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terça-feira, 29 de junho de 2010

Os neojornalistas estão chegando


Em sua coluna semanal do Globo (20/6/2010), Caetano Veloso comentava sobre um amigo jornalista para quem o convite feito a celebridades para escrever em jornais é uma tentativa furada de enfrentar a crise da palavra impressa no mercado. O jornalista estaria "sentindo saudades de um suposto tempo em que jornais eram feitos por jornalistas".
Assim, de um jeito muito casual, o ator-compositor-escritor – personagem ativo na vida pública brasileira e agora colunista de jornal – pôs em poucas palavras um aspecto candente da crise do jornalismo. Mas seu adjetivo "suposto" vai ainda mais além, ao insinuar que apenas teria havido um tempo em que jornais eram feitos por jornalistas.
Na realidade, há muito tempo os jornais são feitos por um tipo de profissional a que se convencionou chamar de jornalista. Não que outro tipo de identidade autoral não pudesse ser reivindicada na produção do conteúdo jornalístico (cronistas e articulistas, principalmente), mas a modernização da velha "publicística" consolidou-se como "jornalismo", com um agente de produção específico, embora ficando sempre claro que essa profissionalização era tão só uma das várias atividades no interior da esfera pública.
Liberdade de expressão
Nunca foi pacífica a consolidação dessa atividade, assim como nunca foi homogêneo o seu percurso prestigioso do jornalismo na Europa: houve períodos em que o jornal diário não gozava da boa consideração que mais tarde lhe veio atribuir o espírito liberal. Enquanto Friedrich Hegel (1770-1831) pôde ver na leitura matinal dos jornais "a prece do homem moderno", Honoré de Balzac (1799-1850) mostrou-se abertamente cáustico para com essa ela – "se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la" –, embora assumisse paradoxalmente a condição de panfletário: "O verdadeiro panfleto é obra do mais alto talento, se todavia não for o grito do gênio."
Mas as contradições e os confrontos se davam sempre no interior de um movimento histórico de esclarecimento da cidadania e de luta pela liberdade de expressão. Num livro recente (A Narração do Fato, Editora Vozes), reiteramos longamente que até mesmo em seus instantes panfletários ou em seus manifestos típicos do publicismo (o jornal artesanalmente produzido, mas politicamente definido como tribune aggrandie, na formulação de Benjamin Constant), a imprensa queria de algum modo esclarecer um público, ora trazendo à luz o que se ocultava nos desvãos do poder como "segredos de Estado", ora tentando fazer passar uma ideia ou uma causa como indutoras de modernização e progresso.
Jornais e jornalistas não são meras e episódicas categorias editoriais, mas instrumentos ideológicos na luta pela consolidação ideológica de uma classe social em sua definitiva emergência histórica, a classe burguesa. Emergindo na passagem do Estado absoluto ao Estado de direito, como porta-voz dos direitos (civis) que inauguram a modernidade da cidadania, a imprensa traz consigo a novidade da liberdade de expressão e mais, toda uma retórica a serviço da legitimação ideológica de si mesma e, numa dimensão prático-profissional, a serviço da narração fragmentária da atualidade.
Apuradores de fatos e ficcionistas
Assim, perpassada pelo compromisso histórico para com a ética do liberalismo, a ideologia jornalística nos repete há dois séculos, por um lado, que cabe à imprensa assegurar ao cidadão a representatividade de sua palavra, de seus pensamentos particulares, garantindo a sua liberdade civil de exprimir-se publicamente. Esta função, que é a virtude intrínseca do jornalismo, lastreia eticamente o pacto comercial implícito na relação entre os meios de comunicação e a sua comunidade receptora. Seja no suporte escrito ou eletrônico, o dever do jornalista para com o público-leitor é noticiar uma verdade, reconhecida como tal pelo senso comum, desde que o enunciado corresponda a um fato, selecionado por regras hierárquicas de importância. A profissionalização específica consolidou-se dentro desse contexto.
Mas as coisas vêm mudando, e aceleradamente. Já não é nenhuma novidade dizer que a era eletrônica, com a internet à frente, pôs em crise a identidade corporativa do profissional de imprensa. Blogs e twitters estão aí para demonstrar que qualquer indivíduo, munido de computador e devidamente "antenado", é, no mínimo, um "protojornalista", isto é, uma fonte de informação ou de opinião conversível em discurso social. O jornalismo sempre implicou essa condição: uma voz reconhecida como discurso social por se investir da autoridade de um testemunho (histor, em grego) quanto ao fato social, ainda que o testemunho fosse indireto.
Sabemos dos percalços históricos para o reconhecimento social desse discurso – a longa transformação do publicismo opinativo e panfletário em jornalismo como comunicação supostamente objetiva e imparcial dos fatos. E como essa função social sempre conviveu com o espírito literário (escritores-jornalistas, cronistas etc.), os jornais abrigavam tradicionalmente intelectuais oriundos do mundo das Letras ou da Academia stricto sensu. Nas redações, os apuradores de fatos sempre estiveram lado a lado com ficcionistas e cultores do encantamento retórico. O termo "jornalismo" recobre semanticamente essa cumplicidade.
A migração do besteirol
Algo mudou, entretanto, como já salientamos, e o mal-estar de agora não é apenas semântico. É isso o que deixa transparecer, quase como um sintoma, a frase do compositor-colunista sobre o "tempo em que jornal era feito por jornalista". Então não é mais? Ainda é, sim, basta fazer o cômputo corporativo. Mas o sensível compositor intui que tempo é algo que também se compõe, como as notas na partitura. Isto é, há um tempo que se inventa ou que se constrói socialmente.

