foi Ministro da Fazenda poderoso. Demitido quando “pensava” na Presidência, que vida. NEGATIVA e POSITIVA, até quando?

Helio Fernandes
Sua vida pública, (só a pública?) é cheia de altos e baixos, chamada de negativa e positiva. Não apenas uma vez, mas muitas.
Negativa – Veio de Ribeirão Preto, ex-prefeito, acusadíssimo de atos de corrupção, que depois amenizaram, passaram a ser apenas IRREGULARIDADES.
Positiva – Sem que ninguém acreditasse, foi nomeado Ministro da Fazenda, logo no primeiro dia do governo Lula, 2003.
Ninguém acreditou que fosse verdade. Receberam ordem para “promover” seu nome o mais possível. Recomendação: esquecer especialmente que ele é médico, lembrar que tem grande cultura, “é um dos maiores conhecedores da obra de Marx, embora não seja marxista”. Ha!Ha!Ha!
Positiva – Como Ministro da Fazenda, cresceu tanto, que passou a ser extraordinária sua repercussão. Incensado insensatamente pelo próprio Lula, que chegou a dizer várias vezes: “Fico esperando o Palocci me dar o SINAL VERDEpara pode baixar os juros”. Foi a maior ascensão, que eu me lembre, dos últimos 100 anos.
Negativa – É difícil resistir a isso. Na alucinada escalada do Poder, Palocci não via limites, não impunha conciliação, concordância, cooperação, “a não ser com ele mesmo”. É evidente que esse auge ou apogeu, traz ônus inavaliáveis, que muitos percebem, menos o protagonista ou personagem, o próprio Palocci.
Mais Negativa para Palocci, Positiva para Lula – Delirante de ambição, de Poder, de domínio, o ainda Ministro da Fazenda não olhava para lado algum, só se preocupava com ele mesmo. E numa comparação com FHC, Palocci só olhava para o espelho e na imagem projetada à sua frente. Para ele existia FUTURO, oPASSADO fora esquecido, o PRESENTE era penas a alavanca que o levaria à sucessão do próprio Lula.
Ninguém percebeu os objetivos de Lula, no primeiro período (os 4 anos iniciais). Lula escondeu muito bem o que pretendia. A vítima que abriu o projeto da continuação ilimitada, ininterrupta, inarredável e irrevogável, foi Aloizio Mercadante. Eleito senador, considerava que em 31 de janeiro de 2003, seria empossado senador e logo nomeado Ministro da Fazenda.
Não foi chamado para nada. Esteve na posse de Lula, era obrigatório. Mas ficou no Senado 8 anos, sem uma chance, oportunidade, recompensa, e ainda foi submetido ao desprezo, descaso e depreciação, no episódio da “demissão irrevogável” do cargo de líder do governo no Senado, mas permanecendo na liderança e “ganhando a derrota para governador”, que adiantei muito antes.
Silenciosamente, Lula mostrou toda a sua habilidade política, a capacidade de manobrar com todos, sem mostrar um mínimo de incapacidade. Nesse plano estava incluído José Dirceu, o mais poderoso de todos, tão forte e tão autoritário que, apesar de ser bom analista, não percebeu nada.
Também era o mais íntimo, como revelei há muito tempo, chamava Lula deVOCÊ, o presidente respondia tratando-o de SENHOR. Não era bazófia, e sim a utilização explícita da importância implícita.
Negativa – Voltemos a Palocci. Se andei um pouco no acostamento, tratando de Mercadante e Dirceu, foi para mostrar a desconhecida ou não pressentida trajetória maquiavélica, vá lá, do presidente. Mas a primeira vítima desse projeto de dominar e governar sozinho, teve como primeiro derrubado, Antonio Palocci.
(E começava, sem que se percebesse, a Era Dilma. Mas isso é outra história e outro personagem. Ela já atingiu o primeiro objetivo. Palocci, que já quis muito, se perdeu, quer se reencontrar consigo mesmo e com o Poder. Fica para depois).
Ministro intocável, pelo menos ele pensava (?) que era, Palocci resolveu fazer em Brasília, tudo o que havia feito em Ribeirão Preto, com extraordinário sucesso e impunidade total. A casa do Ministro da Fazenda se transformou num antro. De tal maneira, que Lula resolveu aproveitar a oportunidade e derrubá-lo.
Negativa final – A devassidão da casa do ministro, precisava urgentemente de uma devassa. E essa foi feita aproveitando o ressentimento de um senador. Tendo perdido a presidência do Senado, o que mais desejava, traiu a amizade e a confiabilidade de importante jornalista, que lhe contou, em sigilo, tudo o que se passava na “Casa dos Mortos”.
Palocci começou a cair, ficou tão exposto, que o empurrão de um caseiro, jogou-o do outro lado da cerca. Lula não perdeu a hora (“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”), eis Palocci enterrado e sem a menor esperança de ressurreição.
Morto, teve a sabedoria de compreender que morto tem que ficar obrigatoriamente em silêncio, não usou da palavra, nem para um protesto simbólico. Foram 4 anos de silêncio, até mesmo para “se vingar” do caseiro. Mas foi amplamente derrotado por esse funcionário humilde, mas digno e correto.
Negativa até no Supremo – Processado (indiretamente por ter se vingado do caseiro), foi massacrado pelo mais alto Tribunal do país. Foi desvendado, minuciosamente, todo o jogo do ainda Ministro, usando a Caixa Econômica (hierarquicamente subordinada a ele) para massacrar o caseiro.
Palocci foi humilhado, desprezado, ficou com as vísceras à mostra em praça pública. Perdão, no plenário do Supremo, que foi magnânimo com ele, poupando Palocci do “tiro de misericórdia”.
Mas Lula não teve o mesmo comportamento, demitiu sumariamente Palocci. E substituiu-o por Mantega, por quem Palocci exibia total desprezo.
Negativa política – Desapareceu da cena por determinação dos fatos, pela ação de Lula, mas teve um mérito (não sei se é a palavra certa, mas funciona) de compreender que a nova estrela seria Dilma Rousseff. Juntou-se a ela, “desprendidamente”, apenas com dois objetivos. 1 – Estabelecer com ela, ligação intransponível e indevassável. 2 – Voltar como deputado, embora em alguns momentos acreditasse e admitisse que a opção deveria ser ou poderia ser o governo de São Paulo.
Logo “desembarcou” desta segunda hipótese, se fixou em ser deputado. Como isso era fácil, ficou sempre perto de Dona Dilma, se tornou importante na campanha. Eleita, e formando a equipe de transição, lá estava Palocci preponderante, já não mais prepotente.
Positiva-Negativa – Foi lembrado para vários cargos, incluindo a Chefia da Casa Civil e a volta ao Ministério da Fazenda. Mas quando se falou nos dois cargos, o próprio Lula veio a público e retumbou: “Palocci, não”.
Ninguém entendeu, mas Lula e o PT são assim. E mais surpreendente. Depois da viagem “mágica” ao G-20, da liquidação de Celso Amorim, da elevação de Mantega (tudo por Dona Dilma), o ainda presidente Lula fez também o seu milagre. E REABILITOU Palocci, junto a ele mesmo e com repercussão no setor Dilma Rousseff.
***
PS – Agora, Palocci subiu aos céus. Pode ser escolhido para qualquer cargo. E ao contrário do que disse antes, indicado Ministro, Lula dirá bem alto: “Palocci,SIM”.
PS2 – Portanto, tudo já estava combinado. E surgiram mais cargos que podem ser ocupados por Palocci. E seja o cargo que for, Palocci estará sentado ao lado de quem daqui a pouco mais de um mês mandará em tudo. Pelo menos, é o que parece.
PS3 – E como Palocci pode ser, sem nenhuma surpresa, Ministro da Fazenda, já surgiu a ordem, dos bastidores para a praça pública: “Não esqueçam de divulgar que Palocci é médico”.
PS4 – Nem precisava, está aí José Serra, que pela primeira vez poderá servir de exemplo: “Eu não sou médico, fui Ministro da Saúde”. Na verdade, Serra e Palocci são o quê?
PS5 – No momento, ninguém sabe. Mas que não arrisquem colocar Palocci fora do centro de tudo. Têm 4 anos para isso. Quatro?

