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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

John Ford: primeiro e único

Meu nome é John Ford, eu faço westerns
Mostra reúne a obra do cineasta que recriou o caubói e o faroeste



RESUMO Idiossincrasias, temperamento difícil, economia de meios e aversão a concessões à indústria fizeram de John Ford um nome central no cinema do século 20. Vistos em retrospectiva em São Paulo, Rio e Brasília, seus filmes são um manifesto pela ordem coletiva, negando o tradicional individualismo da figura do caubói.

PEDRO BUTCHER
ilustração RODRIGO ANDRADE


EM 1961, JOHN FORD recebeu em seu escritório, nos estúdios da Paramount, a visita de um moleque de 15 anos que sonhava em ser cineasta. O diretor estava com 67 anos e preparava aquele que seria um de seus melhores filmes, "O Homem que Matou o Facínora". A secretária avisou: "Ele vai recebê-lo, mas só por um minuto". 
O adolescente entrou na sala, decorada com pinturas que representavam o Velho Oeste.
"Então você quer fazer filmes?", perguntou Ford.
"Sim, senhor. Quero ser diretor de cinema."
"Certo. Está vendo essas pinturas? Observe a primeira e me diga o que vê."
"Vejo um índio e um cavalo."
"Não, não, não. Cadê o horizonte? Você é capaz de me dizer onde está o horizonte?"
O moleque apontou. 
"Não aponte", disse Ford. "Olhe para a pintura como um todo e me diga onde está o horizonte."
"Embaixo."
"Bom. Agora observe a próxima. Cadê o horizonte?"
"Em cima."
"Ok. Agora vem cá: quando você chegar à conclusão de que pôr o horizonte na parte inferior ou na parte superior pode ser melhor do que no meio do quadro, então talvez, algum dia, você possa se tornar um bom diretor."

MITOLOGIA Quem conta a história, anos depois, é o próprio moleque, chamado Steven Spielberg, no documentário "Directed by John Ford", de Peter Bogdanovich, combinação de reflexão crítica sobre os filmes de Ford e muitos casos narrados por atores e colaboradores do diretor de "Rastros de Ódio". As boas histórias são muitas, pois, em torno de seu temperamento difícil, criou-se uma mitologia tão forte quanto sua obra. 
O relato de Spielberg, contudo, vai além da anedota, pois toca num ponto fundamental: o gênio artístico do cineasta e seu apurado senso estético. 
Não que Ford (1894-1973) tenha sido injustiçado. Ao contrário de Orson Welles e Alfred Hitchcock, que jamais ganharam o Oscar de melhor diretor, Ford levou quatro (até hoje é o recordista na categoria, com "O Delator", de 1935; "As Vinhas da Ira", de 1940; "Como Era Verde Meu Vale", de 1941; e "Depois do Vendaval", de 1952). Durante boa parte de sua vasta carreira, que durou de 1917 a 1970, foi reconhecido como o maior cineasta americano. 
Na avaliação do crítico americano Tag Gallagher, porém, tal reconhecimento, mesmo quando cravado de elogios, se deu por linhas tortas. "Nos filmes de Ford, a eloquência de suas composições tornava o diálogo virtualmente desnecessário, não por falta de riqueza do roteiro, mas porque a estrutura literária era apenas um aspecto da complexa inteligência formal de seu cinema", escreve ele na monumental biografia "John Ford - The Man and His Films", que o próprio autor disponibilizou na internet, em home.sprynet.com/~tag/tag/. "É essa imensa inteligência que muitos críticos ignoraram." 