A frase caetana sinaliza um tempo em gestação, em que a identidade corporativa do profissional de imprensa vem sendo fortemente abalada por uma série de fatores. Há o fator tecnológico, a internet. Mas há também, especialmente aqui entre nós, um novo tipo de reconhecimento do entertainer (músico, ator, compositor, cantor etc.) como intelectual com voz socialmente autorizada como pública. É esta, muito provavelmente, a razão para o recrutamento desses entertainers como colunistas em jornais do Rio e São Paulo.

Ainda é cedo para saber se o leitor vai sair ganhando alguma coisa com isso, algo intelectualmente mais elevado ou mais tocado por discursos de alta comunicabilidade. Os resultados de uma primeira avaliação não se mostram ainda muito promissores. Quanto maior o grau de celebrização do entertainer, menor, ao que tudo indica, seu compromisso com a clareza ou com a determinação objetiva de alguma coisa. É possível que isso não tenha mais nenhuma importância ou que importe mais a imagem valorizada do que a validade histórica dos enunciados.

Colada à celebridade midiática, a imagem é viral e, em sua progressão metastática, relativiza a semântica e o sentido. No contexto de massa (sim, massa ainda é conceito operativo, com interatividade cibernética e tudo), vale pouco o que se diz, vale muito quem diz.
A censura implícita nas ações de danos morais – estas mesmas que fazem o modismo judiciário do final do último século para cá e que perturbam o trânsito da expressão pública – nos impede de dar nome aos bois.
Charme pessoal à parte, multiplicam-se os indícios de que o besteirol possa estar migrando das ribaltas para o jornal.
Texto de Muniz Sodré publicado no Observatório da Imprensa.

domingo, 27 de junho de 2010

Gullar: "A arte de enganar"

