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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cordas e Camarotes: cinturões da exclusão



TEXTO DO PROFESSOR E MÚSICO MESSIAS G. BANDEIRA

A recente declaração de Bell Marques (Chiclete com Banana), justificando a manutenção das cordas no carnaval de Salvador, é o sintoma mais aparente do preconceito de classe que subsiste na Bahia. A novidade é que, ao expressar publicamente sua índole, Bell aperta, até o último buraco, o cinturão da exclusão na maior festa popular do mundo.

Poderíamos dizer que se trata de uma fala isolada, um deslize. Não é o caso. O carnaval dá relevo a uma situação sistêmica da desigualdade em Salvador. Bell Marques e sua turma acentuam a discriminação, empurrando as cordas e o preconceito contra aqueles que, ironicamente, deram-lhes palco, prestígio e riqueza.

O silêncio de outras estrelas da axé music diante de tal declaração é um aval ao apartheid pretendido por muitos blocos, camarotes e suas correias de transmissão instaladas nos órgãos e secretarias da (des)governança da cidade de Salvador. Eles não podem continuar dando as cartas. E o município não pode amesquinhar-se ante aqueles que operam no submundo do esquema marqueteiro.

Da aviltante “popcorn experience” — acreditem: um cercado que permite aos ilustres pagantes dos camarotes a vivência do carnaval no asfalto “sem se misturar” — ao sequestro dos espaços públicos por alguns camarotes, tudo parece nos expulsar do carnaval.

Não carrego ilusões. O carnaval baiano não é a festa da igualdade. No limite, ele subtrai o distanciamento físico de estratos sociais, falseando uma equidade que, na realidade, se apresenta apenas de forma simbólica durante 6 dias. Ou seja: entre “chupar um geladinho na corda” e apreciar um drink no espaço gourmet do camarote, há um imenso abismo. Inclusão social? Capitalismo de estado? Qual? Aquele que oferece 9.837 m2 ao Camarote Salvador e 0,6 m2 ao isopor de cerveja?

É bem verdade que o carnaval não será o locus da superação de disparidades sociais históricas. Trata-se de uma festa. Mas é exatamente por isso que o vetor mercadológico deveria estar submetido ao core cultural da festa. E não o contrário. O carnaval também é um campo de disputa política. Cordas e camarotes até podem ser justificáveis em algumas situações. No entanto, usá-los como forma de opressão é inaceitável.

Bem, eu poderia fugir do carnaval e virar as costas pra tudo isso. Mas estarei ali, ocupando o espaço público, na companhia de cidadãos que querem celebrar o carnaval, que exigem respeito e dignidade. E não apenas porque pago os meus impostos — o que me reduziria a um simples consumidor de serviços públicos. Mas, sobretudo, porque vivo nesta cidade.

Minha fórmula? Abaixem as cordas e desçam do camarote. Venham viver não a “popcorn experience”, mas a “human experience”. Depois de 35 anos pulando atrás do trio de Dodô e Osmar, eu garanto: além de uma atitude cidadã, é muito mais divertido!

 Messias G. Bandeira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O prazer de ler romances



Por João Paulo (Estado de Minas)

Entre os maiores prazeres do mundo está a leitura de um bom romance. Por isso é preocupante que as pessoas leiam pouco: elas estão deixando de lado uma das melhores coisas da vida. Resumir a capacidade de ser feliz é sempre um problema. Para o filósofo Spinoza, o que caracterizava a felicidade era a ampliação do mundo. No caminho contrário, sempre que diminuímos o horizonte operamos um trabalho em favor da tristeza. 

Há prazeres e prazeres. Nossa época padece de uma mescla contraditória de hedonismo e ascetismo. Todos querem gozar muito e rápido, deixando de lado a lenta e agradável tarefa da preparação. Por outro lado, o que é considerado felicidade ficou tão contido na estreita faixa do consumo que a realização se tornou muito mais uma obrigação que um ato de liberdade. 

O homem de hoje não escolhe aquilo de que gosta, há uma imposição ditada pelos padrões de consumo que indicam o “lugar certo onde colocar o desejo”. Há algum tempo, a grande cisão se dava entre o ser e o ter. Hoje, no reino do simulacro e da sociedade do espetáculo, o ser foi destronado pelo parecer. As pessoas têm que parecer jovens (mesmo à custa de uma máscara horrorosa de botox e plástica que tira a diferença em nome de uma fealdade típica), parecer ricas (mesmo consumindo o que não apreciam), parecer vencedoras (mesmo à custa de dar rasteira no outro e furar filas).

Com esse receituário, algumas alegrias que atravessaram os séculos correm o risco de se perder no caminho. A leitura de romances parece ser uma delas. Em primeiro lugar, os temas clássicos foram sendo jogados de lado em nome de um realismo brutalista. Como ler se tornou chato, a saída foi aproximar as ficções do que a realidade tem de mais excitante. E dá-lhe livros policiais e assemelhados. Toda narrativa, para ser palatável, precisa ser curta, rápida, violenta e rasteira.

Para dar sequência a uma boa intenção que se perdeu, os romances, além de trocar a dimensão literária pela estética do jornalismo e do cinema, se tornou um produto desprestigiado no mercado cultural pela exigência que cobra do consumidor. Para que ler um livro se posso consumir um resumo, uma adaptação, uma resenha? Não foi por acaso que fez sucesso há poucos anos um livro que se chamava Como falar de livros que você não leu. O lance é parecer que leu.

Um terceiro aspecto do esvaziamento da literatura como entretenimento rico se deu exatamente pelo preconceito contra a diversão. Autores que se julgam sérios decidiram que livros bons precisavam ser cacetes. A chamada alta literatura se afundou num pântano de autorreferência e citações enviesadas, deixando a boa história de lado em nome da metalinguagem. O resultado foi um cisma, que ainda hoje deixa marcas no cenário: livro bom precisa ser metido a besta; livro divertido não merece respeito de gente séria.

Já vai longe o tempo em que autores como Jorge Amado e Erico Verissimo escreviam a melhor literatura brasileira e eram lidos por milhões. Mesmo eles, que algumas vezes chegaram perto da composição de obras-primas (como São Jorge dos Ilhéus e Gabriela, cravo e canela, no caso de Amado; e os vários volumes de O tempo e o vento  e Incidente em Antares, da pena de Verissimo), foram objeto de muxoxos por parte da crítica. 

O poeta José Paulo Paes e o crítico Antonio Candido foram dos poucos analistas literários de peso a defender a importância de uma literatura de entretenimento entre nós. Sofisticados e cultos, sabiam que o sistema literário só funciona se houver uma sedimentação quantitativa, que, com o tempo, prepara o leitor para trabalhos mais exigentes. Os escritores populares de hoje (como foram Balzac e José de Alencar em seu tempo) preparam o caminho e, muitas vezes, ajudam eles mesmos a indicar as melhores picadas. Sucesso de público não é defeito. O pecado é a má literatura.