domingo, 14 de novembro de 2010

Ferreira Gullar e sua crônica dominical


Ah, se não fosse a realidade!


Ninguém imagina que Lula deixe dona Marisa em São Bernardo para instalar-se na alcova de Dilma



DILMA ESTÁ eleita e, a partir de 1º de janeiro de 2011, será a presidente do Brasil. Nunca imaginou que isso pudesse acontecer, nunca sonhou com isso, nunca o desejou e, não obstante, terá em breve, nas mãos, o mais alto posto político do país. Um milagre? Um passe de mágica? Se pensamos assim, o mago é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Inicialmente, apesar de sua indiscutível popularidade, dava a impressão que superestimara seu prestígio, não iria elegê-la.
De fato, como acreditar que uma mulher que nunca se candidatara a nada, destituída de carisma e até mesmo de simpatia, fosse capaz de derrotar um candidato como José Serra, dono de uma folha de serviços invejável, tanto como parlamentar quanto como ministro de Estado, prefeito e governador?
Não obstante, aconteceu. Para espanto meu e de muita gente mais, 56% dos eleitores preferiram votar em alguém que eles mal conhecem do que eleger um político conhecido de todos, contra o qual não pesa qualquer suspeita ou acusação desabonadora. E por que o fizeram? Porque o presidente Lula mandou.
E não foi só o pessoal mal informado que recebe Bolsa Família, não. Empresários, banqueiros e intelectuais famosos também apoiaram sua candidatura, porque Lula mandou. Mas não estou aqui para chorar sobre o leite derramado e, sim, para tentar ver o que pode acontecer em consequência disso.
Advirto o leitor de que não parto do princípio de que vai dar tudo errado, que o governo de Dilma Rousseff está condenado ao fracasso. Nada disso. Como muita gente, diante desse fato inusitado, nunca visto na história brasileira, pergunto: e agora?
Sempre se faz tal pergunta quando um presidente da República, seja ele quem for, assume o mandato. Ocorre que, pela primeira vez, pouco se sabe da pessoa eleita e, mais que isso, eleita porque alguém mandou. A pergunta que está na cabeça de todos -dos que votaram contra e dos que votaram a favor- é: quem vai governar, ela ou Lula?
É uma questão razoável, não só porque ela nunca governou nem mesmo um município, como porque Lula, sabendo disso, deve temer pelo que venha a fazer. E temerá, com razão, já que o fracasso dela, como governante, será debitado inevitavelmente na conta dele, responsável pela mágica que a pôs na Presidência da República.
Estará, assim, criada uma situação também inédita na história do poder central do Brasil: como Dilma não é responsável por ter sido eleita -e ocupar o lugar que só não é do Lula porque a lei não permite uma segunda reeleição-, talvez não possa fazer no governo senão o que for aprovado por ele.
Isso lembra, até certo ponto, a situação vivida por Cristina Kirchner, eleita presidente da Argentina graças à popularidade do marido, Néstor Kirchner, recentemente falecido. Enquanto vivo, era ele quem governava, sem maiores vexames para ela, uma vez que, casados, podiam até na cama discutir e acertar as medidas governamentais que ela tomaria no dia seguinte.
Já o caso de Lula e Dilma será mais complicado, pois ninguém imagina que ele deixe dona Marisa dormindo em São Bernardo para instalar-se na alcova da presidente Dilma, no palácio da Alvorada.
Nem se acredita, tampouco, que optem por um relacionamento clandestino para, em encontros secretos, disfarçados -ele de peruca loura e ela vestida de homem, bigode e barbas-, discutirem a volta da CPMF ou o que fazer com o MST.
Fora daí, o jeito seria divorciar-se e casar com Dilma, mas tendo o cuidado de deixar claro que se tratou de uma paixão repentina, fulminante, e não de um romance secreto que só então veio à tona. Tal solução tem o perigo de manchar a reputação dos dois, por oferecer aos maldosos a chance de sussurrar que a candidatura de Dilma teria origens sexuais. É risco demais, não dá.
A alternativa, então, talvez seja Dilma nomeá-lo chefe da Casa Civil, lugar antes ocupado por ela. Minha dúvida é se Lula, que se acredita o maior estadista brasileiro de todos os tempos, aceitaria função tão subalterna, especialmente depois dos escândalos que envolveram Erenice Guerra, a substituta de Dilma no cargo.
É problema dele. Apenas constato que, se é fácil, com truques mágicos, fazer acontecer o impossível, difícil é resolver os problemas reais. 