ÉTICA NA política é coisa rara, qualquer que seja o partido. É surpreendente, no entanto, que o partido que nasceu empunhando a ética como bandeira tenha se tornado a expressão da antiética. Certamente, haverá, no próprio PT, exemplos louváveis de políticos que não se deixam seduzir, seja pela esperteza, seja corrupção, mas não são estes que dão as ordens na equipe do presidente Lula.
Não quero cometer injustiças mas, se não é mera impressão minha, vejo o presidente Lula como o oposto de tudo o que seu partido prometia trazer à vida política brasileira. Posso estar enganado, mas, se bem o percebo, ele, com a sua esperteza sindicalista, induz os que atuam sob seu comando a pôr de lado todo e qualquer escrúpulo: manipulam informações, falseiam a verdade dos fatos, forjam dossiês com falsas acusações, acusam vítimas de os estarem caluniando. Esses são alguns dos procedimentos comuns ao governo do atual presidente.
Os exemplos não faltam. Todos sabem que um dos objetivos de Lula, no plano internacional, é conseguir, para o Brasil, um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Em face de sua desastrada aliança com Ahmadnejad, de que resultou o isolamento do país, uma repórter perguntou ao ministro Celso Amorim se esse isolamento não inviabilizaria aquela pretensão do governo brasileiro.
A resposta dele não foi própria à de um ministro de Estado, que tem a obrigação de prestar contas à opinião pública. Disse ele: "É engraçado, os que consideravam tolice do governo pretender um lugar no Conselho de Segurança, agora lamentam a possibilidade de o perdermos". Ora, não importa o que certas pessoas pensavam da pretensão do governo; importa, sim, que o governo pretendia alcançar aquele objetivo e o inviabilizou por se ter aliado a uma ditadura belicista. Admiti-lo seria aceitar que errara e Lula, claro, não erra...
Mas assim é esse governo, só assume como coisa sua o que lhe dê prestígio, ainda que sua não seja, como no caso da defesa do meio ambiente. Alguém já viu, no plano internacional, uma comédia semelhante à representada por Lula e Dilma durante a reunião do clima em Copenhague?
O país todo sabe que Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente porque Dilma, então ministra da Casa Civil, seguindo as ordens de Lula, impunha a aprovação, a toque de caixa, dos projetos do PAC, ainda que atentassem contra a preservação do meio ambiente. No entanto, em Copenhague, ambos, apareceram como defensores da preservação ambiental. O tema é tão distante das preocupações de Dilma que ela, num ato falho, soltou uma frase reveladora do que realmente pensa da ecologia.Nesse terreno da farsa descarada, um dos últimos episódios foi o do novo dossiê que o PT preparava para caluniar o candidato José Serra, mais um dentre outros, como aquele que foi escandalosamente flagrado num quarto de hotel, em São Paulo, quando a polícia apreendeu, em mãos de uma quadrilha petista, uma montanha de dinheiro. Em face de tão incontestável flagrante, Lula imediatamente chamou os responsáveis pela falcatrua de "aloprados", ou seja, tendo de admitir que era gente sua, tratou de desqualificá-los, como se agissem por conta própria. Como sempre, ele e seu partido nunca sabem de nada, desde que vire escândalo.
Surgiu, recentemente, outro dossiê e, de novo, contra Serra. Um dos convidados a armar a falcatrua abriu a boca e a denunciou, voltando a confirmar a denúncia numa CPI da Câmara de Deputados. A reação de Lula e seu partido não podia ser outra: afirmam que o dossiê foi inventado para acusar o PT e, assim, mais uma vez, o vilão se torna vítima e a vítima, vilão.
Um exemplo, para concluir. A equipe econômica do governo afirmara que, se aprovado pelo Congresso, o aumento de 7,7% para os aposentados comprometeria o equilíbrio orçamentário do país.Mas Lula, que só pensa na eleição de Dilma, contrariando a opinião de seus ministros, sancionou o aumento e alegou: "Não é isso que vai levar o país à bancarrota". Só que ninguém afirmara tal coisa.Como sempre, ele responde a uma afirmação que ninguém fez, para escamotear a verdade. A verdade é que esse aumento eleitoreiro agrava o déficit da Previdência, que já chega a R$ 50 bilhões.
Texto de Ferreira Gullar (domingo, 27 de junho de 2010 na Folha de S.Paulo)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um craque da publicidade


Menos de um mês antes do término da Segunda Guerra Mundial, nasce, em Salvador/Bahia, em 20 de abril de 1945, João Carlos Alves Olivieri, fruto da união de Almir Olivieri e Célia Alves (filha da consagrada historiadora Marieta Alves). Por causa das transferências intermitentes de seu pai, bancário do Banco do Brasil, Jonga (também conhecido como Yonga e Don Oliva) mora em diversas cidades até se fixar, ainda imberbe, na Cidade Maravilhosa, que não é outra (e ainda!) senão o Rio de Janeiro. Sobre ser um baiano por nascimento, é, no entanto, pela sua vivência, um carioca típico. Desde cedo, um cinéfilo constante, apaixonado pelas coisas da sétima arte. Ainda jovem, inconformado com as contradições da sociedade capitalista, idealista por excelência, e em plena ditadura militar, adere à luta contra os militares no poder e, em consequência, para escapar da prisão, foge para Salvador, onde passa uma temporada. Corre o ano de 1966. Mas volta ano depois para o Rio, aconselhado pelo seu advogado. Apresenta-se e acaba julgado e condenado. Cumpre a pena de alguns meses.