SUTILEZAS "Os apologistas de Ford louvam seus instintos e emoções como se ele fosse artista inconscientemente, sem intenção", prossegue Gallagher. "Seus detratores depreciam seu sentimentalismo, o tacham de racista, militarista e reacionário, ignorando as sutilezas entre os extremos, os discursos de níveis duplos, o apelo obsessivo de sua obra pela tolerância."
Gallagher reconhece que parte da culpa por essa incompreensão vem do próprio Ford, "que se escondia sob máscaras". A atitude seca e até agressiva, repudiando o rótulo de "artista", foi uma estratégia de sobrevivência na máquina trituradora de Hollywood, que acabou moldando a figura pública de Ford e, aos poucos, ganhou contornos folclóricos. 
Nos trechos de uma entrevista reproduzida no documentário, Bogdanovich aproveita essa faceta para extrair momentos verdadeiramente cômicos: 

Bogdanovich - (fora de quadro): "O senhor fez 'Three Bad Men' (1926), um 'western' de grande escala, com uma sequência elaborada da chegada dos colonos. Como o senhor a filmou?"
Ford- "Com uma câmera".

Sua visão do Oeste tem se tornado progressivamente triste e melancólica ao longo dos anos. O senhor se deu conta dessa mudança?
Não sei do que está falando.

Que elemento particular do Oeste o atraiu desde o começo de sua carreira?
Não saberia dizer. 

O senhor concordaria que em "Sangue de Herói" (1948) a tradição do Exército tem mais importância que o indivíduo?
Corta!

ESTETA Tal atitude não diminui as qualidades de Ford como esteta. Trabalhando no coração da indústria, quase sempre sem assinar os roteiros e a montagem final de seus filmes, Ford construiu uma obra absolutamente pessoal e singular. Poucos foram tão perfeitos ao combinar conteúdo e forma. 
"Ford foi um dos mestres da unidade orgânica, princípio em que os elementos estéticos da linguagem cinematográfica se encontram em diálogo uns com os outros", diz João Luiz Vieira, professor na Universidade Federal Fluminense. "É importante perceber como determinado enquadramento, com sua composição, iluminação, distância entre a câmera e o assunto, angulação e mobilidade, constrói sentidos em conjunto com a movimentação e expressão dos atores, figurino, cenografia (natural ou em estúdio) etc.".
Após um mergulho na obra de Ford, o cineasta Bertrand Tavernier escreveu o texto "La Chevauchée de Sganarelle" [A Cavalgada de Sganarelle], publicado na revista "Présence du Cinéma" em 1965 e disponível em francês na internet. "As grandes retrospectivas organizadas pela Cinemateca Francesa são duras provas para os cineastas", diz, citando os filmes de Vincente Minnelli e George Cukor como exemplos dos que não sobrevivem tão bem quando vistos em conjunto. 

OPORTUNIDADE Este, contudo, não seria o caso de Ford -e o ilustríssimo espectador brasileiro pode tirar a prova na retrospectiva dedicada ao cineasta que está em cartaz no CCBB de São Paulo até 17 de outubro e depois segue para Brasília (28/9 a 17/10) e Rio de Janeiro (12/10 a 7/11). É uma oportunidade raríssima: são 36 filmes, todos em película, e mais o fundamental documentário de Peter Bogdanovich ("Directed by John Ford", 1971/2006). 
O catálogo da mostra traz 18 textos essenciais sobre Ford, quase todos inéditos no Brasil (três assinados por Tag Gallagher, e análises de Serge Daney, João Bénard da Costa, Jacques Rancière, Andrew Sarris, Jean Mitry, Lindsay Anderson. Há também um curso, dividido em quatro módulos, ministrado por Ismail Xavier, da USP, e João Luiz Vieira, entre outros.
Tavernier, em seu texto, aponta com precisão os elementos que costuram os filmes e tornam a obra de John Ford grandiosa, sem fazer vista grossa a seus numerosos erros -entre os quais inclui o consagrado "O Delator", que lhe rendeu o primeiro Oscar- e apontando a dificuldade interna criada pelas próprias mutações ao longo da carreira ("nosso homem é um dos mais rebeldes às exegeses"). 