Outro caminho que parece romper com o esquematismo que divide livros sérios e volumes descartáveis é a chamada literatura pop, marcada pela sensibilidade com os dilemas contemporâneos, de olhos nas pessoas que são gente como a gente. São livros que trazem personagens comuns, vivendo existências convencionais, mas tocados, em algum momento, por alguma sutil manifestação da transcendência. Pode ser o humor, a redenção, o mergulho no mistério. Uma epifania profana, como a dos personagens de Salinger, o mais cult dos pops – ou o contrário. O importante é que seja comunicável, agradável, excite a sensibilidade e incorpore inteligência ao mundo à nossa volta.

Sexo, rock e literatura Um exemplo de livro que reúne tudo que de bom a literatura pode dar ao leitor e ainda proporcionar altas doses de prazer é o romance A visita cruel do tempo, da escritora americana Jennifer Egan, que sai no Brasil pela Editora Intrínseca. A romancista ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 2011 e uma fileira de outras distinções. O livro agradou o público e vende como pão quente. Tem nele a mágica de convencer a crítica e divertir o público. O enredo é simples, os personagens verdadeiros. Tem sexo, drogas e rock’n roll. 

O que Jennifer Egan tem de especial é a capacidade de contar uma boa história, que tem como atores gente como um executivo do mundo do disco que toma café com flocos de ouro para recuperar o tesão perdido, uma marqueteira que acaba assessorando um ditador sanguinário, adolescentes problemáticos, mulheres em busca do amor, um ídolo decadente do rock em fase terminal, um jornalista de celebridades que sai da prisão por violência sexual contra uma personagem de suas matérias, um pescador desligado do mundo que se alimenta de peixes pescados em rios poluídos. Como se vê, em cada uma das personagens há uma enxurrada de símbolos. Mas o que mais agrada no livro é que a teoria foi deixada de lado. O que importa são as pessoas.

Em meio a um universo entrópico e aparentemente sem saída, o grande personagem da narrativa é o tempo. Desde Marcel Proust, com seu ciclópico Em busca do tempo perdido, a matéria de que somos feitos passou a ser o escorrer dos minutos, que fluem ora para a frente, ora em direção à aurora da vida. A romancista, com um domínio impressionante da estrutura narrativa, divide seu livro em 13 capítulos, cada um passado em uma época, narrado por um personagem, com um foco peculiar. A história se desloca no tempo, no espaço e na voz narrativa.

Como 13 contos que se entrelaçam a partir de detalhes, a construção do universo se dá ao final da narrativa, com o leitor partilhando experiências diferentes, vindas de pessoas sempre no momento de decisão. Em cada um dos capítulos, a narrativa começa de chofre, sem explicar quem fala, em que tempo se encontra, em que mundo habita o narrador. É a própria história, que vai se desdobrando para o leitor, que cria a segurança da identificação e a ancoragem do sentido. A romancista nos coloca em meio a um caleidoscópio que, com o desenrolar da história, passamos a girar para ver brilhar imagens encantadoras ou assustadoras. O nome do brinquedo é tempo.

A visita cruel do tempo reconstitui o prazer de leitura sem abrir mão do esforço do leitor. É um livro tão interessante exatamente na medida em que exige uma entrega à linguagem, à fabulação e à visão de mundo de pessoas já vividas, mas nem por isso céticas ao ponto de desprezar uma história bem contada. Quem acha que não tem o que aprender com romances está perdendo uma boa chance de incorporar humildade no seu patrimônio afetivo. Afinal, o tempo é cruel e não vai deixar de nos visitar na hora certa. E também nas erradas.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Democracia em questão


POR CARLOS HEITOR CONY

Acho que já contei esta história, mas vou repeti-la para justificar o título desta crônica. Faz tempo, o escritor Álvaro Lins, crítico literário e chefe do Gabinete Civil no governo JK, recebeu convite oficial para visitar a Suíça. Começou em Genebra. No primeiro dia, leu os jornais da cidade e ficou sabendo que haveria eleição geral em toda a Confederação Helvética.

O cicerone colocado à sua disposição veio apanhá-lo no hotel e começou a mostrar os pontos mais interessantes da cidade. Em dado momento, Álvaro perguntou: "Li nos jornais que hoje é dia de eleições gerais, mas não estou vendo nenhum movimento, nenhuma fila, nenhuma seção eleitoral...".

O cicerone explicou: "Não, não temos isso de filas e seções especiais. Em cada edifício público, banco ou escola, há uma maquininha, o eleitor aperta o número de seu candidato e vai embora, sem nenhuma outra formalidade".

Álvaro pensou um pouco e novamente perguntou: "E se um eleitor apertar mais de uma vez o número de seu candidato?". O cicerone ficou escandalizado: "Mas dr. Álvaro, quem faria isso?".
Álvaro não teve outro remédio senão recolher o palpite e admitir que na Suíça não haveria ninguém capaz de façanha tão condenável.

Imaginemos o processo suíço instalado no Brasil. Um candidato a vereador em São José das Três Ilhas (MG) amanheceria junto da maquininha, dela tomaria posse, ali passaria o dia inteiro, apertando o próprio número. Por essa e por outras, Churchill declarou que a democracia era o pior regime político, excetuando-se os outros. Vencedor absoluto da ditadura nazista, Churchill perderia a primeira eleição pós-Guerra. Somente uma democracia estável, em nível superior, explicaria a derrota de um gigante. De um herói incontestável.

O dilema colocado pela política, desde que os povos na mais remota Antiguidade começaram a se estabelecer como nações soberanas, até agora não superou a dicotomia maniqueísta entre democracia e ditadura.

Há pequenas variantes (regimes mistos, parlamentarismo, colégios eleitorais, monarquia constitucional etc.) que não modificam essencialmente um regime do outro.

Qualquer cidadão minimamente politizado conhece e amaldiçoa todos os malefícios, todos os crimes e aberrações das ditaduras. Daí que a democracia é venerada como a melhor forma de regime político, excetuando-se as outras -repetimos Churchill.

Agora a pergunta: depois de viver séculos e séculos cultuando a democracia como a solução ideal para a vida das nações e dos indivíduos, é natural que algum espírito de porco questione o problema. As elites pensantes da humanidade, filósofos, historiadores, estadistas, gênios de toda a espécie ainda não conseguiram criar não digo uma terceira via, mas um sistema de conduta política mais eficiente e justa. E que não poderá ser imposta com tanques, canhões e mísseis dos povos mais fortes.