O gosto pelo desenho, que se manifesta desde tenra idade, faz com que entre no mercado publicitário. Trabalha nas maiores e melhores agências do país e, nos anos 90, passa alguns anos como publicitário em Portugal. A volta ao Rio se dá por causa da saudade que sente do seu Rio de Janeiro, ainda que um admirador das plagas lisboetas. Tem um blog que é um verdadeiro relicário de casos (ou causos) da propaganda brasileira, onde conta episódios divertidos e instrutivos, principalmente para a nova geração que desconhece o mundo da publicidade há algumas décadas atrás (http://jongaoliva.blogspot.com ). Sempre muito bem informado, e radical quando é preciso, para não ser um conformista com o status quo, escreve em outro blog que pensa os fatos em Novas Pensatas (http://novaspensatas.blogspot.com ).

Admirador de Rastros de ódio (The seachers, 1956), de John Ford, entre outros grandes momentos do cinema em geral, vê-o, sempre que pode, ajoelhado, principalmente, naquele momento final, quando o Tio Ethan, interpretado por John Wayne, vaga solitário cumprida a sua missão, com aquele plano belíssimo da porta aberta que descortina o vazio da paisagem.

Bem, para se ter uma idéia da excelência de seus trabalhos, que se vá, e que se vá com urgência, vê-los em outro blog: http://jonga_portfolio.blogspot.com Ou então no: http://pinturas_jonga.blospot.com

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dunga versus Rede Globo


Recebi através de uma mensagem. O texto não é meu. Nem sei o nome de seu autor. Mas vale a pena ler porque verdadeiro.
"Junte se a nós e participe do #DiaSemGlobo# em apoio a Dunga.
O técnico da seleção brasileira abriu fogo contra a Rede Globo.Dunga deu na canela do comentarista Alex Escobar, da Globo. Poucas horas depois, um dos apresentadores do programa Fantástico, Tadeu Schmidt, da África leu um editorial da emissora detonando Dunga.
Tudo tem um porque, antes do ataque ao Dunga no Fantástico, o Jornal O Globo já havia descido a lenha na seleção e principalmente no seu treinador.Qual a razão dessa súbita mudança de comportamento? Vamos aos fatos: Segunda feira, véspera do jogo de estréia da seleção brasileira contra a Coréia do Norte, por volta de 11 horas da manhã, hora local na África doSul.
Eis que de repente, aportam na entrada da concentração do Brasil, dona Fátima Bernardes, toda-poderosa Primeira Dama do jornalismo televisivo, acompanhada do repórter Tino Marcos e mais uma equipe completa de filmagem, iluminação etc.
Indagada pelo chefe de segurança do que se tratava, a esposa do poderosoWilliam Bonner sentenciou :" Estamos aqui para fazer uma REPORTAGEM EXCLUSIVA para a TV Globo, com o treinador e alguns jogadores..."Comunicado do fato, o técnico Dunga, PESSOALMENTE dirigiu-se ao portão e após ouvir da sra. Fátima o mesmo blá-blá-blá, foi incisivo, curto e grosso, como convém a uma pessoa da sua formação: "Me desculpe, minha senhora, mas aqui não tem essa de "REPORTAGEMEXCLUSIVA" para a rede Globo. Ou a gente fala pra todas as emissoras de TV ou não fala pra nenhuma..."Brilhante !!!
Pela vez primeira em mais de 40 anos, um brasileiro peitava publicamente a Vênus Platinada !!!" Mas... - prosseguiu dona Fátima - esse acordo foi feito ontem entre o Renato ( Maurício Prado, chefe de redação de esportes de O Globo ) e o Presidente Ricardo Teixeira. Tenho autorização para realizar a matéria".Dunga: - " Não tem autorização nem meia autorização, aqui nesse espaço eu é que resolvo o que é melhor para a minha equipe. E com licença que eu tenho mais o que fazer. E pode mandar dizer pro Ricardo ( Teixeira ) que se ele quer insistir com isso, eu entrego o cargo agora mesmo!"O treinador então virou as costas para a supra sumo do pedantismo e saiu semao menos se despedir.
Dunga pode até perder a classificação, a Copa , seu time pode até tomar umagoleada, qualquer fiasqueira na África, mas sua atitude passa à história como um exemplo de coragem e independência frente a uma das instituiçõesprivadas mais poderosas no País e que tem por hábito impor suas vontades,eis que é líder de audiência e por isso se acha acima do bem e do mal.Após a poderosa Globo a mesma que levou o Collorido ao poder e depois o detonou por seus interesses, agora difama o Dunga, tá certo que o cara é meio Ogro, mas não teve o direito de se defender dos ataques em momento algum.Falar mal do cara é liberdade de imprensa. Ouvir o cara não pode?A reação do povo foi imediata. O editorial lido no programa "Fantástico", da Rede Globo, deu repercussão no mundo virtual. E pela primeira vez na história o Brasil inteiro apóia o técnico da Seleção. Só a Globo para conseguir isso...Dentre os assuntos mais comentados no Twitter nesta segunda-feira (21), afrase "Cala boca, Tadeu Schmidt" era líder absoluta --superou até a antecessora "Cala Boca, Galvão", que liderou por dias seguidos os TrendingTopics.
E não parou por ai. Em apoio ao técnico da seleção brasileira, os twiteiros lançaram o "DiaSemGlobo", que será nessa sexta-feira, quando o Brasil vai jogar com a seleção de Portugal, no encerramento da primeira fase da copa. Todo mundo na Band, ou em outra emissora, não vamos sintonizar a Globo na sexta-feira, temos que começar a deixar de ser gado manso, mostrar que não somos trouxas manipuláveis."

