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domingo, 3 de junho de 2012

Liberdades iradas


JANIO DE FREITAS


Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo 

O excesso de raiva e a aparente perda de controle em Gilmar Mendes talvez expliquem, mas não tornam aceitável, que um ministro do Supremo Tribunal Federal faça, para a opinião pública, afirmações tão descabidas.

Nem o próprio Supremo é poupado no ataque atual de Gilmar Mendes, que assim o define em entrevista ao "Globo": "Já é um Poder em caráter descendente". Não há por que duvidar desse sentimento particular de Gilmar Mendes, mas também não há como atribuir a tal afirmação, feita de público e plena gratuidade, um qualquer propósito respeitável.

Ali demolidor, pelo método da implosão, é também deste ministro, no mesmo dia, porém àFolha, a atribuição deste motivo para o que diz ter ouvido de Lula: "Dizer que o Judiciário está envolvido numa rede de corrupção", para "melar o julgamento do mensalão".

A afirmação sobre o Supremo, com provável sinceridade; a outra, uma ficção sem sequer um indício em seu favor. Lula, o PT e os réus do mensalão nada ganhariam com uma investida contra o Judiciário. Sabem disso na mesma proporção em que a imaginação ficcionista não sabe.

Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo. Já deu, por exemplo, três versões para o custeio da viagem em que se encontrou, na Europa, com Demóstenes Torres. A tal viagem das suas sensibilidades tocadas pelo que "pareceram insinuações" de Lula.

Na primeira referência feita (estão todas impressas e gravadas), disse haver respondido a Lula que viajou "com recursos próprios". Na segunda, fez viagem oficial, custeada pelo Supremo, para um evento na Espanha, e dali à Alemanha pagou ele mesmo. Na terceira (ainda na entrevista ao "Globo"): "Fui a Berlim em viagem oficial. Por conta do STF".

Afinal, não se sabe como a viagem foi paga nem isso está em questão. Mas é compreensível que estivesse em boatos. Como amanhã pode estar a história de que Lula planejava denunciar o Judiciário como uma rede de corrupção. Por haver boato sobre a viagem, e indagar a respeito, é "gangsterismo, molecagem, banditismo, a gente está lidando com gângsteres", como disse Gilmar Mendes? Não, não disse: vociferou, iradíssimo.

Com base em que fatos um ministro do Supremo Tribunal Federal faz a acusação pública de que Lula -no caso, importa sobretudo serem um ex-presidente da República e um magistrado- é "a central de divulgação" dos boatos infamantes? Acusação de tal ordem não precisa nem indícios, é só emiti-la?
O Congresso foi poupado da reação de Gilmar Mendes graças à falta, na inquirição de Demóstenes Torres, de uma pergunta que, normalmente, não faltaria. Logo no primeiro lote de telefonemas gravados de Carlos Cachoeira, apareceu o pedido do senador de que o contraventor pagasse os R$ 3.000 de um táxi aéreo. Gilmar Mendes, negando ter usado avião de Carlos Cachoeira, disse que foi a Goiás convidado por Demóstenes Torres, para um jantar. Foi "de táxi aéreo".

Ninguém perguntou a Demóstenes que voo seria pago por Cachoeira. Ninguém perguntou se Gilmar Mendes e outros ministros estavam no voo dos R$ 3.000. Nada demais se estivessem, nem poderiam saber quem viria a pagar pelo voo. Apesar disso, a encrenca resultante já estaria engatilhada, com a imagem institucional do Supremo a aguentar suas manifestações.

Com muita constância, somos chamados a discutir o decoro parlamentar. Não são apenas os congressistas, no entanto, os obrigados a preservar o decoro da função.

Folha de S.Paulo
31/05/2012 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um profeta e duas irmãs


CARLOS HEITOR CONY

Aos olhos do Criador, um excremento humano ou bovino pouco difere de um hambúrguer ou pizza


Ezequiel, escravo dos Caldeus, teve uma visão às margens do ribeirão do Cobar, afluente do Eufrates.
Não devemos pasmar de ter Ezequiel visto animais de quatro faces e quatro asas -isso andava em moda naqueles tempos, e o todo-poderoso, cuja autoria dessas visões bíblicas é inconteste, tinha pouca imaginação e muito se repetia.

Mas devemos pasmar da sutileza de Yahveh (também conhecido como Javé), que mandou a Ezequiel um estranho mandamento: comer, durante 390 dias, pão de cevada coberto de excremento humano.
O profeta cumpriu o mandamento sem relutância, mas, à altura de 156 dias, já estava farto de comer excremento humano e apelou para a misericórdia divina no sentido de obter pasto mais saboroso. A bondade divina logo se fez sentir, e Ezequiel obteve consentimento para comer excremento bovino.
Homens ímpios dos séculos que se seguiram acharam semelhante mandamento indigno da majestade divina. A impiedade de tais homens fez com que fosse esquecido um detalhe: aos olhos do Criador, um excremento humano ou bovino pouco difere de um hambúrguer ou de uma pizza napolitana.

Depois de Ezequiel ser submetido a tão longa e extraordinária dieta, não é de estranhar que a leitura de seus livros (que integram o Antigo Testamento da Bíblia, tanto a judaica como a cristã) fosse proibida nas sinagogas aos menores de 30 anos -limite moral que os povos posteriores baixariam para os 18 e, mais tarde, para os 16. Pois Ezequiel é como um ancestral do Nelson Rodrigues, um Henry Miller, uma Dercy Gonçalves dos velhos tempos.

Vejamos o edificante capítulo 26 de seu profético livro: "Quando nascestes, ainda não vos tinham cortado o cordão umbilical, estáveis completamente nua, eu me apiedei de vós: depois crescestes, vosso seio se formou, vosso sexo cobriu-se de pelos, eu passei e vos vi e cobri vossa ignomínia, estendi sobre vós o meu manto, vos lavei, perfumei e vesti".

Quem diz isso é o Senhor. E o mesmo Senhor prossegue no seguinte passo, ainda segundo o relato atribuído ao Espírito Santo ou a Moisés -o direito autoral dos livros sagrados é irrelevante: "Então confiante em vossa beleza, fornicastes por vossa conta com todos os passantes e vos prostituístes até nas praças públicas e abristes as pernas a todos os viajantes e vos deitastes com os egípcios, os medas, os persas, os assírios, os caldeus, os filisteus e os homens de todas as tribos ao longo do Eufrates". A expressão "abrir as pernas", que muito se usa no futebol e na política para significar amolecimento do jogo ou maioria parlamentar, tem, como vemos, uma origem respeitável.
Além do capítulo 26, há o 28, cujo santificado teor é o seguinte: "Oola era louca pelos jovens senhores, deitou-se com os egípcios desde a mais tenra idade".

Pelo visto, o divino Espírito Santo nutria birra especial para com os egípcios, pois deitar com eles era cúmulo, o sumo da vergonha e da depravação. Logo em seguida, há o relato das aventuras da irmã de Oola, cujo nome era Ooliba, e que fornicou até com os medas e assírios (outra pinimba do Espírito Santo). Quando descobriu sua vergonha, tratou de multiplicar suas fornicações. No fim da vida, só fornicava com homens "cujo membro se parece com o do asno e que expandem sua semente como cavalos".