No momento atual, neste início de século 21, com quase todos os países declarando-se democráticos, atravessamos sucessivas crises que não poupam sequer as grandes economias do mundo.

Quando tomei posse na Academia Brasileira de Letras, querendo expressar minha posição pessoal sobre a sociedade como um todo, fui buscar o fecho do meu discurso em Eça de Queiroz, que era apenas um escritor, um literato sem formação política nem filosófica. Encontrei em suas "Notas Contemporâneas" as palavras que poderiam me definir ideologicamente:

"A presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criança sem pão, a incapacidade da Monarquia e da República, da Ditadura e da Democracia para realizar a única obra urgente do mundo, a casa para todos, o pão para todos, lentamente me tem tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo."

Bem sei que a anarquia pura e simples, e, sobretudo, inofensiva, sem bombas, saques, sem dinamitar pontes e trens nem degolar criancinhas nos orfanatos, representaria uma solução desesperada, cujo único mérito seria contestar o establishment, levando a humanidade a criar um regime político baseado nas liberdades individuais, operado com paz e produzindo progresso. Liberdade, paz e progresso. Nesta ordem.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Carnaval do governador

Jaques Wagner não cuidou de sustar a eclosão da greve; se fez alguma outra coisa útil, e de seu dever, não se sabe 


POR JANIO DE FREITAS 

Os feitos da violência na Bahia mostraram, em sua gratuidade na rua e irresponsabilidade no palácio, o mesmo espírito carnavalesco que, como sempre, há semanas invadiu Salvador por antecipação.
A quebra dos limites que levou aos saques e destruição de lojas, a outros roubos e violências, e mesmo a tantos crimes de morte, não foi causada diretamente pela greve da Polícia Militar. Veio da espontaneidade que tem o motivo único e simples de estar liberado. Para vestir o que quiser ou desvestir-se, cantar e dançar nas ruas, assaltar, encher-se de bebida ou de tóxicos, roubar e saquear, agarrarem-se uns aos outros, soltar-se para o sexo ou para o crime: o carnaval autêntico e o carnaval da violência permitidos pela mesma ausência de impedimentos.

A cota mais pesada de responsabilidade pelos distúrbios criminosos na Bahia cabe ao governador Jaques Wagner, o mais prestigiado por Dilma Rousseff. Não é imaginável que a greve da sua polícia o surpreendesse. Ainda que o fizesse, já no começo da semana estava concretizada e, portanto, evidente.
Logo se comprovava que o governador não adotou medidas preventivas. Não cuidou de sustar a eclosão da greve, não preparou o deslocamento de contingentes policiais discordantes do plano de greve, não se articulou com os comandos militares para eventualidades previsíveis, e não se coordenou com o governo federal para o auxílio da Força Nacional. Se fez alguma outra coisa útil, e de seu dever, não se sabe.
Diante disso, nem importa saber onde estava e o que fazia o governador enquanto a sua PM cuidava de deixar a capital do Estado desprovida de policiamento, como também outras áreas. A seu favor (se é), só o fato de que não esteve sozinho na omissão. Os secretários de Segurança e de Justiça, o comando da PM e várias assessorias o acompanharam na ausência de ação. Os fatos o atestam.

Efetivada a greve e iniciadas suas consequências sobre a população, o governo baiano tardou ainda dois dias, ou algumas horas menos, para adotar providências perceptíveis. Só na quinta-feira foi possível perceber algumas delas, sobretudo a pedida presença de militares nas ruas.

Greves de serviços públicos essenciais, em especial os chamados de saúde (a rigor, falta de) e os de segurança da população, sempre serão polêmicas. Não precisam, porém, ficar nesse limbo em que permanecem no Brasil. Entre direito, abuso, consequências públicas e particulares desrespeitadas pelo poder público, e outras muitas obscuridades artificiosas. Mas convenientes aos governantes e aos parlamentares, que assim escapam aos ônus eleitorais, em qualquer sentido, da posição definida.
Quando escrevo, as indicações do número de mortos continuavam contraditórias. Mais de 20, por certo. Em circunstâncias também mal definidas. Teriam ocorrido, todas, fossem diferentes a greve e o que se passou à sua volta no governo? Ora, isso não importa aos poderes públicos que têm mais o que fazer. E de preferência o que não fazer. 
 
QUEM SABE?
Pergunta sem resposta: por que um deputado federal se movimenta, como Vicente Cândido, do PT paulista, para que se faça aos fabricantes de cerveja a gentileza de liberar bebidas alcoólicas nos estádios? Não só na Copa: sempre e em todos os estádios.
A proibição foi uma batalha áspera. Já a liberação, exigida na Copa pela casa de negócios Fifa, depende.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Entrevista inédita com Pasolini


''Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim''. Entrevista com Pier Paolo Pasolini
Uma entrevista inédita com o escritor italiano Pier Paolo Pasolini, gravada em Estocolmo, na Suécia, no dia 30 de outubro de 1975, pouco antes da sua morte. "Não há mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista". O texto completo está publicado no novo número da revista Espresso.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi escritor, ainda é. Como decidiu fazer cinema?

Isso tem raízes distantes. Quando eu era jovem, tinha 18-19 anos, por um momento pensei em ser diretor. Depois, veio a guerra, e isso cortou por longos anos toda possibilidade e toda esperança. E depois houve circunstâncias: depois que eu publiquei o meu primeiro romance, Ragazzi di vita, que teve sucesso na Itália, fui chamado para fazer roteiros. Quando gravei Accattone, era a primeira vez que eu encostava em uma câmera. Ele nunca tinha feito nem uma fotografia, e nem agora eu sei fazer uma fotografia.

O senhor prefere atores não profissionais. Como trabalha? Busca um ambiente e, quando o encontra, escolhe as pessoas depois?

Não é exatamente assim. Se eu faço um filme de ambiente popular, pego pessoas do povo, isto é, não profissionais, porque acredito que é impossível para um ator burguês fingir que é um operário ou um agricultor. Soaria falso de modo intolerável. Ao contrário, se eu faço um filme de ambiente burguês, já que não posso pedir que um engenheiro, um médico ou um advogado venha ser ator para mim, eu pego atores profissionais. Naturalmente, falo da Itália, e da Itália de dez anos atrás. Se eu estivesse na Suécia, provavelmente pegaria atores, porque não há mais diferença entre um burguês e um operário na Suécia. Falo de um fato físico. Na Itália, há uma diferença assim como entre um branco e um negro.

Nos seus últimos filmes, não há elementos religiosos, não é?

Não estou tão certo de que não haja elementos religiosos nos meus últimos filmes. Nas Mille e una notte, também havia uma espécie de inspiração religiosa em todo o filme. Não havia religiosidade confessional, temas religiosos diretos, mas uma situação de mistério e de irracionalidade havia. Todo o episódio de Ninetto, que é a parte central das Mille e una notte...