José Saramago (1922/2010)


Com a morte de José Saramago, a literatura portuguesa perde um de seus maiores escritores. Mais que isso, a comunidade lusófona perde um genuíno intelectual marxista que não desistiu de mudar o mundo apenas pelo fato de as tentativas socialistas terem descambado para o estatismo, o imobilismo e o absolutismo canhestro.

Saramago se definia como um homem pessimista, pois só os pessimistas querem mudar o mundo e as coisas à sua volta. A exemplo dele, também me considero de esquerda e um tanto pessimista, na medida em que desejo um mundo melhor, no qual também os pobres possam viver com dignidade. O verdadeiro esquerdista é aquele que anseia por uma sociedade mais justa e igualitária, livre da hipocrisia do politicamente correto e do vale-tudo praticado por governantes que se agarram tanto ao poder que se distanciam de si mesmos – independentemente da ideologia.
No entanto, confesso que nunca fui um fiel leitor dos livros de Saramago e tampouco concordava com tudo o que ele dizia. Sempre achei seu estilo narrativo difícil, pelo menos para os meus parcos conhecimentos literários. Sou daqueles que preferem textos enxutos, com poucas vírgulas e nenhum adjetivo. Gosto de Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, Camilo José Cela, Murilo Rubião, Albert Camus. Em se tratando de períodos longos com sinalizações próprias, abro exceção para Guimarães Rosa – um gênio, a meu ver.
Uma missão para cumprir voluntariamente
Apesar disso, sempre fui fã de Saramago e me orgulho ao lembrar que nossos caminhos se cruzaram por duas vezes. Em setembro de 1983, um time de 11 autores portugueses desembarcou em São Paulo para diversos eventos literários. Depois de cumprir a agenda local, que incluía a Bienal Internacional do Livro – salve engano – o grupo se subdividiu, dirigindo-se a diferentes regiões do país. Era como se aqueles escritores tivessem a missão secreta de redescobrir o país inventado por Cabral.
Vieram a Minas Gerais José Saramago, sua então mulher, Isabel da Nóbrega, e o poeta Pedro Tamen. Queriam conhecer Ouro Preto e outras cidades históricas, para onde se dirigiriam em caravana com autores da província, entre eles Branca Maria de Paula, Robinson Damasceno dos Reis e o luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu amigo e guru. Na ocasião, tive a oportunidade de entrevistar os três visitantes nas dependências do Othon Palace Hotel, onde se hospedaram de passagem por Belo Horizonte.
A entrevista seria feita para o Estado de Minas, jornal com o qual eu já colaborava como colunista de teatro e cinema. Para minha surpresa, o editor de cultura, Geraldo Magalhães, havia escalado o repórter Waldir Vasconcelos para a mesma tarefa. Afinal, na minha ingenuidade de "foca", não avisei ao jornal que estaria ali para cumprir a missão voluntariamente. O resultado disso é que publiquei minha reportagem no Suplemento Literário do Minas Gerais, editado naquela época pelo contista Duílio Gomes.