sábado, 13 de novembro de 2010

O dólar papel pintado


Em 1944, em Bretton Woods, o ouro foi considerado herança maldita. Substituído pelo dólar, pela primeira vez na História, a moeda de um país passava a servir de troca universal. Mantega não era nascido, podia ter estudado.

Helio Fernandes
A Segunda Guerra Mundial estava acabando. Desesperados, os alemães tentavam acordo de “paz em separado”, com os soviéticos, precisavam retirar tropas para fortalecer Berlim. Stalin não admitia, sabia que era ali, naquele momento e naquele local, que Hitler seria destruído para sempre. (Da mesma forma que Napoleão, 140 anos antes, derrotado pelo “general Inverno”.
Churchill e Roosevelt, que haviam feito boa camaradagem com Stalin, não queriam fortalecê-lo. Roosevelt era sincero, Churchill um tremendo jogador de xadrez político, que bebia, jogava e fumava, mas jamais perdia o rumo. Stalingrado ardia como a maior batalha dessa guerra, Moscou a 100 quilômetros de distância parecia uma chama, provocada pelas tropas de Hitler, entrando na União Soviética pela bela Ucrânia.
Enquanto ouviam as notícias pelo rádio (ainda não existia a televisão), Roosevelt e Churchill tratavam de um assunto que não pretendiam dividir ou debater com Stalin: a situação econômica do mundo. Sinceramente queriam o fim de Hitler, mas se usassem de sinceridade total, admitiriam que se Stalin desaparecesse junto com Hitler, não derramariam uma lágrima.
Convocaram então reunião de “aliados” para Bretton Woods, onde pretendiam fixar as condições e as regras da economia mundial. Lógico, tinham que dizer alguma coisa a Stalin, era imprescindível reconhecer a contribuição da União Soviética para a vitória sobre a Alemanha.
Mas para ele, para os países participantes, e até para o mais importante economista da época, John Maynard Keynes (o líder e organizador do encontro), não falaram tudo. Diziam que era para “regular a economia do mundo que surgiria depois da guerra”, mas não passavam daí. Era o que Keynes sabia e pensava que fosse verdade.
Apesar de ser inglês, Keynes não recebeu a menor instrução ou informação vinda do primeiro-ministro da Inglaterra. Por intuição, (e sem dúvida por competência, para a época era importantíssimo) se convenceu que as grandes potências não queriam mais o ouro como moeda-padrão.
Sabia muito bem como o ouro era raro e existente em poucos países, com isso os que possuíam o metal, ficavam tão poderosos quanto as potências dominadoras. Começou então, da própria cabeça, a planejar a implantação de uma nova moeda.
Já tinha até o nome, se chamaria BANCOR. Quando começou a falar sobre o assunto, ainda reservadamente, com os representantes de alguns países, é evidente que tudo vazou. (Como diria hoje, o “braço direito” de Dona Dilma, Erenice Guerra).
O presidente do Banco Central dos EUA (desculpem, não consigo lembrar o nome), acionado por Roosevelt, chamou Keynes para conversar. Mas o Banco Central criado em 1913 para tratar com os Rotchilds e congelar (“calotear”, como se acusa hoje o Brasil) amigavelmente as dívidas, não tinha importância para conversar com um economista da repercussão de Lord Keynes.
O constrangimento foi total. O presidente do Banco Central não conseguia explicar, Lord Keynes estava longe de entender, sabia que pretendiam alguma coisa dele. E pela forma tímida com que falavam, tinha certeza de que era fundamental.
Sobrou para Roosevelt, que não quis, mas concordou em pedir a Churchill para falar a Lord Keynes, também inglês. Mas esqueceram de contar a Churchill. Este finalmente explodiu e Roosevelt contou: “O que pretendemos é que dessa reunião de Bretton Woods, surja uma nova moeda universal, o dólar”.
Eterno gozador, Churchill perguntou: “Só isso?” Não sabiam se estava de acordo ou perguntando por perguntar. E aí, mais descontraído, Roosevelt, respondendo a uma pergunta sobre “O que Keynes ganharia”, não teve dúvida: “O que ele quiser”. Pode parecer exagero, mas o preço não era exagerado, os EUA estavam tentando controlar o mundo, e conseguiram.
***
PS – Keynes não teve o menor problema. Alguma dificuldade, apenas porque já falara na moeda BANCOR, agora teria que dizer que seria o DÓLAR.
PS2 – Quanto à recompensa, o economista sabia o que é eterno: “No capitalismo, nem um almoço é de graça”. Ficou esperando.
PS3 – Meses depois, o presidente do maior banco de investimentos dos EUA, procurou-o pessoalmente em Londres. Entregou um cheque com “quinhentos zeros”. Disse apenas, “sua conta está zerada”.
PS4 – Menos de 2 anos depois, Lord Keynes morreu de um câncer fulminante. Deus não perdoa.