O senhor participou do diálogo entre católicos e marxistas na Itália?

Não há mais marxistas e católicos na Itália, não há mais católicos na Itália.

Explique, então, qual é a situação.

Na Itália, ocorreu uma revolução, e é a primeira da história italiana, porque os grandes países capitalistas tiveram pelo menos quatro ou cinco revoluções, que tiveram a função de unificar o país. Penso na unificação monárquica, na revolução luterana reformista, na revolução francesa burguesa e na primeira revolução industrial. Mas a Itália, ao contrário, teve pela primeira vez a revolução da segunda industrialização, isto é, do consumismo, e isso mudou radicalmente a cultura italiana em sentido antropológico. Antes, a diferença entre operário e burguês era como entre duas raças. Agora, essa diferença quase não existe mais. E a cultura que foi mais destruída foi a cultura camponesa, que era então católica. Assim, o Vaticano não tem mais sobre as costas essa enorme massa de agricultores católicos. As igrejas estão vazias, os seminários estão vazios. Se você vai a Roma, não vê mais filas de seminaristas que caminham pela cidade, e, nas duas últimas eleições, houve um triunfo do voto secular. E os marxistas também foram mudados antropologicamente pela revolução consumista, porque vivem de outro modo, em uma outra qualidade de vida, em outros modelos culturais e também foram mudados ideologicamente.

São marxistas e consumistas ao mesmo tempo?

Há essa contradição, todos aqueles que são declaradamente marxistas, mesmo que votem em marxistas, são ao mesmo tempo consumistas. Não só isso: o Partido Comunista Italiano aceitou esse desenvolvimento.

Mas quando o senhor fala de marxistas, fala do Partido Comunista ou de outras facções?

Sim, dos comunistas, socialistas, extremistas. Por exemplo, os extremistas italianos jogam bombas e depois, de noite, assistem à televisão, Canzonissima [programa de variedades da RAI], Mike Bongiorno [famoso apresentador de TV italiano].

Ainda existe a sociedade de classes?

As classes existem, mas – e este é o ponto original da Itália – a luta de classes é no plano econômico, não mais no plano cultural. Agora, a diferença é econômica entre um burguês e um operário, mas não há mais diferença cultural entre os dois.

E o novo movimento fascista?

O fascismo acabou, porque se apoiava em Deus, família, pátria, exército, todas as coisas que agora não têm mais sentido. Não há mais italianos que, diante da bandeira italiana, se comovam.

Há, portanto, uma dissolução da sociedade italiana de hoje, não é verdade?

Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, porque o clérico-fascismo, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante. Só um exemplo que posso dar: o fascismo tentou, durante todos os 20 anos em que esteve no poder, destruir os dialetos. Não conseguiu. Ao contrário, o poder consumista, que diz querer preservar os dialetos, os está destruindo.

Faça uma profecia, seja Tirésias. Há esperança no futuro?

Deveria ser mais Cassandra do que Tirésias. Perguntei hoje a dez jovens suecos com quem falei, fiz-lhes esta pergunta: vocês ainda se sentem mais próximos da civilização humanista ou já se sentem dentro da civilização tecnológica? E me parece que eles responderam, tristemente, contudo, que eles se sentem como a primeira geração de cerca de 30 gerações diferentes daquilo que tem havido até agora. E, para concluir, tudo o que eu disse, eu o disse a título pessoal. Se vocês conversarem com outros italianos, eles lhes dirão: "Aquele louco do Pasolini"...



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"Charada" ("Charade"), de Stanley Donen - Trailer

Charada (Charade, 1963), thriller de Stanley Donen com fortes acentos hitchckianos, com Cary Grant e Audrey  Hepburn, um dos últimos moicanos da era de ouro de Hollywood. Comédia e suspense. Classe e elegância. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Jerry Lewis in concert

Nelson Rodrigues na intimidade

Uma raridade filmada em 1968 pelo teatrólogo João Bethancourt que mostra Nelson Rodrigues em 1968 na sua casa, na intimidade de seu lar, lançado livro, batendo com dois dedos, em programa de televisão com João Saldanha, na redação do jornal O Globo.. O filme foi achado recentemente nos Estados Unidos. 


sábado, 17 de dezembro de 2011

Morre, aos 88, o grande ator Sérgio Brito

Colegas de palco, diretores e críticos lamentaram a morte de Sergio Britto na manhã deste sábado (17), no Rio. O ator e diretor morreu por conta de problemas cardiorrespiratórios aos 88 anos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Corrupção musical na televisão baiana

O noticiário televisivo Bahia Meio-Dia, da Rede Bahia, sobre ser um programa telejornalístico profissional e competente, peca, todavia, pela corrupção musical, pelo lixo que oferece, em termos de música, todo santo dia aos baianos. Como se a Bahia, que tem tantos nomes expressivos na história da música brasileira, estivesse, agora, reduzida a medíocres grupos de axé, arrocha, pagodé e o escambau. A regra dos responsáveis pela edição é chamar o que há de pior, esquecendo-se completamente de outros valores que possam, atualmente, existir nesta tão maltratada soterópolis. Uma exceção, há um mês, foi a apresentação do sambista de qualidade Nelson Ruffino. Agindo nesse propósito, o referido noticiário ajuda sobremaneira a embrutecer o seu telespectador, e o embrutecimento, como dizia Shakespeare, é um crime.

sábado, 5 de novembro de 2011

Amigos de Glauber contestam biografia escrita por Nelson Motta


Reportagem da revista eletrônica Terra Magazine escrita por CLÁUDIO LEAL

Os membros da geração Mapa, liderada na Bahia pelo cineasta Glauber Rocha (1939-1981), questionam a veracidade da narrativa biográfica de "A primavera do dragão" (Editora Objetiva), do produtor musical e jornalista Nelson Motta. O livro retrata a juventude de Glauber, o maior diretor da história do cinema brasileiro, e se estende até o início da trajetória internacional do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", em 1964.

O poeta e historiador Fernando da Rocha Peres se irritou com os erros da obra e dirigiu um telegrama à Objetiva: "Senhor Editor: Recebi dois exemplares não-solicitados do livro A Primavera do Dragão, do Sr. Nelson Motta. Agradeço a oferta editorial. Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito, mentiroso e mais houvera adjetivos. Deste modo, acredito que o editor vai cuidar de minorar este equívoco que foi a publicação de um livro irresponsável."

Em mais de 25 citações a seu nome, Peres é chamado de "Bananeira". Mas este é o apelido de outro Fernando da geração Mapa, o jornalista Fernando Rocha.