Férias na Península Ibérica
Naquele momento, com o gravador em punho, eu jamais poderia supor estar diante de um futuro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Mais que isso, o único autor a conquistar a láurea escrevendo numa língua que é quase um dialeto no mundo globalizado. Para aproveitar o encontro com os três visitantes, fiz quatro ou cinco perguntas a cada um deles, já que teria apenas uma página para publicar a reportagem. Foram todos simpáticos e objetivos. A matéria
pode ser lida aqui.
"A vossa literatura está com muita pujança e não está em crise", disse Saramago ao responder a uma de minhas perguntas. Sobre sua estada no Brasil, ele de certa forma traduziu o ponto de vista de seus companheiros de viagem: "Desejamos que a nossa vinda sirva para que os leitores brasileiros pensassem um pouco mais e atendessem um pouco mais a uma literatura que está a ser feita em nossa terra, que me parece a mim ter mérito suficiente para que o leitor brasileiro se interesse. É possível que os escritores portugueses não sejam muito conhecidos do público brasileiro, mas são com certeza bastante conhecido e muito estimados nas faculdades, por professores de Literatura Portuguesa e por estudantes."
Saramago voltaria várias vezes a Belo Horizonte, inclusive como convidado do projeto "Sempre um Papo", comandado pelo jornalista Afonso Borges. O que eu também não poderia supor é que nossos caminhos se cruzariam mais uma vez. Em 1998, aproveitando a euforia do Plano Real, juntei meu suado dinheirinho e fui passar férias na Península Ibérica em companhia de Vilma, minha mulher.
Por amor ao jornalismo e à literatura

Depois de quase 12 horas de viagem, desembarcamos em Lisboa e nos dirigimos ao hotel. Chegamos famintos, cansados e sonolentos. Enquanto ela tomava banho, liguei a TV do apartamento para saber das notícias locais. Os telejornais informavam que o grande escritor lusitano havia acabado de ganhar o Prêmio Nobel.

Naquele momento, penso eu, o próprio Saramago recebia a notícia de uma comissária ou recepcionista numa sala de espera do aeroporto de Frankfurt, onde fora participar da famosa Feira de Livros. Arregacei as mangas e telefonei para a redação do Estado de Minas, dizendo que poderia repercutir a notícia do ponto de vista dos portugueses. Aliás, a opinião pública se dividia: a esquerda e os leitores comuns comemoravam, enquanto os direitistas e a comunidade católica mais conservadora lamentavam o fato de se premiar o autor de Memorial do Convento.
Corri às bancas de revistas, ouvi por telefone o editor do Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Vasconcelos (que havia conhecido num encontro literário realizado em Manaus), comprei vários jornais e visitei livrarias cujas vitrines exibiam livros de Saramago. A prefeitura havia distribuído placas pelas principais esquinas de Lisboa, cumprimentado o autor.
Também colhi depoimentos do rádio e da TV, ouvi pessoas nas ruas, juntei as anotações e fui com Vilma para a casa de nossa amiga Maria de Santa-Cruz, professora de Literatura que residia em Paredes – lugar onde conhecera Saramago quando ele ainda era jornalista. Portugal ainda não tinha internet. O jeito foi ligar a cobrar para a redação e ler a reportagem manuscrita para a colega Clara Arreguy, que teve o cuidado de respeitar cada vírgula do meu texto.
Uma década depois, ao nos excluírem de sua folha de pagamento, os Diários Associados não mais se lembravam desse nosso esforço de reportagem em plenas férias. Até porque, para os grandes jornais, cultura é pouco mais que um detalhe na pauta. Mas valeu a aventura por amor ao jornalismo e à literatura. Interessante notar que no momento em que Vilma e eu rumávamos de ônibus numa excursão pelo Sul da Espanha, Saramago e Pilar, sua mulher e tradutora, deixavam Madri num voo para Lisboa, onde seriam merecidamente recebidos
com pompa e circunstância.
Texto de Jorge Fernando dos Santos