domingo, 7 de novembro de 2010

Bela lição de Ferreira Gullar

FERREIRA GULLAR 

O imprevisível na arte

Quando as regras foram abandonadas, o imprevisível tornou-se um fator essencial da criação



TALVEZ A nossa visão da expressão artística se enriqueça se tentarmos mudar a maneira usual de entendê-la. Não há dúvida de que uma compreensão cabal desse fenômeno é quase impossível.
Digo isso porque tendo a achar que não há respostas definitivas para os problemas e, particularmente, quando se trata de matéria tão complexa e ambígua quanto a arte.
Estou convencido de que a obra de arte é resultado de um processo, que tem como fator consubstancial a imprevisibilidade. Isso se tornou mais evidente na época moderna, quando a expressão artística se libertou das normas que surgiram, séculos antes, nas academias de arte.
Uma série de fatores levara ao estabelecimento de regras e princípios a que os artistas deveriam obedecer; regras essas que nasceram da convicção de que a função das artes plásticas era representar a figura humana.
Uma coisa condicionou a outra: se a arte alcançaria sua mais alta expressão representando o corpo humano, era, então, obrigatório estudá-lo objetivamente e buscar, com rigor científico, copiar cada detalhe que o constitui.
E assim surgiu um verdadeiro código capaz de orientar o artista na captação fiel das particularidades do corpo humano. Normas e proporções preestabelecidas possibilitaram conceber a figura humana ideal, representada conforme relações e harmonia que não se encontram em nenhum corpo humano real. Por essa razão, a realização artística tornou-se previsível, ou seja, um procedimento regido de antemão por regras conhecidas.
Se é verdade que o grande artista nunca se submeteu integralmente a tais regras, não resta dúvida de que, quando elas foram abandonadas, o trabalho artístico sofreu uma mudança fundamental: o imprevisível tornou-se um fator essencial da criação artística.
O início se dá no cubismo analítico, quando a representação figurativa é substituída pela construção arbitrária da forma dos objetos. Agrava-se com o abandono dos processos propriamente pictóricos, substituídos pelo uso de papel colado à tela, arame, areia, barbante. Se o artista não tem qualquer compromisso com a imitação das figuras, que fatores passam a reger a realização da obra?
Do meu ponto de vista, com o cubismo, a pintura, que antes nascia das formas naturais, passou a nascer, na tela, da imaginação do pintor. "Cézanne, de uma garrafa fazia um cilindro; eu, de um cilindro, faço uma garrafa", afirmava o cubista Juan Gris (1887-1927). Essa autonomia da linguagem levou a uma exacerbação que ultrapassou os limites: tudo o que se punha na tela virava expressão estética, fosse papel, barbante ou areia.
Em contrapartida a esse tipo de construção arbitrária, surgiu a arte geométrico-construtiva, inicialmente com o neoplasticismo de Piet Mondrian (1872-1944). Regida por linhas verticais e horizontais, limitava a composição a quadrados e retângulos em cores primárias, que se repetem de um quadro para o outro.
O grau de imprevisibilidade foi reduzido, mas não eliminado, mesmo porque não era esse o propósito do artista, uma vez que a composição, como um todo, sem o comprometimento com a representação figurativa, era "arbitrária", ou seja, o resultado possível a partir dos elementos postos em jogo. Na verdade, a arte construtiva buscou tornar necessário o que era casual.
No polo oposto a essa arte, situou-se a arte informal ou tachismo, cuja manifestação mais radical terá sido a "pintura cega", como a do italiano Vêdova, por exemplo.
No entanto, pela despreocupação total com a construção da obra, esse procedimento tentou eliminar a relação dialética entre ordem e desordem, previsibilidade e imprevisibilidade, perdendo-se assim a noção de obra, em que sempre intervém a opção do autor: o acaso criaria a obra, mas é a intervenção do artista que faz dela expressão humana, mesmo porque o puro acaso, assim como a natureza, que produz galáxias, não produz arte.
Esta, por maior que seja o grau de acaso que a constitua, é sempre resultado da intervenção do artista. Mesmo Pollock -que, dançando sobre a tela posta no chão, deixava cair sobre ela respingos de tinta que constituiriam a obra- intervinha, depois, para corrigir o que o acaso criara errado.



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Hélio Fernandes e as eleições


Dilma presidente, nenhuma surpresa. Agora começará uma espécie de terceiro turno. Entre ela e Lula, ela e o PT, ela e o lobista PMDB. O país é o mesmo, os personagens, iguais?