- Tenho esse apelido desde a idade de 12 anos. Em Boa Vista de Brotas, minha casa tinha uma touceira de bananeiras. Eu e minha família distribuíamos bananas aos amigos. O 'Bananeira' vem daí - explica Rocha. - Nunca falei com ele (Motta). É um absurdo isso, rapaz! O cara escreve por ouvir dizer, sem tomar conhecimento.

Peres tem uma opinião mais dura:

- A troca de nomes pelo senhor Nelson Motta revela a sua incapacidade de lidar com o gênero biográfico.

Admitindo a troca, Nelson Motta pede desculpas:

- Gostaria de me desculpar com o poeta e historiador Fernando Rocha Peres e o jornalista Fernando Rocha, por ter atribuído a um o apelido do outro ("Bananeira"), um equivoco que lamento e será corrigido na próxima edição, mas em nada afeta a narrativa em que o protagonista absoluto é outro Rocha: Glauber.

As histórias de "A primavera do dragão" são cravadas de adjetivos: "mentirosas", "folclóricas", "falsas", "inverídicas" e "ficcionais", disparados por amigos de Glauber ouvidos por Terra Magazine.

A geração Mapa (o nome da revista do grupo, inspirado em poema homônimo de Murilo Mendes) atuou na literatura, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, contribuindo para a renovação da cultura brasileira nos anos 50 e 60. O núcleo inicial era formado por Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando da Rocha Peres, Jaime Cardoso, Fernando Rocha, Calasans Neto, Ângelo Roberto, Antonio Guerra Lima (o "Guerrinha") e Albérico Mota. Também se agregaram ao grupo os escritores Carlos Anísio Melhor, Fred de Souza Castro, João Ubaldo Ribeiro, Florisvaldo Mattos, Sônia Coutinho, Noênio Spínola, David Salles e o pintor Sante Scaldaferri, entre outros.



"Anedotário gasto"
Protagonista da Mapa e autor de "Glauber Rocha, esse vulcão" (Ed. Nova Fronteira), reputada pela crítica como a melhor biografia do diretor de "Terra em transe", João Carlos Teixeira Gomes avalia que Motta usa "um anedotário gasto, sem sentido e já desmoralizado".

- Como biógrafo de Glauber, não gosto de analisar livros sobre ele escritos por outros autores. Mas não pode deixar de me incomodar essa tendência, que julgava superada, de se engrossar a crosta de anedotário sobre uma figura da dimensão cultural de Glauber Rocha. O livro está cheio de erros, falhas de informação, que tumultuam a leitura - critica Joca, como é conhecido (no texto de Motta, ele é chamado de "Joca Teixeira", tratamento jamais usado por seus camaradas).

]Para o biógrafo e amigo de Glauber, há "coisas absolutamente estranhas" em "A primavera do dragão".

- Nunca soube que Caetano Veloso, que nem tinha vinculação com nossa geração, nem aparecia em nada que fazíamos, teve algum caso de amor com Anecy (Rocha, irmã do cineasta). E, se teve, isso é absolutamente irrelevante para a compreensão da vida de Glauber. São muitos os erros de informação, dando uma visão completamente falsa do que foi a geração Mapa, repleta de anedotários irrelevantes, quando na verdade era uma geração de papel cultural destacado na Bahia.

Na abertura do livro, Motta descreve as fontes de boa parte das histórias: "Conversei com seus amigos de colégio e faculdade, o artista plástico Calazans Neto, os poetas e escritores João Carlos Teixeira Gomes e Fernando Rocha Peres, o cineasta Orlando Senna, o produtor e escritor Rex Schindler, o cineasta e inventor Roberto Pires, que criou uma lente de Cinemascope baiana". Segundo o autor, o romancista João Ubaldo Ribeiro contou "aventuras e travessuras com Glauber".

Ocorre que Peres e Joca, incluídos nessa lista, sustentam que nunca foram entrevistados por Nelson Motta. Apenas teriam sido procurados para fornecer e identificar fotografias. O pintor e gravador Calasans Neto morreu em maio de 2006. Peres reage à citação:

- Esta é uma mentira mais deslavada. Não me recordo que este rapaz tenha me entrevistado e creio que também não entrevistou Sante Scaldaferri e Joca, certamente não entrevistou outros companheiros da geração. O que eu fiz foi atender a um porta-voz dele, que me solicitou a identificação de pessoas em uma fotografia que seria publicada no livro. Fiz isto, a contragosto. Hoje, me arrependo, pois o que eu deveria ter dito é que eu só faço depois de ler o livro, porque constato que esse rapaz não sabe escrever. O que ele sabe é enrolar o público, com muita habilidade e um sorriso muito gentil, através da televisão. A competência dele não passa disso. Lamentavelmente, o sistema editorial brasileiro favorece esse tipo de picaretagem editorial. Por isso mesmo, ultimamente vem ululando escritores que mais parecem macacos de circo.

Em resposta enviada a Terra Magazine, Nelson Motta sustenta que o entrevistou, na capital baiana, há 22 anos:

- Em 1989, quando fui a Salvador fazer entrevistas para o livro sobre Glauber que pretendia escrever na época, fui muito bem recebido por Fernando Rocha Peres, que pode ter esquecido, mas gravou uma entrevista (que tenho até hoje) em que contou com graça e bom humor alguns ótimos episódios da Jogralesca, da revista Mapa e de farras juvenis de Glauber (...) Se o citei como participante de algum episódio em que ele não estava presente, me desculpo e o deletarei na próxima edição. Eram muitos os amigos, conhecidos e colegas de Glauber em sua juventude, não acredito que um a mais ou a menos faça grande diferença para contar como Glauber Rocha se tornou Glauber Rocha.

Além de Peres e Joca, as críticas partem de outros companheiros geracionais de Glauber: o jornalista Fernando Rocha ("Bananeira"), o artista plástico Sante Scaldaferri, o advogado Antonio Guerra Lima ("Guerrinha"), o poeta Florisvaldo Mattos e o pintor Ângelo Roberto. Nenhum deles foi entrevistado.

"Livro é ficção", diz membro da Mapa
No livro, Motta explica a origem do projeto biográfico, que remonta a 1989. "Com as gravações das entrevistas transcritas, eu começava a estruturar o livro quando uma notícia de jornal me fez mudar de ideia: Zuenir Ventura estava escrevendo uma biografia de Glauber Rocha", revela

Contudo, o jornalista Zuenir Ventura desistiu do projeto depois de perder o material pesquisado "no carro de uma amiga que foi roubado numa rua de Ipanema". Autor de "Noites Tropicais" e "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", Nelson Motta relata que, a partir de 2010, entrevistou Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto, Cacá Diegues, Sérgio Ricardo, Yoná Magalhães, Walter Lima Júnior e Caetano Veloso - personalidades que não integravam o grupo de amigos de Glauber na "fase baiana".