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Luiz Felipe Pondé: "Quem gosta das putas?"

"A HIPOCRISIA é a homenagem que o vício presta à virtude", dizia o moralista francês La Rochefoucauld. "Moralista", em filosofia, quer dizer anatomista da alma e não alguém que cospe regras em nossa cara.Hoje a hipocrisia é moeda corrente de grande parte da chamada crítica social. Neste caso, o vício não se vê como vício (o vício aqui é a má-fé em si), mas como consciência social, termo que descreve uma das maiores falácias chiques de nossa época. Quer ver?Peguemos o caso do filme baseado em "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água", de Jorge Amado, e o debate ao redor da felicidade como "vida safada" ou realização livre do desejo que critica e expõe a hipocrisia pequeno-burguesa.
O personagem era um homem com vida medíocre e "respeitável". É comum criticar a chamada pequena burguesia por sua hipocrisia miserável: emprego medíocre, poupança medíocre, amor medíocre, cotidiano medíocre, em que todos são lobos desdentados, devorando uns aos outros num ritual de opressão mútua. Quincas tem uma vida sem graça e uma mulher típica da pequena burguesia (infeliz, sem sexo, uma megera).De repente esse homem "se revolta" e mergulha naquilo que muitos intelectuais de então (numa mistura de marxismo de folhetim e Sade popular) veem como crítica social: sua recusa da hipocrisia pequeno-burguesa se materializará num cotidiano de cachaça, mulheres, prostitutas, jogo, enfim, vida mundana.Suspeito que, se a crítica social, conhecida como uma crítica fincada no tripé "gênero (feminismo e movimento gay) classe e raça", tivesse surgido há 2.500 anos, não teríamos Aristóteles, santo Agostinho, Shakespeare, Dostoiévski ou Kafka (para citar apenas alguns gigantes que teriam preconceitos de gênero, classe e raça).Provavelmente, seriam todos monótonos, sem originalidade, castrados, chatos e medrosos, como todo mundo que teme essa turba da crítica social da nova esquerda, uma das piores farsas que já se arrastou pela Terra.Por que estou dizendo isso? Porque, apesar de dizer por aí que personagens assim "são o máximo" porque caem na "noite de pobre", Quincas não se salvaria da crítica social hipócrita que domina parte do cenário "culto" contemporâneo.
Afora sua correta farra de pobre, ele é machista (faz uso das mulheres como objeto comprando as "coitadinhas" das putas -acredito que a maioria das putas escolhe essa vida porque gosta da coisa mesmo), "opressor" de sua "esposa vítima" para quem nega a "justa" satisfação de suas necessidades de mulher (ela seria uma vítima do desinteresse de um marido incapaz de amá-la tal como se "exige" dos casais) e alienado, sem questionar a "sociedade injusta que o gerou".
Hoje em dia, o ideal estético da crítica social seria um Quincas castrado.Outro erro é assumir a hipocrisia como traço "exclusivo" da pequena burguesia. A pequena burguesia tem um modo específico de hipocrisia. Mas maior má-fé é supor que criticar a hipocrisia da pequena burguesia seja superar a hipocrisia porque esta seria um fenômeno "de classe". Toda a "dialética da luta de classes" se resume na dinâmica que reúne a inveja (dos pobres) e o egoísmo (dos ricos) num rito ancestral de sangue.A hipocrisia é um elemento intrínseco da dinâmica civilizada (como reconhecem os moralistas franceses, sem por isso fazer o elogio dela). Negar isso (o caráter universal da hipocrisia) é fundar um novo tipo de má-fé, mais falsa ainda, porque se traveste de pureza d'alma.A necessidade da hipocrisia como elemento da vida civilizada se dá porque os seres humanos não se suportam plenamente. E não há como ser diferente.
A "verdade" pode ser mortal na vida social. Alguns sobrevivem graças aos seus vícios, outros perecem graças às suas virtudes. A força desse personagem não está em seu caráter crítico da pequena burguesia, mas sim em seus vícios (mulheres, bebida, jogos), sem perdão. Fazer dele um herói da "virtude política" seria como lhe dar um enterro "respeitável", pequeno-burguês, em vez de levá-lo, mesmo que morto, ao bordel, para "ver" suas deliciosas putas.
Texto de Luiz Felipe Pondé