VIAGENS E PEREGRINAÇÕES Enquanto o "western" clássico apresenta uma visão individualista do mundo, marcada por uma forte ideia de violência física ou interior ("um caubói e seu desejo de vingança; um fora da lei que tenta escapar de seu passado; um atirador e sua vontade de matar"), em Ford "a linha de força raramente é constituída em torno de um sentimento individual ou de um motivador negativo, destruidor", diz Tavernier. As viagens e peregrinações predominam. 
"Os filmes são odisseias de caravanas de emigrantes, patrulhas de um grupo de cavaleiros, travessias do deserto por uma diligência, ou bandidos procurados pela polícia. Ford só se interessa por problemas pessoais na medida em que se interceptam aos da comunidade. Seus heróis só reagem em função do meio em que vivem e não impõem questões morais. Sua ética só existe em relação a um sentimento de ordem coletivo."
"Nos filmes de Ford, são evidentes os conflitos entre o indivíduo e a civilização", afirma Gallagher num brilhante ensaio visual produzido para a edição especial em DVD de "No Tempo das Diligências" ("Stagecoach", 1939), da coleção Criterion. "Enquanto em tantos outros cineastas os personagens são desprovidos de qualquer coisa que os pré-defina, em Ford os personagens vivem e respiram sua cultura, suas religiões, raças, classes." Em seus filmes, o quadro está sempre carregado de detalhes riquíssimos. Cada personagem tem um passado.

LOCAÇÃO Ford foi um pioneiro nas filmagens em locação. São famosos seus planos abertos, mostrando homens a cavalo em pequena escala, cujo movimento forma linhas diagonais ou espirais no interior de uma vasta paisagem. Em "No Tempo das Diligências", ele filmou pela primeira vez na belíssima região de Monument Valley, na fronteira dos Estados de Arizona e Utah, paisagem que virou marca registrada de seus filmes. 
"Legião Invencível" ("She Wore a Yellow Ribbon", 1949), segunda parte da "trilogia da cavalaria", também traz um momento visual marcante: comandada por John Wayne, a cavalaria segue pela paisagem desértica enquanto uma tempestade de raios avança por trás. Consta que Ford ordenou prosseguir com as filmagens mesmo após o início da tempestade, contra a vontade do fotógrafo e de parte do elenco.
Por causa desta e de outras imagens, estabeleceu-se mais um mito em torno do cineasta: a famosa "Ford's luck", a "sorte de Ford", embora a atriz Maureen O'Hara diminua sua importância ao revelar que o lindo efeito do véu que voa ao vento na cena do casamento de "Como Era Verde Meu Vale" ("How Green Was My Valley", 1941) é obra de três ventiladores. 
Numa complexa sequência que só corrobora seu senso de composição, vemos a noiva e o noivo saírem da igreja em direção à carruagem. A beleza da cena não põe a perder o senso de sutileza: a alegria da festa contrasta com a melancolia da noiva, apaixonada por outro homem (o pastor da cidade). Ela só aceitou se casar com o filho do dono da mina de carvão onde trabalham o pai e os irmãos por força das convenções sociais. 
A sequência termina com a imagem do pastor no alto de uma colina, observando a partida dos noivos ao longe. Robert Parrish, assistente de Ford no filme, conta que, logo depois de rodar o plano, perguntou se o diretor não faria um close do personagem -a escolha mais óbvia para os padrões da narrativa clássica americana. Ford reagiu com repúdio: 
"Não, de jeito nenhum, eles podem acabar usando!" 
"Eles" eram os produtores. 