- Adoto o princípio glauberiano: cada um é livre para escrever o que quiser. Mas o livro é uma ficção. É mais para enaltecer Glauber. Ele não tem compromisso com a verdade dos fatos - avalia Guerrinha.

Joca procura condensar parte das críticas ao livro:

- Vários os episódios relatados jamais testemunhei como integrante da geração Mapa. Nunca soube, por exemplo, de qualquer tentativa de sequestrar o dono do "Jornal da Bahia", João Falcão, para metralhar Juracy Magalhães ou para pichar um navio espanhol em protesto contra a ditadura de Franco. Tudo isso, se ocorreu, jamais foi comentado entre os membros da geração Mapa, que, afinal de contas, ao lado de Glauber, eram os protagonistas da história, que Nelson Motta não soube contar - diz Teixeira Gomes, incluído na bibliografia de "A primavera do dragão".

Motta minimiza a polêmica e considera que "não dá para levar a sério" o relato das conspirações - "nem era para isto."

- As "conspirações" de araque - como a tentativa de pichar o navio Ciudad de Toledo, a de explodir bancas de jornais, de assassinar políticos, de sequestrar banqueiros, de "espalhar o caos bakuniniano" na Bahia - que compõem alguns dos momentos mais divertidos da história, e que obviamente não eram sérias, apenas fantasias anarquistas de jovens movidos a cerveja e alegria, me foram relatadas pelo artista plástico Calazans Neto, pelo escritor João Ubaldo Ribeiro e pelo cineasta Orlando Senna, em entrevistas gravadas, às gargalhadas - argumenta o jornalista.

Na Bahia, o artista plástico Calasans Neto era conhecido pelo talento para fabular e contar anedotas nem sempre fidedignas. Cético, Peres duvida que Ubaldo tenha se equivocado:

- Não creio que João Ubaldo tenha sido o grande informante do senhor Motta, pois sendo mais jovem não fazia parte de nosso grupo e portanto não pode ter tanta memória. A amizade acontecida entre os dois, posteriormente, possivelmente, não teria permitido informações inverídicas, levianas e grosseiras. Com a palavra João Ubaldo!

Ciudad de Toledo
Indignado, Fernando da Rocha Peres se incorpora ao testemunho de Joca: ainda que o gesto pareça heróico, nunca houve a tentativa de pichar o navio espanhol Ciudad de Toledo, "atracado a 500 metros do cais" de Salvador, em protesto contra o generalíssimo Franco (Pág. 65). Para o poeta, o autor ouviu Glauber numa "sessão espírita":

- Eu suponho que esses fatos que têm uma conotação política e pseudo-revolucionária, apontados no livro deste senhor, não passam de uma invenção, quem sabe captada numa sessão espírita, ouvindo Glauber Rocha. Ele deve frequentar alguma casa de baixo espiritismo para escrever os livros que edita - ironiza o historiador.

Ladrão x Glauber
Guerra Lima e Peres (chamado, uma vez mais, de Bananeira) não testemunharam qualquer assalto à residência de Glauber Rocha, como está relatado no livro ("Glauber estudava na sala com Bananeira e Guerrinha"), e desmentem o suposto diálogo entre Glauber e um ladrão, uma das histórias mais saborosas da biografia (Pág. 95). Glauber teria falado para Lúcia Rocha: "Calma, mãe, este homem não é um ladrão: ele está é com fome!". "Não estou com fome porra nenhuma! Eu sou é ladrão!", ouviu do assaltante.

- O livro é mais ficção do que biografia. Ou estou desmemoriado, ou não estava ali - contesta Guerrinha.

Nelson Motta diz que Glauber lhe contou o diálogo:

- O episódio do encontro de Glauber com um ladrão me foi contado, ou inventado, pelo próprio Glauber. E depois confirmado em entrevista gravada com dona Lucia Rocha, uma das muitas que fiz em 1989, que foi minha principal fonte, e que pode ter se equivocado em relação aos dois amigos que estudavam com Glauber quando um ladrão entrou em sua casa. Vou tirar os nomes dos que dizem não estar presentes e substituir por "dois amigos" (...) E não há motivos para duvidar da palavra de sua mãe - afirma o autor.

Queima de cadernos
Na página 263, Nelson Motta narra: "Depois, como nos velhos tempos, foram festejar no Tabaris. Mas antes passaram na casa de Bananeira, onde ele juntou todos os seus cadernos escolares em um saco de lixo e levou para o cabaré. Diante da turma, amontoou-os na calçada, despejou uma garrafa de cachaça, acendeu um fósforo e flambou o seu passado, sob gritos e aplausos".

Peres qualifica o relato como "mentiroso". Outros membros da geração, consultados pela reportagem, também desconhecem a "queima" dos cadernos.

- A geração de Glauber Rocha e seus amigos aparecem no livro como personagens de um cordel levado ao absurdo. Grande parte dos acontecimentos são relatados de uma maneira caricata e grotesca. O livro, quem sabe, mereceria ser processado judicialmente. Este assunto ficará no ar - avisa Peres.

João Ubaldo e Glauber no Jornal da Bahia
Ao abordar a entrada da geração Mapa no recém-fundado "Jornal da Bahia", em 1958, Nelson Motta se equivoca: "Dos jovens talentos locais, Ubaldo foi o primeiro a ser chamado para a redação e, dois meses depois, já com alguma moral, trouxe os amigos Paulo Gil, Bananeira e Glauber para a reportagem". (Pág. 170)

João Ubaldo Ribeiro não levou Glauber e demais amigos para o jornal. A biografia "Glauber Rocha, esse vulcão", de Teixeira Gomes - prefaciada por Ubaldo -, e o depoimento unânime dos membros geração Mapa comprovam que Glauber convocou os amigos para formar a equipe de repórteres. A ocupação da imprensa era uma das metas dos agitadores culturais.

- Dentre outros numerosos equívocos do livro, está a informação de que João Ubaldo Ribeiro foi quem levou o grupo Mapa para o novo "Jornal da Bahia", inaugurado em 1958. Isto é uma absoluta inverdade, pois Ubaldo nesta época nem se aproximava do grupo. Ele próprio reconhece que foi uma figura retardatária e que não se considerava propriamente um membro da geração Mapa. Quem nos levou para o "Jornal da Bahia", antes mesmo de o jornal circular, foi Glauber Rocha, que já mantinha contatos com o grupo de jornalistas mais experientes e egressos do Partido Comunista, que iam fundar o novo matutino - corrige Joca.

O poeta Florisvaldo Mattos afirma que foi convidado, igualmente, por Glauber. Ubaldo se incorporou ao grupo na Faculdade de Direito.