Helio Fernandes
Não havia a menor possibilidade de erro: Dilma ganharia a eleição, o que deveria ter ocorrido no primeiro turno. O que aconteceu de circunstâncias, adiando a decisão para 28 dias depois, nem interessa. O importante e irrefutável: Serra não tinha uma possibilidade em um milhão de ser presidente.
Ele mesmo errou na análise e nas conclusões. Afirmou textual e taxativamente: “Tive 33 por centos dos votos, Dilma 46 e Marina 20 por cento. Somando os meus votos e os de Marina, chegávamos a 53 por cento, provando que o povo queria segundo turno”.
Impressionante a falta de compreensão de Serra para os fatos. Digo há 8 anos que “Serra jamais será presidente”, ele não conseguiu obter vantagem nem mesmo enfrentando candidata sem experiência política ou eleitoral, sem capacidade de articulação, sem carisma, sem competência, sem projeto, sem programa, sem compromisso.
Lula, o metalúrgico, com três derrotas, duas vitórias e a compreensão de que só seria vitorioso se não elegesse “nenhum dos grandes do PT”, se fixou em Dona Dilma. Foi um dos raros a entender que não ganharia nada se elegesse Dirceu, Palocci, Mercadante. Tinha que “inventar”, foi buscar alguém que não existia.
A capacidade de Lula se revela e se confirma, gostemos ou não gostemos dele. Não sai de cena, embora não possa ter certeza dos caminhos que serão trilhados pela sucessora. Não há espaço obrigatório para pessimismo ou otimismo, e sim para Dilma e Lula.
Quem não ficou na posição favorável que esperava, é Aécio Neves. Não participou do primeiro turno. Serra perdeu. Participou do segundo, Serra esteve longe de conquistar os votos que precisava. Mesmo dentro do PSDB, a tranqüilidade não dominará o dia a dia da vida do ex-governador de Minas. E Aécio será cobrado por esse resultado.
E é impossível negar a vitória espantosa e grandiosa de Dilma em Minas. Não dá para esquecer ou esconder.
Um fato importante, que precisa ser ressaltado com bastante interesse, é a abstenção. Foi de 22 por cento no primeiro turno, de 21 por cento ontem. Apenas menos 1 por cento, mais de 25 milhões inscritos. É muito.
Serra teve mais votos do que em 2002, quando foi candidato pela primeira vez. Sua votação é maior, direta e proporcionalmente. Isso pode estimular José Serra a concorrer pela terceira vez, em 2014. Não é ilusão, estará APENAS com 72 anos.
Dona Marina desapareceu, eu já dizia isso há muitos dias, depois do primeiro turno. Devia ter se AFIRMADO, feito declaração do voto (dando uma de Tony Blair), caminhando através de uma TERCEIRA VIA. Não tem condições.
***
12 FATOS QUE MERECEM DESTAQUE
1 – O primeiro candidato vitorioso determinado ontem foi Agnelo Queiroz, ex-PCdoB, que entrou para o PT. Mas a vitória não foi dele nem do partido, e sim da ficha-limpa. Quando Roriz renunciou e colocou a própria mulher, a eleição estava decidida. A mulher de Roriz teve ontem, no segundo turno, exatamente a mesma votação do primeiro.
2 – Fato não assinalado por ninguém, embora já esteja confirmado há 28 dias. Os 9 estados, indiscutivelmente os maiores, elegeram governadores no primeiro turno: São Paulo, Minas. Estado do Rio,  Ceará, Bahia, Pernambuco, os três do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
3 – Apenas Goiás (pelos 4 milhões de eleitores) e Brasília (por ser capital) ficaram para o segundo turno.
4 – O Tribunal Eleitoral acertou inteiramente em aplicar o ficha-limpa, mas errou totalmente depois. Devia ter decidido imediatamente nova eleição para o Pará.
5 – Jader Barbalho, que teve 57 por cento dos votos e foi cassado, anulou a eleição, e Paulo Rocha (que também terá o mesmo destino) também será cassado.
6 – O TRE não pode repetir o constrangimento de ter entregue o governo do Maranhão a Roseana Sarney, depois de 2 anos e meio de sua derrota.
7 – Na Paraíba, Cássio Cunha Lima, depois de quase 3 anos, perdeu o mandato, numa votação “decidida” por 4 a 3. O TSE entregou o mandato ao derrotado José Maranhão. Disputou a reeeleição (sem nunca ter sido eleito), não venceu no primeiro turno. Ontem, José Maranhão foi fragorosamente derrotado. O TSE deve estar envergonhado.
8 – Outro fato que mostra a completa falta de renovação da política brasileira. Nos Estados menores, onde houve segundo turno, a disputa foi feita entre a tentativa de reeeleição e um ex-governador.
9 – E em Goiás, o máximo: dois ex-governadores, Marconi Perillo e Íris Resende, que nada fizeram no Poder, mas disputaram a vitória, ganhou Perillo. Terá sido o menos pior?
10 – No Pará, o ex-governados Simão Jatene, derrotou a governadora Ana Julia, ontem. Mas ela já começou a insistir com Lula, para que a eleição de senador seja anulada. Assim ela pode disputar uma das vagas, estará eleita.
11 – No Amapá, o novo governador é Camilo Capiberibe, que além de ser do Partido Socialista, é opositor de Sarney. Este já cassou a família Capiberibe, um deles do Senado.
12 – Lula estava furioso com Eduardo Braga, ex-governador do Amazonas, que fez o sucessor e se elegeu senador. Mas proporcionalmente, foi uma das maiores vantagens de Dilma, 80 por cento.
***
PS – Aí em cima. Estão os fatos. A conclusão desses fatos, só depois, mais tarde,  a partir de amanhã, mas é preciso esperar a posse.
PS2 – O que vai acontecer é muito difícil de analisar a partir de agora. Embora eu tenha analisado tudo em profundidade, com uma semana de antecedência.
PS3 – Na entrevista que concedi quarta-feira ao jornalista Marcone Formiga, da “Brasília em Dia” (e repetida aqui), todas as dúvidas concluídas, mas não definidas ou identificadas.
PS4 – Pois sempre coloquei que os problemas surgiriam e surgirão do relacionamento Dilma presidente, Lula ex-presidente, e o PMDB-lobista, ampla maioria.
PS5 – Já disse várias vezes e deixo amplamente em aberto. O que haverá, e tem que haver, não começará hoje ou amanhã.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Artigo polêmico de um decano do jornalismo