O sábio Concilio de Trento (1545 a 1563), manifestando-se sobre esses piedosos trechos, louvou a sutileza de simbolizar em Oola e Ooliba as iniquidades de Jerusalém e de Samaria.
E o profeta Ezequiel, por cuja boca falou o Senhor de todas as coisas, aí está a espera que um consórcio ítalo-americano, sob direção de Scorsese, Spielberg ou Zeffirelli, ou mesmo de um produtor nacional com patrocínio da Petrobras e com os benefícios da Lei Rouanet, faça um filme sobre as duas irmãs.

Seus edificantes ensinamentos bem merecem uma superprodução histórica, com leões, elefantes, trovões, raios e coriscos, palácios de papelão, gladiadores, música de Morricone, cor em alta definição, censura livre e bonequinho de "O Globo" aplaudindo de pé. Se precisarem de mim, estou às ordens para fazer o papel de um dos egípcios. Em último caso, de um assírio.

Folha de S.Paulo
01/06/2012 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Suprema Indecência


EDITORIAL DO ESTADO DE S.PAULO 30/05;2012
Ainda que se compre pelo valor de face a inverossímil alegação do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim, de que promoveu o encontro do ministro e ex-presidente da Corte Gilmar Mendes com o ex-presidente Lula, a pedido deste, porque "gostava muito dele e o ministro sempre o havia tratado muito bem", o acatamento da solicitação foi um grave lapso moral. O seu ex-chefe (Jobim foi ministro da Defesa entre 2007 e 2011) que encontrasse outra via para transmitir a tardia gratidão ao magistrado.
Gilmar, por sua vez, errou ao aceitar a reunião. Ministros da Suprema Corte, tendo numerosos compromissos derivados de sua condição, não raro se encontram com outras autoridades, políticos, empresários e figurões em geral. Nada haveria de repreensível se, numa dessas ocasiões, Lula o abordasse para lhe dizer o que, segundo Jobim, teria querido dizer. Mas se então ouvisse do ex-presidente as palavras que lhe foram atribuídas pela revista Veja na reunião de 26 de abril no escritório de Jobim, teria de se retirar imediatamente.
Afinal, mesmo que o seu ex-colega não lhe tivesse adiantado o assunto sobre o qual Lula queria conversar, o ministro tinha tudo para adivinhar que se trataria do julgamento do mensalão, previsto para começar em agosto. Em qualquer país, raros são os que recusam convites para um tête-à-tête com um ex-chefe de Estado. Mas, por todos os motivos concebíveis, Mendes deveria ter sido uma daquelas exceções. Depois, tendo sido como foi noticiado o diálogo entre eles, não se entende por que o ministro levou tanto tempo para fazer chegar a história à imprensa.
Se ficou perplexo "com o comportamento e as insinuações despropositadas" de Lula, como afirma, deveria dar-lhes sem demora a merecida resposta pública. Bastaria a enormidade do acontecido. Se o escândalo do mensalão não tem precedentes, tampouco se tem notícia de um ex-presidente da República procurar um membro do Supremo Tribunal para dizer-lhe que considera "inconveniente" o julgamento próximo de uma ação que o alcança politicamente. A inoportunidade - teria alegado Lula - viria da coincidência com a campanha para as eleições municipais deste ano.
Não podendo remeter às calendas o julgamento de um processo aberto há sete anos contra a cúpula do PT, além de outros companheiros e seus sócios na "organização criminosa" de que fala a denúncia do Ministério Público, Lula quer empurrar o desfecho para depois da aposentadoria de dois ministros, o atual presidente Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso, que tenderiam a votar pela condenação dos réus mais notórios. Tivesse Lula ficado nisso, já teria superado as próprias façanhas em matéria de indecências políticas.
Mas, além disso, ele não só teria ofendido o relator Joaquim Barbosa, chamando-o de "complexado"; teria avisado que incumbiria o ex-ministro Sepúlveda Pertence de "cuidar" da ministra Carmem Lúcia para que ajude no adiamento; e contado que pediu ao ministro José Dias Toffoli que não se declarasse impedido por ter sido assessor jurídico da Casa Civil, ao tempo de José Dirceu; como praticamente chantageou o interlocutor, ao oferecer-lhe proteção na CPI do Cachoeira, que teria se gabado de controlar. Proteção, no caso, contra alguma tentativa de convocá-lo a explicar as suas relações com o senador Demóstenes Torres, parceiro do contraventor.
Quando Mendes disse que elas sempre se deram nos limites institucionais, Lula teria perguntado algo como: "E a viagem a Berlim?". Os dois, de fato estiveram na capital alemã, onde mora a filha do ministro, e a viagem teria sido paga por Cachoeira - o que Mendes negou veementemente, e batendo na perna de Lula desafiou: "Vá fundo na CPI!". A revelação do ultraje levou os ministros Marco Aurélio Mello e Celso de Mello a condenar o ex-presidente da República nos termos mais duros, compatíveis com o extremo a que levou o seu despudor - algo "inimaginável", estarreceu-se Marco Aurélio. O seu colega, decano da Corte, criticou o "grave desconhecimento (de Lula) das instituições republicanas". Se ele ainda fosse presidente, resumiu com exatidão, "esse comportamento seria passível de impeachment"

terça-feira, 22 de maio de 2012

Carta aberta de jornalistas sobre abusos de programas policialescos na Bahia

"O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha."
(Gregório de Mattos e Guerra)



Ao governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner.
À Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia.
Ao Ministério Público do Estado da Bahia.
À Defensoria Pública do Estado da Bahia.
À Sociedade Baiana.

A reportagem "Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência", produzida pelo programa "Brasil Urgente Bahia" e reprisada nacionalmente na emissora Band, provoca a indignação dos jornalistas abaixo-assinados e motiva questionamentos sobre a conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador.

A reportagem de Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Band, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: "É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral". E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos "a dignidade da pessoa humana". Apesar do clima de barbárie num conjunto apodrecido de programas policialescos, na Bahia e no Brasil, os direitos constitucionais são aplicáveis, inclusive aos suspeitos de crimes tipificados pelo Código Penal.

Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro.

Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, "é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos". O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.

O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos.

É importante ressaltar que a responsabilidade dos abusos não é apenas dos repórteres, mas também dos produtores do programa, da direção da emissora e de seus anunciantes - e nesta última categoria se encontra o governo do Estado que, desta maneira, se torna patrocinador das arbitrariedades praticadas nestes programas. O governo do Estado precisa se manifestar para pôr fim às arbitrariedades; e punir seus agentes que não respeitam a integridade dos presos.

Pedimos ainda uma ação do Ministério Público da Bahia, que fez diversos Termos de Ajustamento de Conduta para diminuir as arbitrariedades dos programas popularescos, mas, hoje, silencia sobre os constantes abusos cometidos contra presos e moradores das periferias da capital baiana.

Há uma evidente vinculação entre esses programas e o campo político, com muitos dos apresentadores buscando, posteriormente, uma carreira pública, sendo portanto uma ferramenta de exploração popular com claros fins político-eleitorais.

Cabe, por fim, à Defensoria Pública, acompanhar de perto o caso de Paulo Sérgio, previamente julgado por parcela da mídia como "estuprador", e certificar-se da sua integridade física. A integridade moral já está arranhada.

Salvador, 22 de maio de 2012.