Discurso de Saramago ao receber o Nobel


O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa.

Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira".

Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.

Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo.

Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos.

Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.

Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.

Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, não dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver.

A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e de outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia...

Minha mãe apóia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquiteturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de África, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encontraria?"
Texto de José Saramago

Carlos Chagas: "Faltam respostas para os grandes temas"

Os candidatos presidenciais continuam devendo. Qual a estratégia de José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva, por exemplo, para enfrentar a multiplicação do narcotráfico e a crescente utilização das drogas, agora mais estendidas às camadas menos favorecidas? Não vale ficar criticando ou defendendo a Bolívia e seu presidente Evo Morales.
Seria preciso que tucanos, companheiros e verdes dispusessem de um roteiro de ação, a ser desenvolvido nos primeiros dias do governo de quem vencer. Ação policial implacável? Campanha educativa imediata? Centralização do combate aos bandidos no plano federal? Colaboração efetiva e financeira com estados e municípios? Responsabilização maior dos usuários, inclusive penal? Investimentos em centros de recuperação espalhado por todo o país? Cooperação ampliada com organismos internacionais e em especial americanos e europeus?
Essas e quantas outras políticas de atuação imediata precisavam estar sendo conhecidas e debatidas pelos candidatos, em se tratando o narcotráfico de um dos maiores males da atualidade.
Mas o que dizer da violência, isto é, da segurança pública? Anunciar a criação de um ministério específico para enfrentar a questão é pouco, na medida em que faltam informações sobre sua estrutura e seus objetivos.
Como e em que termos promover a reforma tributária e a reforma política? Manter a reeleição e os mandatos presidenciais em quatro anos ou acabar com ela e estender os períodos para cinco ou seis anos? Como viabilizar a transformação do pré-sal de sonho em realidade? Ampliar ou reduzir o projeto do etanol, enquadrando ou liberando a atividade dos usineiros? Manter as facilidades concedidas a centenas de igrejas empenhadas em aumentar o volume de doações recebidas, sem pensar na tributação válida para empresas comerciais?
Não tem fim o monte de interrogações que os pretendentes ao palácio do Planalto estão devendo ao eleitorado, em meio aos foguetes das festas de São João.
Permanece ou sai de cena
No caso da vitória de José Serra não se duvida de que quinze minutos depois de conhecido o resultado das urnas o presidente Lula assumirá o comando da oposição. Estará posicionado para concorrer às eleições de 2014 e ninguém tirará dele a condição de fiscal maior do governo tucano.
No reverso da medalha, porém, qual será a posição do primeiro-companheiro? Terá escrúpulos de funcionar como pólo aglutinador das iniciativas maiores do governo Dilma Rousseff? E a nova presidente, como reagirá diante da presença do criador? Manterá parte do atual ministério, mesmo atenta à lição secular de que não se deve nomear quem não se pode demitir? Optará pela formação de uma equipe pretensamente dela, com atenção especial para a goela aberta do PMDB?
Parece fora de questão o aproveitamento do já então ex-presidente Lula em algum organismo internacional. Primeiro porque não quer, depois pela falta de condições, em função de nossa postura diante do Irã. Aquilo que Fernando Henrique Cardoso não conseguiu por falta de apoio interno, Luiz Inácio da Silva também não conseguirá, por ausência de respaldo externo. Condenado a permanecer por aqui, encontrará forças para permanecer entre o apartamento de São Bernardo e o do Guarujá?
Texto de Carlos Chagas