NA CABEÇA Assim era Ford: filmava só o necessário para a compreensão da cena -nem mais, nem menos (algo particularmente exemplar na era digital, em que se filma absolutamente tudo, o que gerou até um protesto de Fernando Meirelles). Tal método é ainda mais impressionante quando se conhece a aversão de Ford a storyboards, ou seja, o planejamento visual do filme em desenhos semelhantes a histórias em quadrinhos, método que Hitchcock, por exemplo, adorava. 
A economia de planos era, sobretudo, uma forma de contornar a interferência dos estúdios. "Se você filmar muito, o 'comitê' assume o comando. Eles começam a tirar cenas, acrescentar outras, misturar as coisas. Isso eles não conseguem fazer com meus filmes. Corto na câmera e é isso aí. Não sobra muito material no chão quando termino um trabalho."
Sua repulsa aos executivos de Hollywood, aliás, é tema de várias histórias clássicas envolvendo Ford. Consta que ele teria contratado seguranças para manter longe dos sets o poderoso Darryl F. Zanuck, executivo da Fox conhecido por suas intervenções nos filmes. Em outra ocasião, reuniu a equipe em torno de um executivo infiltrado e disse em alto e bom som: "Este é um produtor associado. Podem dar uma boa olhada nele, porque daqui para a frente vocês não vão vê-lo de novo".
Reunir a equipe para constranger os atores era um dos esportes favoritos do cineasta, que preferia trabalhar sob tensão. John Wayne, por incrível que pareça, foi um alvo favorito de suas chacotas. 
A personalidade difícil e exigente, no entanto, não impediu que muitos atores reconhecessem que seus melhores desempenhos foram alcançados sob a direção de Ford. A "trupe" do cineasta entendia que, sob a carapaça da dureza, havia enorme sensibilidade. 

ÉTICA No mesmo ensaio visual sobre "No Tempo das Diligências", Tag Gallagher analisa uma sequência aparentemente simples, mas exemplar da ética rigorosa de Ford (sempre traduzida em estética, ou seja, escolhas de enquadramentos e posicionamento de câmera). "No Tempo das Diligências" conta a história de um grupo heterogêneo que atravessa o deserto na mesma diligência. Entre eles está Dallas (Claire Trevor), prostituta expulsa da cidade em que vivia, e Lucy (Louise Platt), que viaja grávida para reencontrar o marido. 
Em uma pausa na viagem, Ringo, o personagem de John Wayne, convida Dallas para sentar-se à mesa de jantar, o que choca a todos e deixa Lucy especialmente incomodada. O espectador entende tudo o que se passa apenas pela troca de olhares. Gallagher cita um texto do crítico Nick Browne que acusa Ford de ter feito uma cena moralista. Logo em seguida, destrói essa versão: analisando a cena plano a plano, demonstra como, pelo posicionamento da câmera e pela escolha da ordem das imagens, Ford evita julgar os personagens. 
Depois de mostrar o olhar reprovador de Lucy do ponto de vista de Dallas, o cineasta não corta para o que seria a continuação mais óbvia da cena: o ponto de vista de Lucy. Prefere situar a câmera do outro lado da mesa. É uma estratégia, na verdade, simples: nunca mostrar dois pontos de vistas seguidos: "Ford não quer submeter o espectador à manipulação da câmera. O que ele busca é uma empatia à distância". As conclusões se dão na cabeça de cada um. 

MURNAU No fundo, John Ford era um romântico. Filho de irlandeses, carregava consigo um fascínio pelo país natal e horror às histórias de injustiça e pobreza que marcaram a infância dos pais. Um de seus filmes favoritos era uma história de amor: "Aurora" (1927), de F.W. Murnau. 
Para cada história em torno da dureza de Ford há também uma história de ternura e de justiça. Quando Hollywood viveu a sombra do macarthismo e os setores conservadores da indústria promoveram uma intensa perseguição aos profissionais suspeitos de serem filiados ao Partido Comunista, Cecil B. De Mille, um dos diretores mais influentes da época, liderou um movimento para que Sindicato dos Diretores destituísse Joseph L. Mankiewicz, seu presidente. 
Numa reunião do sindicato, Ford fez um pronunciamento célebre: "Meu nome é John Ford. Eu faço 'westerns'. Não acredito que exista alguém nessa sala que saiba mais o que o público americano quer ver do que Cecil B. De Mille. Mas eu não gosto do senhor, não gosto do que você representa nem do que o senhor tem dito aqui, nesta noite".
A mais bela das histórias românticas envolvendo Ford encerra o documentário de Peter Bogdanovich e revela sua paixão por Katharine Hepburn, com quem o cineasta teria tido um breve caso depois de "Maria Stuart" ("Mary of Scotland", 1936). 
Já doente e perto de morrer, Ford recebeu a visita de Katharine. Quando os dois ficam sozinhos no quarto dele, Ford diz: "Eu te amo" - e ela responde: "Eu sei". 
Peter Bogdanovich sugere que a sucessão de obras-primas de Ford entre 1939 e 1941 ("No Tempo das Diligências", "A Mocidade de Lincoln", "As Vinhas da Ira" e "Como Era Verde Meu Vale") teria sido feita sob o feitiço dessa paixão. Os brutos, afinal, também amam. 