Em ordem alfabética:


Alana Fraga
Alexandre Lyrio
Altino Machado
André Uzêda
Ana Paula Ramos
André Julião
André Setaro
Breno Fernandes
Camila Soares Gaio
Carolina Garcia
Ceci Alves
Claudio Leal
Eduardo Neco
Elen Vila Nova
Eliano Jorge
Emanuella Sombra
Felipe Amorim
Felipe Mortimer Gomes Carneiro
Flávio Costa
Franciel Cruz 
Gabriel Carvalho
Gonçalo Jr.
Herbem Gramacho
Jane Fernandes
João Pedro Pitombo
Josélia Aguiar
Juliana Brito
Larissa Oliveira
Luana Rocha
Lunaé Parracho
Marcelo Brandão
Márcio Orsolini
Marcos Diego Nogueira
Maria Olivia Soares
Mariana Rios
Marlon Marcos
Natália Martino
Nelson Barros Neto
Paulo Sales
Pedro Caribé
Pedro Marcondes de Moura
Rachel Costa
Rita Dantas
Roberto Martins
Rodrigo Cardoso
Rodrigo Meneses
Rodrigo Minêu
Rodrigo Rangel
Rodrigo Sombra
Saymon Nascimento
Thaís Naldoni
Thiago Ferreira
Valmar Hupsel Filho
Vânia Medeiros
Vitor Hugo Soares
Vitor Pamplona
Zoraide Vilasboas







domingo, 20 de maio de 2012

Uma senhora revista



RESUMO Edição que a Imprensa Oficial paulista lança em junho recupera excelência intelectual e gráfica da revista "Senhor", editada no Rio por Nahum Sirotsky e Paulo Francis, de 1959 a 1964. Ao veicular o melhor das nossas letras e artes, a publicação fundou um sofisticado modelo brasileiro de jornalismo cultural.

RUY CASTRO

FOI UMA ESPÉCIE de realeza da imprensa brasileira, com toda a nobiliarquia, as sucessões dinásticas e o cartório de mordomias, rapapés e fidalguias que fazem o cardápio da realeza. E, como esta, depois de um período de opulência e fartura, viu-se também em chinelos, com mais contas a pagar do que as armas e os brasões em seu escudo. "Senhor" (nos primeiros 12 números, chamada de "Sr. - A Revista do Senhor") foi a última de uma grande tradição de revistas românticas brasileiras. Anos depois, as revistas mensais que a sucederam trocaram sua superioridade majestática e seu olímpico desprezo pelos fatos por uma espécie de urgência republicana e um excessivo apego à atualidade.

O curioso é que, ao surgir, em março de 1959, nada podia parecer tão moderno e "de vanguarda" quanto "Senhor". Em pouco tempo, ela faria parte de uma nova estética que incluía Brasília, o concretismo, a bossa nova, a revolução gráfica do "Jornal do Brasil", os anúncios da Volkswagen e do Banco Nacional, as capas dos discos da gravadora Elenco, os móveis de linhas retas -uma estética de formas claras, enxutas, essenciais.

O homem (e a mulher) a quem essa estética se dirigia era o adulto consciente, responsável e lúcido; em política, liberal e progressista; de preferência, solteiro (e, se casado, com uma mulher parecida com ele); próspero o suficiente para ter um carro novo e certas modernidades domésticas, como uma TV ou um estéreo, mas sem deslumbramentos; gourmet, viajado, à vontade em aviões; atento a novidades, mas sem muita pressa para adotá-las; bem-humorado, bem vestido, bebedor equilibrado; e, finalmente, leitor de livros, fã de João Gilberto e Tom Jobim e dos filmes italianos e franceses.

Acima de tudo, adulto -eis a palavra (por isso, ele era um "senhor", não um imaturo espremedor de espinhas). Ou tudo isso seria pedir muito de um brasileiro? Mas, se "Senhor" e aquela estética existiam, por que não esse leitor?

RECEITA "Senhor" se enquadrava em tal espírito e estética não tanto pelo que apresentou de novidades gráficas em seus (ainda desajeitados) primeiros números, mas pelo que rapidamente se tornaria. O importante é que sua receita editorial já surgiu pronta no nº 1. Talvez pela qualidade dos cozinheiros.
Basta consultar o expediente para se ver como, desde sua estreia, "Senhor" continha quase todos os nomes que seriam importantes em sua trajetória editorial, gráfica e comercial. Daí que os homens que se sucederam na sua condução pelos cinco anos de existência da revista puderam fazê-lo sem traumas -todos sabiam do que "Senhor" se tratava. Nahum Sirotsky, 33 anos em 1959, fundador e primeiro editor e redator-chefe, formou sua equipe com Paulo Francis, 28, como editor-assistente e Luiz Lobo, 25, como editor-assistente-executivo.

Devia significar que Francis estava mais próximo de Nahum na discussão da pauta, enquanto Lobo tinha de efetivamente meter a mão na massa, produzindo títulos, legendas e textos avulsos não assinados, além das matérias que levavam sua inconfundível chancela.

Não que não se percebesse a presença de Francis em muitas notas da seção "Sr. & Cia.", mas era Lobo que parecia onipresente na revista. De sua máquina de escrever saíram brilhantes textos sobre etiqueta, gravatas, ressaca, guarda-chuva, bermudas, banho de mar, camisas, sapatos, chapéus, omeletes, uísques -enfim, toda a futura receita das revistas masculinas brasileiras, até hoje. O fato de, disfarçadamente, haver um anúncio do produto nas vizinhanças desses textos não os invalidava.

O consagrado artista plástico Carlos Scliar, 38 -sem muita experiência no ramo editorial, mas com ideias frescas e arrojadas-, era o diretor do departamento de arte, já assistido desde o nº 1 por um promissor Glauco Rodrigues, 29, e pelo já completo cartunista Jaguar, 26 -que, além de contribuir com nove cartuns no primeiro número, tinha de desenhar também uma quantidade de vinhetas não assinadas para ilustrar pequenos tópicos e cobrir eventuais buracos.

Clarice Lispector, que, no futuro, tornar-se-ia uma marca da revista -e quase exclusiva, porque estava longe de ser ferozmente disputada pelo mercado-, também já comparecia no nº 1 como colaboradora. Assim como dois homens que, idem, um dia assumiriam a direção de "Senhor": Odylo Costa, filho, e Reynaldo Jardim -nenhuma coincidência nisso, eram apenas dois nomes em evidência suficiente para colaborar numa nova revista.

FÓRMULA A fórmula era um compósito do sumário de diversas revistas americanas e europeias que Nahum gostava de ler: artigos, análises, humor, entrevistas, uma ou outra reportagem, ensaios fotográficos, serviços, ficção, cartuns e um rico picadinho composto de "Sr. & Cia.", "Sr. na Tecnologia", "Sr. & Política", "Sr. & Economia" -nem todas as notas dessas seções parecendo desinteressadamente escritas (algumas, às vezes, resvalavam pela matéria paga).

No quesito ensaio fotográfico, Salomão Scliar, Armando Rozario, Flávio Damm e Fulvio Roiter -quatro dos maiores fotógrafos do país- revezavam-se na tarefa de fotografar tanto os utensílios citados nas matérias de serviços quanto a "garota do mês" (que não tinha esse nome, mas era como se tivesse), antes de Richard Sasso quase monopolizar as câmaras a partir do nº 18.