Lula criticando em massa a campanha de Dilma, seus coordenadores, a própria candidata que inventou e rebocou até aqui. Retumbando no Planalto-Alvorada: “Derrotei todos os meus adversários, agora tenho que salvar incompetentes”. Possível vitória de Serra, assimilável por Lula?

Helio Fernandes
Antes do episódio da bolinha de papel que saiu de sua cabeça, e “bateu” na cabeça do Serra, o presidente só tinha um assunto, que ruminava todos os dias: “Derrotei todos os adversários, limpei o Senado para a Dilma não ter problemas”.
E citava principalmente os três senadores (alguns deles) contra os quais se jogou ardorosamente. São ou eram, Artur Virgilio, Jereissati, Mão Branca. E se “orgulhava” de ter contribuído para levar ao Senado “parlamentares fiéis, que ajudarão Dilma a governar”.
Esqueceu das muitas derrotas, até mesmo no Senado. No Rio Grande do Norte, fez tudo para derrotar Agripino Maia, não se lembrou. Mas coloca na sua conta a reeleição de Renan Calheiros, “grande amigo, que estará sempre na minha relação, será o que quiser no meu governo, perdão, da Dilma”.
Lula fala, completa: “Renan já foi Ministro da Justiça, pode voltar”. Como não conversa com ninguém, (tem o mesmo prazer de FHC, falar em frente ao espelho) não sabe que Renan quer muito mais do que isso. Lógico, além dos apadrinhados, principalmente na importantíssima Transpetro, potência no esquema Petrobras.
No Amazonas, Lula não queria apenas derrotar Virgilio. Outro item importante era fazer governador, seu ex-ministro duas vezes, Alfredo Nascimento. Com isso, teria mais um governador e, na sua vaga no Senado, seria efetivado por 4 anos, o amigo João Pedro. O ex-governador Eduardo Braga ganhou tudo, fez o governador, Lula brigou com ele, chamou-o de INGRATO.
Só que agora o GRANDE ADVERSÁRIO se chama Aécio Neves, que considerava, fora do PT, um dos maiores amigos. (Lula está crente que no PT, todos são seus amigos). E que vai ganhar de Aécio em Minas, cita até a vantagem eleitoral: “Dilma terá 1 milhão e 300 mil votos a mais do que Serra”.
Tudo isso não pode ser rotulado como ódio, é, digamos, ressentimento por não ter conseguido o terceiro mandato. Decepção por ter que deixar o governo, e se igualar a FHC. “Sofre” quando falam, “Lula é igualzinho a FHC na entrega do patrimônio brasileiro”. FHC DOOU, Lula ratificou a DOAÇÃO. Disso não se livra, a palavra certa é, se envergonha.
Lula não teria mais a tranquilidade de antes, tem receio, a palavra é MEDO, estou amenizando. Considera, pelo que vem ouvindo, que há muita gente que ficou 8 anos sendo humilhada, preterida e esquecida, e agora só pensa em vingança, vá lá, em RECUPERAÇÃO.
Pelo quem me dizem, com segurança, Lula não tem a menor preocupação com o domingo, dia 31 de outubro. O que o assusta é o dia seguinte, (perdão, 48 horas depois) 2 de novembro, Dia dos MORTOS.
E se a candidata-poste inventada contra o próprio PT, resolver relacioná-lo com saudade nesse dia triste e melancólico? Isso atormenta Lula, já deixou bem claro que não suportaria o silêncio do triplex de São Bernardo? Nem vou dar exemplos de personagens que assumiram por causa dos padrinhos e se livraram logo deles?
***
PS – Lula não tem nenhuma segurança a respeito da vitória da sua candidata. Mas todas as dúvidas em relação à sua participação nesse governo. Pode parecer assombroso e inexplicável, o comportamento de Lula no episódio da bolinha de papel.
PS2 – Lula tem atacado duramente Dilma e todo o PT no caso da bolinha. E diz, sem fugir um milímetro da arrogância de sempre: “Eu salvei vocês do desastre, atraí todos os ataques para cima de mim, deixei vocês inteiramente afastados de tudo”.
PS3 – Mas do próprio reduto de Lula, surgem críticas duras a ele, e aCONSTATAÇÃO, que nem seria surpreendente, duvidosa, estapafúrdia ou acintosa.
PS4 – Lula não choraria uma lágrima pela DERROTA de DILMA, e a conseqüenteVITÓRIA de Serra. Nada que não possa ser explicado facilmente.
PS5 – Entre o governo Dilma sem a sua PARTICIPAÇÃO, e um possível ou suposto (com a sua manifestação velada, mas aceita) governo Serra, considera que para o seu futuro, (de Lula) a eleição de Serra de maneira alguma um desastre.
PS6 – Com a vitória de Dilma, pensando (?) bem, quais os que poderia considerar ou chamar de AMIGOS? Pode ser hipótese, decisão que não parece atrapalhar a cabeça de Lula. Falta só uma semana.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Parceiros da DOAÇÃO da Petrobras