Castro Alves 1
Na página 104, Motta escreve que "na véspera do Carnaval, um comando da folia formado por Glauber, Bananeira e Anísio voltou a invadir o cemitério, arrancou a lira de Castro Alves e a entregou a Moby Dick (colunista social Silvio Lamenha)". Na página 103, o autor se refere ao cemitério "Quinta dos Lázaros". Na realidade, o "poeta dos escravos" foi enterrado no cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador. Fernando da Rocha Peres ressalta que nunca participou do episódio.
Em "O homem da montanha" (Imprensa Oficial), página 95, o cineasta Orlando Senna conta a mesma história, com o nome correto do cemitério e sem registrar a presença de Peres.

Castro Alves 2
Antonio Guerra Lima, presente na declamação do clássico poema "Navio Negreiro", de Castro Alves, na Faculdade de Direito, quando houve o encontro entre Glauber e Helena Ignez, contesta: o nome do declamador não era "Agripino". Ele se recorda de Péricles Diniz Gonçalves, o Pequinho, o que é confirmado pela biografia "Glauber Rocha, esse vulcão", nas páginas 211 e 212: "Após a indicação da premiação, o próprio Péricles Diniz Gonçalves subiu à tribuna do salão nobre da faculdade, onde se realizava o concurso, para declamar 'O navio negreiro', de Castro Alves", descreve Teixeira Gomes.

"Fuzilamento de Juracy Magalhães"
Estudiosos da obra do poeta Gregório de Mattos e amigos fundamentais de Glauber, Fernando Peres e Joca desmentem relatos "folclóricos", sem precisão histórica. Peres refuta a existência (até mesmo no plano de brincadeira) de qualquer tentativa de ataque ao dono do "Jornal da Bahia", João Falcão, do qual era amigo. Guerrinha, citado como um dos participantes de uma suposta reunião para preparar o "fuzilamento" de Juracy Magalhães e explodir bancas de jogo do bicho, indica outra vez a incidência de "ficção". "Nunca existiu!", disse Guerra, aos risos. Fernando Rocha, o verdadeiro Bananeira, sorriu ao saber da história: "Maluquice danada!".

- Glauber sairá dessa narrativa, tida como biografia, que para mim não é, com uma imagem positiva. Mas o livro é uma narrativa glamourizada, sem compromisso com a realidade, com os fatos. Para quem não viveu aquele tempo e não morou na Bahia, não há nada. Mas, quem conhece Salvador vê muitas informações equivocadas - analisa o poeta Florisvaldo Mattos, ex-diretor da sucursal baiana do Jornal do Brasil.

O pintor Sante Scaldaferri identifica uma falha metodológica:
- A pesquisa foi mal-orientada. Simpatizo com Nelson Motta, mas ele pisou na bola porque não é pesquisador. Poderia mandar o livro para Joca e Fernando Peres tirarem todos os erros. Se fosse humilde, mandaria alguém entrevistar a gente e não errava tanto. Agora, na Globonews, ele falou certo sobre o Glauber cineasta. De resto, foi infeliz. No livro, ele disse que Glauber era batista. Glauber era presbiteriano! Cantava os hinos para a gente. Sempre falei que ele era um homem à procura de Deus.

Pinto de Aguiar
A troca de nomes afetou a compreensão de alguns fatos, a exemplo do apoio do editor Pinto de Aguiar à luta por dinheiro para a impressão da revista "Mapa". Fernando Rocha trabalhou com o dono da Editora Progresso, e não Fernando da Rocha Peres, que virou "Bananeira" na biografia (Pág. 155). O irmão de Fernando Rocha, Wilson, era casado com a filha de Pinto de Aguiar.

- Um dos absurdos do livros é eliminar da geração Mapa a figura do jornalista Fernando Rocha, erroneamente confundido com outro membro da geração, Fernando da Rocha Peres, considerado como Bananeira, quando este apelido muito conhecido por todos os integrantes da geração e pela Bahia em geral, pertence ao outro Fernando, simplesmente o Rocha e não o Rocha Peres. Esse é um dado irrelevante mas que compõe incomodamente o grande número de desacertos de Nelson Motta no seu Primavera do Dragão - lamenta Joca.

Em outro trecho, na página 212, a atriz Sonia Pereira, de Mandacaru Vermelho, é confundida com a escritora Sonia Coutinho. Motta pede desculpas pelo erro.

Glauber, "corno"
Os amigos de Glauber veem um enquadramento moralista na abordagem do fim do casamento do cineasta com a atriz Helena Ignez. Em dois momentos, o enfant terrible do Cinema Novo é chamado de "corno": "Encontrou em Saraceni, recém-chegado da Itália, o amigo e confidente para suas mágoas de amor e seu orgulho ferido. Helena o fizera um corno público em Salvador" (Pág. 255); (...) "Seria duro. Toda Salvador ali, sabendo do escândalo, olhando atravessado, debochando do corno" (Pág. 262).

Helena Ignez, que também diz não ter sido entrevistada, recebeu um exemplar enviado pela Objetiva, mas ainda não teve tempo de ler, pois está envolvida em uma nova peça. Entretanto, tomou conhecimento de algumas histórias e prefere citar o ex-marido Rogério Sganzerla: "Nem tudo é verdade".

Nas primeiras páginas, uma descrição das medidas do pintor Calasans Neto (vitimado por poliomielite) provocou risos nos protagonistas da Mapa: "Dono de uma gargalhada estrondosa e, asseguravam os amigos, de um pau enorme, Calá era a alegria dos almoços na pensão com suas piadas e safadezas".

- É um exemplo gritante da irresponsabilidade deste pseudoescritor: na página 49 do livro, ele exalta o "pau" de Calasans Neto como grande!... A não ser que ele tenha tido essa informação vinda da esposa de Calasans Neto - provoca Fernando Peres.

Anjo Azul
Outros detalhes de ambientação são questionados por contemporâneos de Glauber. No capítulo sobre a "Glamour Girl" Helena Ignez, Nelson Motta procura descrever o bar "existencialista" Anjo Azul, no Centro de Salvador. "Nas paredes, telas de Carlos Bastos e tapeçarias de Genaro de Carvalho" (...) "Naquela noite, no Anjo Azul, Helena comemorava com amigos a sua indicação para concorrer - vitória praticamente certa - ao título de 'Glamour Girl', quando foi abordada por Paulo Gil ao sair da pista de dança e se encaminhar para a mesa." (Pág. 125)

Os frequentadores do Anjo Azul não se lembram de nenhuma pista de dança. Às vezes, embalados por uma música de Billie Holiday, os casais se levantavam para dançar cheek to cheek. "Era tão apertado que a gente batia numa escultura de Mário Cravo", brinca Florisvaldo Mattos. E não havia "telas", mas um famoso mural modernista de Carlos Bastos, posteriormente destruído, sob protestos.