No primeiro número, "Senhor" teve apenas oito páginas de publicidade, sendo duas de matéria paga e uma, a da contracapa, um anúncio do dicionário Caldas Aulete, da própria Delta-Larousse (ou seja, um "calhau"; era como se não valesse), num total de 108 páginas de revista. Donde o milagre não foi a saída deste primeiro número, mas a do nº 2.

"Senhor" só se realizaria publicitariamente a partir do nº 9, com a chegada do experiente Ivan Meira (com direito a nome em negrito no expediente) para chefiar o departamento comercial. Com ele, a revista sairia por bastante tempo com uma média de 20 a 30 páginas de anúncios para cerca de cem de editorial -média muito boa e que, se mantida, permitiria a "Senhor" circular para sempre.

Além disso, as principais agências de propaganda do país -Standard, Norton, J. W. Thompson, Interamericana, McCann-Erickson, Lintas- adoravam a revista. Entre outros motivos, porque ela as incitava a criar os anúncios mais "modernos" e diferentes possíveis (o que fizeram repetidamente).

Às vezes, para mostrar o que e como queriam, Luiz Lobo e Jaguar se aventuravam eles próprios na produção de anúncios (os chamados "diretos"), nem sempre contando com a compreensão do cliente. Mas é fascinante como, tantas vezes, as páginas de publicidade em "Senhor" se confundiram com as do editorial.
No departamento de arte, Scliar admitiu dois novos assistentes: Caio Mourão, no nº 8; Bea Feitler, no nº 9. Ivan Lessa foi contratado como tradutor e redator para assuntos gerais no nº 3 e comicamente demitido no nº 10, mas continuou amigo de todo mundo e a colaborar esporadicamente. Em seu lugar, entrou Newton Carlos, que ficou por pouco tempo e foi substituído por Jayme Negreiros.

OSCILAÇÃO No nº 17, um novo e importante cargo foi criado -o de editor de política e economia-, para acomodar a contratação do experiente Newton Rodrigues. Com isso, pelos números seguintes, "Senhor" oscilaria entre as pautas divertidas e informativas de Luiz Lobo (cujo texto caracterizava a revista, quase sempre se dirigindo ao leitor como "o Sr.") e as graves análises da conjuntura nacional por Newton Rodrigues.

Com a saída de Lobo, no nº 20, o caminho se abriu para Newton, que ameaçou tornar "Senhor" uma revista mais pesada e sisuda. Mas Paulo Francis, com sua autoridade de editor-assistente, reequilibrava o jogo, com artigos sobre literatura, teatro e cinema. (Sete anos depois, em 1966, Newton Rodrigues e Paulo Francis se reencontrariam no "Correio da Manhã", em papéis trocados: Newton como seu severo redator-chefe, e Francis, como editorialista, ou seja, seu subordinado -e sofrendo o rigor do chefe.)

FICÇÃO Um dos fortes era a ficção, sempre decidida por Francis. Com sua amizade e ligação com Ênio Silveira, sócio-proprietário da (em breve) influente editora Civilização Brasileira, era natural que publicasse em "Senhor" contos e novelas de F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, D. H. Lawrence e Graham Greene, ou um trecho do novo e escandaloso romance "Lolita", de Vladimir Nabokov, todos autores da Civilização.

Outros super-escritores (nem todos famosos no Brasil) que ele deu na revista foram William Faulkner, George Orwell, Truman Capote, Isaac Bábel, Aldous Huxley, Thomas Mann, Albert Camus, Ionesco, James Baldwin, Jorge Luis Borges e Kafka (a maioria, em tradução de Ivo Barroso).

E quem, além de Francis, em 1959/60, se lembraria de Dorothy Parker e James Thurber, autores americanos cujo "wit" os separava do grande público? Sem falar na ficção nacional: Marques Rebelo, Campos de Carvalho, Nelson Rodrigues, Lúcio Cardoso, muito de Clarice, tantos mais, e duas obras-primas escritas especialmente para "Senhor": as novelas "Meu Tio, o Iauaretê", de Guimarães Rosa, e "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água", de Jorge Amado.

No nº 13, de março de 1960, primeiro aniversário da revista, "Sr." tornou-se "Senhor" -concessão aos jornaleiros, que, acredite, até então não sabiam como chamá-la. Mas, a partir do número seguinte, Scliar, numa medida quase suicida, ousou abolir as chamadas de capa -e logo em "Senhor", que tinha tantos nomes a "chamar". Atraído por novos desafios, Scliar deixou a revista no nº 18 e foi sucedido com naturalidade por Glauco Rodrigues na chefia do departamento de arte. E, já no número seguinte, as chamadas de capa voltaram -a sugerir um choque entre Scliar e Glauco por causa delas.

Infelizmente, naquele número os nomes de Jaguar, Bea Feitler e Caio Mourão também saíram do expediente. Mas tanto Bea (então namorada de Paulo Francis) quanto Jaguar continuaram a colaborar com ilustrações, cartuns e eventuais capas. O diretor de arte Michel Burton surgiu em cena e já fez a capa do nº 19. Glauco, por sua vez, deixou "Senhor" no nº 25, comemorativo do segundo aniversário, e cedeu o lugar a Burton, mas continuou a colaborar e produzir capas. Ou seja, os que saíam passavam o bastão aos sucessores e não se acusavam abalos.

ADMINISTRAÇÃO O mesmo não se pode dizer das súbitas mudanças administrativas que a revista sofreu naquele período. No nº 25, de março de 1961, o nome de Sergio Waissman desapareceu do expediente como diretor-gerente da Editora Senhor. No nº 27, de maio, Ivan Meira deixou a chefia do comercial. E, finalmente, no nº 30, de agosto, Nahum Sirotsky transmitiu o cargo de editor-redator-chefe a Odylo Costa, filho. Com a saída de Nahum, era o pai se separando do filho, a mão se separando do braço. E por quê?

Nahum despediu-se dos leitores com um editorial explicando que, como a revista fora vendida a "outro grupo", queria deixar o caminho livre para a orientação dos novos proprietários -por mais que o tivessem "instado a continuar". O "outro grupo" era a LTB, Listas Telefônicas Brasileiras, controlada por Gilberto Huber, dono também da AGGS, gráfica que editava a revista e que, na prática, se tornava a proprietária da Editora Senhor.

Aos íntimos, Nahum dizia que só teria permanecido nas mesmas condições de liberdade e independência que lhe eram garantidas pelos irmãos Waissman -e, segundo ele, esse não parecia ser o caso com Huber. Seja como for, se houve alguma mudança política ou editorial na linha da revista, ela não ficou clara -mesmo porque Paulo Francis e Newton Rodrigues continuaram a assinar como editores, só que agora sob Odylo. O que houve foi uma queda constante da publicidade, provocada mais pela instabilidade da vida política brasileira do que por uma queda de qualidade da revista.

Essa instabilidade se iniciou com a renúncia do presidente Jânio Quadros naquele mesmo agosto de 1961, prosseguiu com as incertezas em torno da posse do vice-presidente João Goulart, com o curto e opaco período do regime parlamentarista, e culminou na explosiva volta do presidencialismo, em que o país começou a ser sacudido pela intensa agitação nos sindicatos e no campo. Com o país à sombra de uma possível guerra civil, a ideia de uma revista tão cara e requintada parecia realmente fora de lugar. A saída de Ivan Meira também contribuiu para a queda da publicidade.