Helio Fernandes
Estava demorando a trazerem a Petrobras para o centro das divergências entre os presidenciáveis. Vou provar que tanto Dilma quanto Serra faltam com a verdade, mistificam, deformam e fazem maquiagem com os fatos, tentando conquistar o voto do cidadão.
Antes de mais nada é preciso chamar a atenção do cidadão-contribuinte-eleitor, para a tentativa geral e instransferível de rotularem a entrega do patrimônio brasileiro como PRIVATIZAÇÃO. Quando na verdade o que aconteceu foi totalDOAÇÃO. Esta é a palavra correta e lamentável.
Embora seja sempre contra o que identificam como PRIVATIZAÇÃO, em alguns raríssimos casos posso admiti-la, por circunstâncias. Mas DOAÇÂO, é a transferência do patrimônio brasileiro, sem receber nada em troca, que foi o que aconteceu. Para explicar e explicitar mais ainda: FHC criou o que se chamou de MOEDA PODRE, que era contabilizada por UM CENTÉSIMO DO VALOR DE FACE.
Títulos públicos e ações de empresas que estavam MORTAS e ENTERRADAS há não sei quantos anos, eram recebidos pela Comissão de Desestatização, seus membros hoje RIQUÍSSIMOS e com total impunidade. Já pedi pela CPI há não sei quantos anos, jamais aconteceu. E não acontecerá nunca, com o PSDB voltando ao governo (não voltará) ou o PT se mantendo. (O que é análise e interpretação dificílima de fazer agora).
Vejamos então a participação dos dois presidenciáveis na Petrobras de HOJE, na de ONTEM e na de AMANHÃ. FHC queria incluir a Petrobras no quadro deDOAÇÃO geral. Precisava atender a essa exigência, que vinha desde os tempos do “Consenso de Washington”, e depois dos “DIÁLOGOS”.
Mas como FHC era insano, insensato mas inoperante, recuou, teve medo da repercussão certamente devastadora. Decidiu então, com total conhecimento e consentimento de Serra (o ministro mais importante do seu governo), MUTILARa Petrobras, fingindo que ela era totalmente do governo, quer dizer, do povo brasileiro.
Aprovou então o Decreto Lei 9478, que criava as LICITAÇÕES. Traduzindo: a Petrobras era obrigada a fazer esses LEILÕES-LICITAÇÕES, os globalizantes “compravam” os melhores setores (poços), onde estavam localizadas montanhas de petróleo.
Houve alguma revolta. FHC, que controlava inteiramente o que chamei logo deJORNALISMO AMESTRADO, não foi atingido. Garantiu que a Petrobras estava e continuava intocável, o que ACABARA FORA O MONOPÓLIO, QUE NÃO ERA BOM PARA O PAÍS. E tudo ficou sem contestação.
Perdão, a maior contestação veio da parte de Dona Dilma, que embora não fosse ainda poderosa, queria se manifestar contra as LICITAÇÕES-LEILÕES. Foi aconselhada pela direção da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobras) “No momento não temos formas para nada, e os  primeiros LEILÕES têm pouca importância. A partir do SEXTO é que atingem fundamente o patrimônio e as reservas do Brasil”.
Dona Dilma ficou mais calma, mas temos que lembrar que sua posição era legítima, na época nem se falava ou se imaginava que SURGIRIA o PRÉ-SAL. Escrevi então na Tribuna de papel, que FHC OBRIGAVA A ENTREGA DO PETRÓLEO que ainda não tínhamos, agíamos como se fôssemos POTÊNCIA de petróleo. Não havíamos nem atingido a exploração de petróleo para nossos gastos, o que chamavam de AUTOSSUFICIÊNCIA.
Quando chegou a hora da SEXTA LICITAÇÃO-LEILÃO, Dona Dilma já estava no Poder e MUDARA INTEIRAMENTE de posição. A AEPET procurou Dona Dilma, “agora é a hora de agir”, ela tergiversou, (que palavra, mas não há outra) já havia mudado de “rumo e orientação”, não houve o menor protesto, as grandes distribuidoras de petróleo ganharam tudo.
Perplexidade, a própria AEPET não entendeu o que acontecera, o que fazer? Quem tentou fazer foi o governador Roberto Requião. A Procuradoria Geral do Paraná entrou no Supremo com uma ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade) para anular o amaldiçoado Decreto 9478.
O presidente do Supremo era Nelson Jobim, que rasgara a Constituição de 88 (e confessara), que recebeu um telefonema de Dona Dilma, pedindo para que “a ADIN do governo do Paraná não fosse aprovada”. Essa ADIN já ganhava de 4 a 0, Jobim levantava um dedo, o Ministro Eros Grau pedia vista, que foi o que aconteceu. Levou meses com o processo, a ADIN perdeu por 7 a 4, Dilma e Jobim festejaram.
Durante TODO O GOVERNO LULA, de cujas entranhas surgiu a presidenciável Dilma, que não tinha história alguma no PT, o 9478 ficou inatingível. (Antonio Santos Aquino já disse desde a Tribuna impressa e tem repetido aqui: “Dona Dilma foi infiltrada dezenas de anos no PDT de Brizola, foi para o PT levando muita gente com ela”).
***
PS – Agora Dilma e Serra garantem o que coloquei no título destas lembranças, e ainda se COMPROMETEM EM DEFENDER A MAIOR EMPRESA DO BRASIL.
PS2 – FHC vai mais longe no abuso da “MENAS” verdade, e sem o menor constrangimento, afirma: “Perdi uma cátedra por ter defendido a Petrobras”. Ha!Ha!Ha!
PS3 – Não há como acreditar nem em Dilma nem em FHC (Serra). Se ANTESderrubaram e DOARAM o petróleo que ainda não tínhamos em grande quantidade, por que acreditar no DEPOIS?
PS4 – A resposta de Dona Dilma, lógico com o aval de LULA: “Vamos começar a explorar o PRÉ-SAL imediatamente, antes do segundo turno. Tolice, nem sabem como chegar ao PRÉ-SAL em alguns anos, como chegarão em alguns dias?