Contesta-se a afirmação de que Glauber, ainda secundarista, recebia seus amigos "completamente nu", "peladão", em seu quarto, na casa de sua família em Salvador (Pág.50). Este seria um hábito posterior à fase retratada no livro. "Isso é onda. Ele tinha irmã, tinha prima, como ele ia fazer isso?", desfaz Fernando Rocha.

Em 6 de novembro, a Bienal do Livro da Bahia deve acolher o lançamento da obra de Nelson Motta. Os membros da Mapa decidiram: não vão comparecer. O biógrafo João Carlos Teixeira Gomes recomenda uma nova edição (revisada).

- Não faço nenhuma restrição a fatos ligados à vida amorosa de Glauber, como o ciúme possessivo da sua personalidade, em relação a suas numerosas amadas, nem quero moralismo, porque nossa geração era muito liberada sexualmente e artisticamente. Queríamos o novo. Mas é óbvio que me incomodam distorções, simplesmente por não corresponderem à realidade da nossa trajetória coletiva. Aconselharia Nelson Motta, numa eventual segunda edição do seu livro, que corrigisse essas numerosas distorções com o mesmo entusiasmo com que ele se lançou a escrever apenas uma parte da vida de um criador tão inteiriço e indivisível como Glauber Rocha.

Motta defende a pertinência de seu trabalho e procura diminuir a importância dos amigos de Glauber:

- Acredito que são equívocos pontuais e irrelevantes para a narrativa da formação de um personagem extraordinário cercado por inúmeros pequenos e grandes amigos, conhecidos e colegas, que se confundem e se perdem ao longo da sua juventude povoada por uma multidão de personagens que, ao contrário de Glauber, se dissolveram no tempo.

O corte cronológico de Nelson Motta não é uma novidade editorial. Em 1995, Ayeska Paulafreitas e José Júlio Lobo lançaram "Glauber, a conquista de um sonho - Os anos verdes". Desta vez, assevera Peres, "Glauber é pintado na sua juventude com cores nada dignas e também a sua geração".

- Isto me parece indigno. Espero que estas minhas declarações e as de João Carlos Teixeira Gomes e Fernando Rocha não venham a favorecer a vendagem deste livro (A primavera do dragão) que nada acrescenta à história de um grupo, à biografia de Glauber e aos brios baianos. Este rapaz, felizmente, não nasceu na Bahia - mordisca o historiador e membro da Academia de Letras da Bahia, onde realizará a palestra: "Biografia: um gênero em questão", dissecando a obra de Motta.

Em "Glauber Rocha, esse vulcão", Joca evidencia as dificuldades para biografar o cineasta: "Ele tinha efetivamente, certas reações imprevisíveis, o que contribuiu para formar em torno dele um elenco de lendas perniciosas, que sufocavam o seu lado realmente importante e consequente - ou seja, o do intelectual e realizador cinematográfico. Se é verdade que um biógrafo não deve suprimir ao leitor a informação de tais fatos, também é verdade que deve usá-los dentro de rígidos limites éticos, não para favorecer a imagem do biografado, mas sim para não permitir que o secundário, numa personalidade, triunfe sobre o essencial da sua vida". E conclui: "Uma biografia não é um depósito de quinquilharias, insignificâncias e dados irrelevantes".

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Setaro's Blog: A miséria cultural baiana

Setaro's Blog: A miséria cultural baiana: Diz-se que a Bahia já teve seu Século de Péricles, uma alusão ao período efervescente que se situou nos anos 50 e na primeira metade dos 60,...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Por um sentido arquitetônico de morar

Mais uma foto exclusiva que este blog dá em primeira mão da aguardada exposição Morar na Arte, de Ediane do Monte - veja detalhes no post abaixo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Morar na Arte" - Exposição de Ediane do Monte


Ediane do Monte, já consagrada fotógrafa e artista plástica, com devaneios bissextos na poesia, está para inaugurar, na sexta vindoura, 21 de outubro, às 19 horas, no salão de festas do Edifício Eldorado, onde a artista se esconde dos males do mundo, isto quer dizer, mora no mesmo prédio, a exposição Morar na Arte composta de 17 fotografias impressas em papéis e totalmente dedicada aos moradores do edifício, que tem, em sua arquitetura, características especiais e assombra, por vezes, com suas linhas tortuosas. De arquitetura modernista, o Eldorado foi criado pelo arquiteto Eduardo Cerqueira Pinto, e inaugurado em 1955, um edifício especial para história da arquitetura. Quem perder a vernissage, pode visitar a exposição entre os dias 22 e 23 das 16 às 20 horas.
Contato: Ediane do Monte
Atelier Frida Kahlo II
Tel. 33322123 ou 82029821

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A justiça e o Sargento Garcia

FERNANDO DE BARROS E SILVA

FOLHA DE SP - 28/09/11

SÃO PAULO - "Sabe que dia eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o sargento Garcia prender o Zorro. É um Tribunal de Justiça fechado, refratário a qualquer ação do CNJ, e o presidente do Supremo Tribunal Federal é paulista."

A corregedora do Conselho Nacional de Justiça, Eliana Calmon, pôs os cinco dedos na ferida na entrevista que concedeu à APJ (Associação Paulista de Jornais). Sem a fala empolada característica do Judiciário, disse que a marcha em curso para reduzir as competências do CNJ, proibindo-o de investigar e punir magistrados antes que os próprios tribunais estaduais o façam, é "o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos escondidos atrás da toga".

Alguém dúvida que seja verdade?

O CNJ, no entanto, capitaneado pelo ministro Cezar Peluso, tomou a dianteira da reação corporativa à corregedora. Em nota oficial, disse que suas declarações "de forma generalizada ofendem a idoneidade e a dignidade de todos os magistrados e de todo o Poder Judiciário".

Onde estaria a "ofensa generalizada" ao Judiciário? Se digo que o jornalismo está "infiltrado de bandidos escondidos atrás da pena" não quero dizer com isso que todos os jornalistas -nem a maioria deles- sejam venais. Em vez de enfrentar um problema real, o CNJ endossa o teatro da dignidade abalada do Judiciário e faz o jogo do obscurantismo.

Além da corrupção, a Corregedoria do CNJ já identificou pelos Estados diversos problemas disciplinares e de gestão, casos de processos que mofam nas prateleiras, muitas vezes por inação deliberada do juiz.

O TJ-SP, de onde vem Peluso, é um conhecido templo do espírito corporativo mais arcaico e arraigado.

A decisão que o STF tomará a respeito das atribuições do CNJ pode representar um grande retrocesso institucional. Apostar na ação das Corregedorias locais é como acreditar na eficiência do sargento Garcia.