O nº 36, de fevereiro de 1962, tinha uma linda capa ("Ele vem aí", referindo-se ao Carnaval), mas apenas três páginas de anúncios. A situação era crítica. E quase toda a revista, cada vez mais magrinha, saía agora em preto e branco. "Senhor" parecia terminal. No mês seguinte -março, terceiro aniversário de "Senhor", Odylo caiu. Seu reinado durou apenas sete meses. Foi substituído pelo poeta e artista gráfico Reynaldo Jardim (ex-"Suplemento Dominical" do "JB") como diretor responsável.

Paulo Francis e Newton Rodrigues continuaram como editores, mas, com Reynaldo à testa, não havia lugar para um diretor de arte, donde Michel Burton também saiu. Em abril, Jaguar foi convidado a concentrar cartuns, artigos e "faits-divers" de humor numa seção dentro da revista, "O Jacaré".

Em maio, "Senhor" voltou a ter cores, mas a publicidade continuou inexpressiva. Numa quase apelação, as moças que a revista fotografava começaram a se despir um pouco mais -nem tanto como as "Certinhas do Lalau", na "Última Hora", mas já se vislumbravam alguns seios. Até que, em julho, a AGGS repassou a revista e a editora (de graça, mas com todas as dívidas) a uma corajosa dupla que se dispôs a assumi-las: o próprio Reynaldo Jardim e seu velho amigo, o bem-sucedido publicitário Edeson Coelho. E, com o prestígio de Edeson no meio, os anúncios voltaram em alto estilo.

Paulo Francis e Newton Rodrigues se afastaram no número seguinte, o 43, de setembro de 1962, e, com a saída de Francis, "Senhor" perdeu o último membro de seu núcleo inicial.

GRANDE FASE Foi, de novo, uma grande fase para a revista, com média de 30 a 40 colaboradores por mês, mais de 20 páginas de publicidade e alguns números memoráveis, como o gordo 50-51, datado de abril-maio de 1963, com 28 páginas de textos (contra e a favor) sobre a bossa nova.

Mas os prejuízos acumulados eram muitos, e aquele foi também o último número composto e impresso na AGGS -como se nem ela, uma gráfica "amiga", continuasse disposta a bancar as dificuldades da revista. O fato de Edeson e Reynaldo serem obrigados a juntar dois números em um só revela um quadro de dívidas não saldadas, fornecedores impacientes e papagaios levantados junto a banqueiros lenientes, suficientes para rodar a revista mais uma vez. Era, de novo, a ameaça do fim.

RISCO E assim "Senhor" se arrastou até o último número, o 59, de janeiro de 1964. O Brasil de 1963/64 não era um cenário que estimulasse empreitadas de risco -e nada mais arriscado que uma revista, com seus compromissos fixos (papel, tinta, impostos, colaboradores) e receita flutuante (anúncios e venda avulsa). O país inteiro se tornara um risco -todo mundo sabia. Quando os militares tomaram o poder, a 31 de março de 1964, "Senhor" já não estava ali para testemunhar.

E, nos anos imediatamente seguintes, os senhores de colarinho branco que compunham o seu público viram-se engolfados pelo processo de juvenilização galopante que tomou o planeta, com o iê-iê-iê, os hippies, os cabelos sobre a gola e, depois, sobre os ombros. De certa maneira, "Senhor" acabou ao mesmo tempo que seu próprio mundo.

Vista de hoje, seus defeitos ficaram tão aparentes quanto suas qualidades. E os primeiros são mais de produção gráfica -a maioria de seus responsáveis eram homens de grande criatividade plástica, mas com pouca tarimba em revistas. Em busca da originalidade, cometiam-se pecadilhos impensáveis, digamos, na já estabelecida revista "Manchete", como títulos na página errada, ilustrações que pareciam ter saltado para fora do texto, algum desacerto na tipologia e, o pior de todos, às vezes páginas e páginas com uma massa de texto.

PALAVRA Mas aquele ainda era o mundo da palavra, é bom lembrar. Os leitores não recuavam diante de uma página de texto apertado, fosse no jornal ou na revista. Na verdade, quando se encontrou, "Senhor" (assim como o novo "Jornal do Brasil", comandado por Janio de Freitas) tornou-se justamente um dos veículos que vieram para oxigenar a imprensa, com o uso generoso da fotografia e do espaço em branco.
A fórmula gráfica de "Senhor" variou de acordo com a oscilação comercial da revista. Em certa fase, as capas estilo obra de arte (muitas a cargo de Glauco Rodrigues) foram trocadas por capas mais fotográficas, algumas destacando uma mulher seminua. Era o desespero de tentar recuperar na venda avulsa o que estava faltando na publicidade. Mas aquele não era o público de "Senhor" e, eventualmente, ela voltou à sua antiga e gloriosa sofisticação.

Sofisticação esta que nunca foi deixada de lado em matéria de textos -e de que o livro "O Melhor da Senhor" oferece robusta amostra. Amostra que não se pretende única -outros livros como este, equivalentes em quantidade e qualidade do material, seriam possíveis, se se tivessem conseguido todas as autorizações desejadas.

Por diferentes motivos, não pudemos ter Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues ou James Thurber. Mas temos Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector e muitos dos outros que tornaram "Senhor" uma sra. revista. E nunca se fez outra igual.


Folha de S.Paulo
20/05/2012
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terça-feira, 15 de maio de 2012

Nossa cortina de ferro

Janio de Freitas e Millôr
JANIO DE FREITAS


A Comissão da Verdade concretiza-se, amanhã, apoiada no otimismo que antecede as perspectivas muito desejadas e afinal vislumbradas. Mas não é o caso de otimismo algum. A tarefa da comissão é muito mais complexa e improvável do que, em geral, se tem suposto.

A confiança que está depositada na eficácia da comissão supõe nela poderes mágicos, capazes de enfim diluir todos os obstáculos -inúmeros e muito variados- que há mais de um quarto de século são como uma cortina de ferro à brasileira, verde-oliva.

A confiança justificada é a merecida pelos componentes da comissão, escolha preciosa à qual, por mim, faltou acrescentar José Gregori.

Os obstáculos que compõem a cortina não abriram sequer frestas, por ter sido aprovada a comissão. Estão todos aí, os mesmos. O "Tortura Nunca Mais", a Comissão Justiça e Paz e outras entidades fizeram pela justiça histórica e pela verdade humana uma obra extraordinária de coragem, abnegação e competência. Até encontrarem, sem mais recursos do que aqueles valores, os obstáculos que agora cabe à comissão, dotada de novos meios, enfrentar.

A própria Comissão da Verdade resulta da cortina de ferro. Já foi dito muitas vezes, "a Comissão da Verdade é o possível, nas circunstâncias". Ou não são democratas mesmo, ou não merecem ser vistos como sinceros, os que defendem a anistia "aprovada" pelos serviçais do regime no Congresso.

Para autores de crimes de morte com esquartejamento, assassinatos de empalados, e por enforcamento, por excesso de pancadas e choques, por amputações, pelas torturas mais horrendas. São monstros de desumanidade. Nisso equivalentes aos que enojaram o mundo por fazerem as mesmas coisas nos campos de concentração nazistas e com prisioneiros, civis mesmo, nas zonas da guerra.