domingo, 17 de outubro de 2010

Para trás é que se anda


JANIO DE FREITAS 

Para trás é que se anda

A exigência religiosa volta a submeter a política; a responsabilidade não é apenas do radicalismo em nome da fé mas também dos candidatos


A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL degenera de vez. O passado retorna, sem cuidar nem sequer de disfarçar-se.
A exigência religiosa, legítima para os possuidores de crença, ultrapassa-os e volta não só a submeter a política em seu nível mais alto de participação democrática, que é a escolha pelo voto geral do futuro governante de toda a nação. Esse movimento vai também contra a liberdade de pensamento, na ação para impedir a opção política e cultural de candidatos e dos eleitores não religiosos ou religiosos sem extremismo. Mas a responsabilidade pelo retrocesso não é só do radicalismo político em nome da fé cristã. É também dos candidatos.
José Serra está a um passo de reproduzir atos e fases deploráveis, parte das quais vitimaram a ele próprio. Sua oferta de compra da adesão eleitoral -com promessa de aumento extra do salário mínimo, duplo aumento das aposentadorias com o salário mínimo e acréscimo específico, doação de dinheiro federal a mais de quatro mil municípios para aumentarem os professores do fundamental -segue duas matrizes notórias do populismo: Adhemar de Barros e Orestes Quércia. E depara-se com uma interrogação: onde ficam a defesa inflexível do "rigor fiscal", tese permanente de José Serra, e suas persistentes acusações ao atual governo de gastos e aumentos excessivos? O velho populismo reanima-se.
O "santinho", semelhante a cartão de crédito, que José Serra começou a distribuir na sexta-feira, em uma espécie de comício com professores de São Paulo, traz, de um lado, a sentença "Jesus é a verdade e a justiça", seguida da assinatura de José Serra. Mas não só: tem a combinação das imagens de Jesus e do próprio Serra. Na outra face: "Serra é do bem".
A biografia de Serra inclui um colar de disputas eleitorais, em perto de 25 anos. Em nenhuma delas, porém, o cristianismo do candidato se mostrou, nem Jesus, Deus e Maria foram feitos personagens de sua busca de votos. O nível político não cai sozinho: cai levado por pessoas.
Quem não está com Serra não é do bem, é a sugestão da sua carteirinha de associado a Cristo. Tal como os que não professavam, antes do golpe, posições conservadoras, eram (ou são) nacionalistas, ou defensores da Petrobras e de reformas estruturais. Todos "perigosos comunistas", gente do mal, negadora de Deus. Fase que tanto custou ao país superar. E que a caravana comandada em Goiás por Serra, ostentando e beijando um terço, lembrou como imitação da Marcha com Deus pela Família e a Liberdade, puxada em Rio e São Paulo pelo reverendo da CIA, padre Payton, nos preparativos finais para o golpe.
Serra não precisa desses recursos. Como não precisava da campanha do medo em 2002, com a qual nada ganhou. E que retoma em versão nova, transferindo o medo a um governo de Lula para o medo à posição humanitária e científica contra a criminalização do aborto como princípio. Se vencer com esses recursos, Serra não terá por que orgulhar-se da vitória. Se perder, fica sob o risco de ser-lhe atribuído um papelão idêntico ao da campanha do "eu tenho medo".
Dilma Rousseff mantém mais recato, mas não fugiu ao retrocesso. Sua candidatura nasceu à maneira da Velha República, escolha fechada e impositiva, patrocínio escancarado do presidente. Jamais escondeu, até sentir-se oprimida por católicos e evangélicos, seu apoio à descriminalização do aborto. A "mensagem aos cristãos" que lançou anteontem, por mais cuidadosa que seja em driblar uma inversão de posições, é uma concessão evidente contra as suas convicções. Com fins meramente eleitorais, culminância da vida de praticante cristã agora invocada quase a cada fala sua. O que também é, nos dois casos, uma forma do fisiologismo que envenena a política.
Seria uma desgraça termos superado a ameaça de Collor, cinco anos depois da democratização, para jogarmos no passado o que foi percorrido nos 25 anos de pós-ditadura. É o que está acontecendo sob nossos olhos indiferentes, no entanto.

domingo, 10 de outubro de 2010

Ultrapassando o Cabo da Boa Esperança

Vou fazer, no dia das crianças, 12 de outubro, 60 anos. Materialista, não acredito em Deus, mas acredito muito nas minhocas e vermes que irão comer meus restos em putrefação. O homem caminha sempre nesta direção, esta, a verdade verdadeira no sentido kantiano. A vida, a rigor, é uma sala de espera da morte. E enquanto se espera, brinca-se, trabalha-se, estuda-se, entra-se no Facebook, faz-se blogs, vai-se ao cinema. Segundo o grande cineasta sueco Ingmar Bergman, para se escapar da miséria da existência somente existem dois caminhos: a arte e o amor (mas este é complicado como mostrou, em seus filmes, várias vezes). Como disse Max Von Sydow, em A paixão de Ana (En passion, 1970), "vivo apenas por formalidade"