Não há por que contar-se com repentinos acessos de coragem dos coronéis Ustras e dos policiais que com eles agiram, para regurgitarem as verdades dos seus feitos, só porque postos diante da comissão. Arquivos vão ser descobertos e estripados, é provável que outros sejam entregues, mas não será fácil obter colaborações para as respostas mais negadas até aqui. Por exemplo, a localização dos corpos desaparecidos.

Mesmo a aparente colaboração pode ser ardilosa, levando ao desvio de pesquisas para caminhos vazios -como já se deu tantas vezes no Araguaia e com despojos em São Paulo. Exemplo disso, bastou aproximar-se a hora da Comissão, logo apareceu um ex-torturador a expor farta salada de crimes reais da repressão e ficções amalucadas (a morte do delegado Sérgio Fleury valeria por todas as histórias: morreu de uma pedrada na cabeça -pedrada em uma lancha). Já outros se oferecem.

O otimismo fará esperar por verdades a que a Comissão, provavelmente, não poderá chegar. O que tenderia a provocar deduções e cobranças. Daí a importância da escolha de seus integrantes: não cabe dúvida alguma de que todos levam para a comissão seriedade e empenho no melhor grau.

Folha de S.Paulo
15/05/2012 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Engenharia da complacência

POR OLAVO DE CARVALHO
Indignado ante o conformismo servil com que os americanos, outrora tão apegados às liberdades civis, vão aceitando as intrusões cada vez mais agressivas do governo nas suas vidas privadas, o economista Walter Williams finalmente se deu conta de que “o movimento antifumo explica parcialmente a atual complacência americana". 
Diz ele que os zelotes do antitabagismo começaram com exigências 'razoáveis', como os avisos do Ministério da Saúde nos pacotes de cigarros. Depois exigiram áreas para não-fumantes nos aviões. Encorajados pelo sucesso, exigiram a proibição total do fumo nos aviões, e depois nos aeroportos, nos restaurantes e nos locais de trabalho. 
Tudo em nome da saúde. Percebendo a resposta complacente dos fumantes, passaram a banir o fumo das praias, nas praças e nas calçadas das grandes cidades. Agora estão clamando por prêmios de seguro-saúde mais caros para os fumantes". 
De acordo com Williams, se tivessem apresentado a lista inteira de suas exigências logo no começo, não teriam conseguido nada. "Usando a cruzada antifumo como modelo e vendo os americanos tão complacentes, os zelotes e candidatos a tiranos estão ampliando mais e mais a sua agenda”. (O artigo completo está emhttp://frontpagemag.com/2012/03/16/americans-have-become-compliant.)   
Meus leitores e ouvintes são testemunhas de que há uma década e meia, ou mais, venho lhes explicando o óbvio: a campanha antitabagista jamais teve nada a ver com a saúde. Como era de se prever desde o início, até hoje não se verificou em parte alguma, com a patente diminuição do número de fumantes, nenhuma, rigorosamente nenhuma redução proporcional da incidência das doenças alegadamente "causadas pelo fumo". 
Mas a patente ausência dos resultados prometidos, em vez de colocar em questão as premissas iniciais da campanha e moderar a retórica antifumo, como se esperaria de mentalidades soi-disant científicas, é respondida com novas cargas de exigências cada vez mais prepotentes, mais histéricas, mais invasivas. O antitabagismo, como o socialismo, vive de redobrar o blefe após cada novo desmentido das suas pretensões, transfigurando em sucesso publicitário e político o fracasso crônico das metas nominais alardeadas.
Não lhe falta, para isso, uma incansável e vociferante militância espalhada pela Europa e pelas Américas, composta de uma bem subsidiada elite ativista e uma massa idiota de "verdadeiros crentes" cada vez mais fanatizados. Tão fanatizados que nem mesmo o uso repetidamente comprovado de meios de propaganda fraudulentos (como as fotos forjadas que o nosso Ministério da Saúde estampou nos maços de cigarros) os leva a duvidar, por um momento sequer, da idoneidade da campanha. 
Por trás do que imaginam os crentes, o antitabagismo militante jamais teve por meta proteger a saúde de ninguém. Foi apenas um primeiro e bem sucedido experimento de engenharia comportamental em escala planetária. Foi um balão de ensaio, preparatório à implantação de controles cada vez mais drásticos, cada vez mais intrusivos, destinados a reduzir a população de todo o Ocidente a uma massa amorfa incapaz de reagir a qualquer imposição, por mais arbitrária, lesiva e absurda, que venha da elite globalista autoconstituída em governo mundial. 
A escolha do tema foi especialmente ardilosa, visando a seduzir  conservadores, evangélicos e moralistas em geral, desarmando-os preventivamente ante quaisquer campanhas subsequentes baseadas no mesmo modelo e usando a própria força deles para sufocar na "espiral do silêncio" as poucas vozes discordantes. 
Uma vez que você cedeu tudo à pretensa autoridade científica dos organismos internacionais em matéria de "saúde", fica difícil reerguer a cabeça quando essa autoridade, em seguida, estende seus domínios para as áreas da alimentação, da educação escolar, da moral sexual, da vida familiar e assim por diante. A facilidade estonteante com que a elite revolucionária instrumentalizou os seus próprios adversários mais ardorosos aparece condensada simbolicamente num detalhe cômico, ou tragicômico, que denota a fragilidade estrutural da reação anti-estatista: o uso do tabaco é rigorosamente proibido nas sedes das organizações "libertarians" que defendem a liberação da maconha.
Só o que me espanta é que mesmo uma inteligência privilegiada como a de Walter Williams tenha levado tanto tempo para notar que o antitabagismo, usando do ardil das exigências progressivamente ampliadas (a famosa técnica da rã na panela), impôs muito mais do que sua meta nominal de restringir o consumo de cigarros: impôs, junto com ela, uma nova autoridade, um novo esquema de poder, um novo procedimento legislativo, um novo sistema de comandos que pode ser acionado a qualquer momento, com garantias quase infalíveis de obediência automática, para espalhar entre as massas as reações padronizadas que a elite global bem deseje. 
O triunfo da prepotência antitabagista não trouxe nem trará jamais os anunciados efeitos benéficos para a saúde da população, mas, depois dele, a humanidade Ocidental já não será mais a mesma. A complacência ante o Estado intrusivo parece ter-se arraigado de uma vez por todas no espírito das massas, pondo um fim à era da livre discussão e inaugurando a da passividade servil e do ódio à divergência.


Publicado no Diário do Comércio.


domingo, 1 de abril de 2012

"Um método perigoso", de David Cronenberg


POR INÁCIO ARAÚJO
Para David Cronenberg não existe doença mental – ou antes: toda doença mental, toda dor psíquica tem uma tradução física. Basta ver a primeira cena de “Um Método Perigoso” para entender seu pensamento: uma mulher grita, contorce-se, bate-se dentro da carruagem que a leva até um hospital psiquiátrico.
Essa doente é Sabina Spielrein e, quando começa seu tratamento com o dr. Jung, tratamento pela fala, nota-se com clareza ainda maior como se manifesta essa doença: na dificuldade de falar, nos retorcimentos agônicos do corpo, na sufocação que parece inscrita em seu olhar.
Sabemos desde então por onde passará, no filme, tanto o encontro como o posterior conflito (ambos intelectuais) entre C.G. Jung e Sigmund Freud: pelo corpo. O corpo contido, protestante, de Jung. E o corpo inquieto, judaico, de Freud (inquietude que se manifesta no olhar, no charuto). Haverá no meio alguns outros corpos, mas o essencial é o de Sabina, cuja melhora a leva a tornar-se amante de Jung.
Sabina (aliás uma futura psicanalista) é, de início, um corpo em que a dor é produzida pela violência paterna. Transforma-se, com o tratamento, em corpo de amor, de prazer. Um prazer que não exclui a dor (ah, parece que Cronenberg é o último cineasta a saber filmar cenas de sexo, isto é, de amor).
Sabina será também, ao menos no filme, o eixo do conflito entre Freud e Jung, na verdade. Ela ama a Jung, o homem por quem revela-se o caminho do seu desejo, mas entende melhor a Freud: afinal é da resistência de Jung à abordagem da sexualidade por Freud que nasce a distância entre os dois homens.
Embora seja possível testemunhar algumas discussões sobre psicanálise ao longo do filme, está claro que não há a menor necessidade de compreendê-las. O essencial virá sempre da imagem, do físico. Assim é no momento em que Freud, sentindo-se apunhalado por Jung (desejo do filho de matar o pai) desmaia e cai, como que simulando a própria morte. Ou durante a visita a Jung de uma Sabina grávida (de outro homem) – momento lancinante, pois percebemos que esse filho deveria ser dele, Jung.
Se os filmes mais recentes de Cronenberg pareciam obra de um cineasta um tanto conformado com a atual realidade cinematográfica (que, no entanto, sempre buscou driblar), “Um Método Perigoso” o reencontra na trilha de sempre, de autor irredutível ao cinema dos bons modos. Podia-se temer ao abordar as relações entre um grupo de intelectuais: teria cedido ao “filme de arte”?
Seu “Método” prova que não, que é um cineasta do “filme de filme” a cada passo, a cada cena. E o que é próprio do humano, visto por Cronenberg, é o sofrimento, a agonia, o gozo: o perigo, enfim, de que essas aventuras intelectuais (a da psicanálise e a do filme) constituem uma demonstração.
Por fim: se Cronenberg não esconde que sua simpatia científica pende para o lado de Freud (o que já é bem mais que nada, neste momento em que se acredita na cura não pela fala, mas por pílulas mágicas), não deixa de reconhecer o que há de poético no pensamento metafísico de Jung.

Da leitura dos clássicos


Houve época em que às crianças era apresentado nos bancos escolares (e essa observação vale para o Brasil, para países europeus cuja influência se fez sentir aqui e para os Estados Unidos) um conjunto de obras (literárias, musicais, arquitetônicas...) chamadas clássicas. Naquele tempo, igualmente, os professores ensinavam que clássico era um estilo, que se diferenciava, por exemplo, do barroco, do rococó, do maneirismo; ensinavam que clássico era um período importante da história da cultura, que o próprio sentido da formação escolar era tributária de valores clássicos (a chamada educação refinada). Daí que, para gerações pretéritas, o ensino de clássicos ligava-se a um estágio na formação: o curso clássico, para quem queria seguir carreira em humanidades, e o científico, para os com maior queda para as ciências.


Fazer qualquer tipo de ponderação sobre a importância da leitura de obras clássicas, para mim, evoca um nível de formação perdida nas brumas do tempo. Acho que este é um bom mote para eu me situar tanto em relação ao tema, quanto às dificuldades no uso da palavra “clássico”. Acho interessante esta aproximação por duas razões principais: o sentido da palavra me remete em alguma medida a questões ligadas à formação escolar d’antanho; o uso da palavra, ainda hoje, opera um certo tipo de separação social, daí que a ela seja inevitável um recorte sobre o valor social da leitura. Um ponto que julgo importante e inevitável ao tratarmos do tema, então, refere-se à própria maneira como a palavra aparecia no vocabulário quotidiano: aprendia-se a usá-la como a outras palavras que acompanhavam a vida das pessoas.

Assim, para gerações d’antanho, clássico era o contato com obras antigas, geralmente apresentadas pelos professores de português ou de artes. Na escola ensinava-se que houve uma antiguidade clássica, que incluía dramaturgos como Sófocles, Esquilo e Eurípides, historiadores como Heródoto (o “pai da história”), Tucídides e Tácito, filósofos como Platão, Aristóteles e Epicuro. Ensinava-se, outrossim, literatura portuguesa, onde se lia Gil Vicente, Camões e junto a estes eram feitas referências a Petrarca, Erasmo de Roterdã e Shakespeare. E esses autores, no espírito renascentista, inspiravam-se nos modelos dos clássicos da antiguidade. Tinha-se, assim, um panorama do que era o mundo clássico, do que veio a ser o classicismo, para que se pudesse apreciar, traçar comparações com o que vinha depois na grade curricular.

Nos bancos escolares ensinavam as crianças a reconhecer uma obra do chamado período clássico e, com isso, lhes possibilitavam um primeiro uso da palavra, um sentido genérico, mas que, ao mesmo tempo, lhes fornecia os pilares para o reconhecimento de que Camões é clássico, Machado de Assis, realista e Mario de Andrade, moderno. Foi assim que, no antigo ginasial (atuais dois últimos ciclos do ensino Fundamental), apresentou-se a mim um primeiro sentido da palavra “clássico”. 

Assevero, no entanto, que o primeiro sentido da palavra apreendido por mim, com o passar dos anos revelou-se antinômico: clássico não diz respeito tão somente às obras do classicismo, pois esta palavra tem um escopo mais amplo, que inclui realistas como Machado de Assis e Eça de Queirós tanto quanto românticos como Balzac, Stendhal e José de Alencar. Enfim, aprendi que num sentido mais amplo clássico e moderno se opõem. 

Com isso, não só a palavra “clássico” ganhou outro relevo como a palavra “moderno”; aprendi que clássico identifica-se com adjetivos como tradicional e conservador e, por isso, que obras clássicas seguem modelos pré-estabelecidos; e, em contraste, o moderno diz respeito à vanguarda, à ruptura, à quebra de convenções. Nesse momento, as caracterizações de uma obra seguindo períodos como barroco, romantismo, realismo, diluíram-se – importantes para quem prestar vestibular (um soneto não identificado de Antero de Quental deve fornecer ao aluno indícios de que se trata de um exemplar da poesia realista portuguesa) –, pois o que se impõe é saber se um determinado autor é clássico ou moderno. 

Malfazejo o destino das palavras; dormiria o sono dos justos se a antinomia ficasse por aqui. A fortuna quis que com o tempo, com as leituras, aprendesse que não há fronteira nítida entre os clássicos e os modernos; que aprendesse nos últimos anos com o pós-moderno que tanto um romance como A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy, de Laurence Sterne, escrito no século XVIII, quanto Morte a crédito, de L. F. Céline, podem ser catalogados como modernos. Se for despropositado afirmar que Sterne não é um moderno, da mesma forma é com propósito que quando estamos lendo Proust, Joyce, Faulkner ou Guimarães Rosa, podemos afirmar que estamos diante de clássicos da literatura. E isso, adrede, causa-me desconforto: um clássico moderno e um moderno clássico desafiam meu senso de apreensão da realidade. 

Com isso, apenas quero traçar uma linha demarcatória entre o uso restrito que era feito da palavra quando estava nos bancos escolares (Camões e Boccaccio eram clássicos, Bocage e Quevedo, barrocos, Dostoiévsky e Machado de Assis, realistas, Fernando Pessoa, Mario de Sá Carneiro, Manuel Bandeira e Paul Valéry, modernos) e os numerosos debates que, com a vida e as leituras, me informaram acerca de um sentido mais amplo que é dado à palavra: D. Casmurro, de Machado de Assis, é um clássico da literatura brasileira (negar isso pode causar estranheza, dependendo do contexto); Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, também é um clássico da literatura brasileira. 

Bem, mas fiz esta breve digressão para chamar a atenção para uma dificuldade inicial e primária na aprendizagem das palavras, a fim de lançar um olhar retrospectivo para minha formação e poder assinalar qual foi o primeiro sentido da palavra “clássico” que me foi dado nos bancos escolares. Assim, na quinta série do antigo ginásio, na Escola Maria Augusta Siqueira, minha professora de português (Paula, de cujas lembranças são boas, mas da qual o destino hoje me escapa ao conhecimento) me ensinou os primeiros versos de Os Lusíadas, a contar as sílabas dos alexandrinos versos do épico português, e que, assim, estava aprendendo a ler, apreciar e reconhecer um clássico. 

No curso de minha vida, portanto, o sentido que aprendi e apreendi da palavra “clássico” foi se modificando: na escola, clássico era Camões; mais tarde, clássico se opunha o moderno e o realista Tolstoi era clássico; mais recentemente, clássico pode ser uma obra que não ultrapassou meia centúria (nas férias mais recentes reli Malone morre, do irlandês Samuel Beckett: um clássico! E, ainda, li Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee, Nobel de literatura em 2003: outro clássico!). 

Bem, mas o que tentei até aqui foi apontar para algumas dificuldades, para o percurso de meus próprios contatos e como minha compreensão acerca do sentido dado à palavra “clássico” se modificou. Com isso, a partir de minha experiência de leitura, quis mostrar que o tema é tão movediço quanto perturbador, pois tudo que escrevi pode ficar apenas confinado à minha formação. E, assim sendo, corro o risco de psicanalisar em demasia as observações feitas. Contudo, assim entendo, essas singelas e pessoais dificuldades representam a menor porção do iceberg: as questões mais espinhosas, quando me deparo com o tema, diz respeito, na mesma proporção, às questões de gosto e de valor social da leitura de um clássico. Sobre esses dois pontos, deter-me-ei a seguir; guardando, óbvio, os limites de uma pincelada ensaística.

A questão de gosto, como todos sabem, é antiga; por isso é inoportuno alinhavar seus contornos; seria uma pretensão desmedida. No entanto, olho para um aspecto que me parece inquietante: quando me posto diante de um clássico isso significa que aprecio o que estou a ler? Isso significa que estabeleço critérios ditados pela minha disposição interior para considerar uma obra clássica, ou que devo me curvar a um padrão exterior? Quando me faço essa inquirição, dou conta de que para a leitura de um clássico eu poderia ser movido por razões exógenas ao meu gosto e que o meu gosto, pelas minhas experiências pessoais, podem ditar escolhas que escapam completamente ao que um padrão externo tomaria para considerar que uma certa obra é clássica. 

Li na infância e gostei de D. Casmurro (seminal para minhas disposições e interesses por literatura com o passar dos anos); li também A pata da gazela e gostei da mesma forma que de D. Casmurro. Mas com o correr dos anos aprendi (lendo Silvio Romero, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Roberto Schwarz...), que há uma distância abissal entre romances como esses dois quando se ajuíza o valor de um livro na história da literatura. Creio de aprendido que não posso confundir minhas disposições pessoais com a fortuna crítica de um livro.

A questão de gosto, pelo menos para mim, é complexa; como gosto de ler romances, por que prefiro Cervantes a Carlos Heitor Cony? Por que, como a maioria das pessoas, exibo conhecimentos da leitura de um Virgilio ou de um Dante? Quando levo em conta o gosto, por que, como muitos, sou irreverente a padrões externos e tomo o meu cânon de “clássicos” como se fosse o Cânon? O ponto a que chego é: a questão de gosto pode muito bem ser excluída quando da leitura de uma obra clássica, justamente porque a apreciação de um clássico requer uma disciplina, a qual é alheia a qualquer imperativo de gosto. O entendimento de uma obra clássica pressupõe esforço e, por conseguinte, trata-se de algo de que podemos ou não gostar. 

(Não me era difícil notar como meus colegas de escola resistiam à leitura de José de Alencar, de Machado de Assis, de Euclides da Cunha, de Lima Barreto. Não me é difícil notar, hoje, como grande parte das crianças do fundamental (o antigo ginásio) troça dos romances que devem ler: eles simplesmente não gostam!). 

Então, um passo mais e chego ao seguinte ponto: antes do gosto, ler um clássico possui um valor social. Deve-se conhecer a melhor literatura simplesmente porque isso configura um padrão de cultura, de civilidade. A leitura e a exibição, portanto, têm muito mais a ver com etiqueta (no sentido dado por Erasmo, Baldassare Castiglione e Giovanni della Casa) do que com projeções de gosto pessoal. Daí que muitos estabelecem uma discreta distinção entre alta e baixa cultura; entre obras – por assim dizer – para um público elitizado e obras para um público mais amplo: Virginia Woolf, André Gide, Günter Grass ou Edward Albee seriam para uma elite intelectualizada – portanto, que se afirma socialmente pela leitura de clássicos –, enquanto Patrícia Highsmith, François Sagan ou Peter Handkler, para leitores com uma visão mais pasteurizada, mais afeita aos imperativos do consumo. 

Claro que esta separação é meramente casual, mas é nesse ponto nos dias de hoje que as coisas se complicam. Minha constante remissão à grade curricular de outrora é para lembrar que a leitura de clássicos e as chamadas humanidades estão encolhidas nos currículos. Em nome do multiculturalismo, da diversidade cultural e do politicamente correto, a grade curricular nas escolas brasileiras (com os “Parâmetros Curriculares Nacionais”), americanas e de paises europeus que influenciam o modo de pensar de educadores brasileiros coloca em xeque o valor social da leitura de clássicos. 

A importância do tema, para mim, é o de situá-lo na contra-corrente dos debates pluralistas em educação; é o de reafirmar o valor social da leitura de clássicos, se temos em vista a afirmação de um padrão de cultura e civilização que se forjou com humanistas e iluministas. Com isso, ainda que sinta um certo nonsense na defesa do ensino que valoriza a leitura de obras clássicas, eu me posto ao lado de críticos americanos como Harold Bloom, Robert Hughes e Susan Sontag, que se colocaram no furacão dos debates sobre currículos. Entenderam que não se pode deixar de lado um Mark Twain da disciplina de leitura de uma criança com a alegação de que se trata de um escritor racista. 

Antes de qualquer discussão sobre catálogos e gosto pessoal, creio que a pergunta fundamental é: ainda faz sentido ler obras que, respeitado um padrão de cultura, são consideradas clássicas? Ou seja, faz sentido submeter às crianças a disciplina de leitura para que aprendam a ler obras clássicas? A esta pergunta, como se segue do que escrevi atrás, respondo afirmativamente: sinto um orgulho desmedido por ter me submetido à leitura de autores clássicos em minha infância; vejo com muito gosto jovens que quebram as convenções (ditadas pelo imperativo do mass media) e se deleitam com Homero ou Hesíodo antes do sono. 


Humberto Pereira da Silva 
São Paulo, 14/2/2005