"Trabalhando no coração da indústria, quase sempre sem assinar os roteiros e a montagem final de seus filmes, Ford construiu uma obra absolutamente pessoal e singular. Poucos foram tão perfeitos ao combinar conteúdo e forma"

'A economia de planos era, sobretudo, uma forma de contornar a interferência dos estúdios. "Se você filmar muito, o 'comitê' assume o comando. Eles começam a tirar cenas, acrescentar outras, misturar as coisas. Isso eles não conseguem fazer com meus filmes. Corto na câmera e é isso aí"'

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quem avisa, amigo é

JANIO DE FREITAS 

Além do último sinal

A entrada em cena de forças extrapolíticas reproduz passo que pode levar situações tensas a fugir do controle


UM AVISO de perigo, na via política, foi ultrapassado.
A entrada em cena de forças extrapolíticas, motivadas pelo confronto entre Lula e os meios de comunicação com maior presença, reproduz o mais conhecido dos passos que levam situações tensas a enveredar por processos que fogem ao controle com facilidade. E, se isso ocorre, põem em risco a integridade institucional -o próprio regime.
Se os meios de comunicação têm extrapolado ou não, no tratamento aos casos do sigilo violado na Receita Federal e das irregularidades originadas no Gabinete Civil da Presidência, até agora não houve indício algum da finalidade golpista acusada por governistas.
O que pode ser apontado são propósitos eleitorais. Mas os meios de comunicação brasileiros nunca deixaram de ser parte ativa nos esforços de conduzir o eleitorado. Sua origem e sua tradição são de ligações políticas, como agentes de facções ou partidos. Só em meado do século passado dá-se a primeira e derrotada tentativa, no "Jornal do Brasil", de prática desconectada de segmentos políticos.
Na atual campanha, os meios de comunicação com maior presença são passíveis de acusações como desequilíbrio no ânimo em relação a este ou àquele candidato; de parcialidade no interesse em eventos de um ou de outro, e, no noticiário das irregularidades, de precipitações e erros que são os mesmos cometidos na cobertura de todos os escândalos.
À parte atingida cabe reagir na medida do possível, que, em geral, não é muito. E às vezes é quase nada, porque a própria reação está sujeita ao que é acusado no principal. Mas assim é a etapa em que a sociedade brasileira ainda está.
Daí a golpismo, na atualidade, a diferença é total. Idêntica à diferença entre prática primária da democracia e o golpismo com que o país conviveu por décadas, até o maior dos golpes.
No outro lado, nenhum fato sustenta a ameaça à democracia atribuída a palavras ou atos de Lula. As reações ao que considera insultuoso, ou injusto, ou inverdadeiro são à sua maneira: com destempero deplorável, nas palavras e na teatralidade da exaltação. Sem consideração alguma, até muito menos do que pelos adversários, pela própria condição de presidente da República. A faixa presidencial ainda não se distinguiu, para Lula, da camisa do Sindicato dos Metalúrgicos.
Nenhum espetáculo e nenhum ato presidencial pode ser apontado, com seriedade, como ameaça à democracia. Nem o mais acusado deles, a alegada ameaça à liberdade de imprensa. A proposta petista de criação do Conselho Nacional de Jornalismo, ou algo assim, vale mais uma discussão do que poderia ser, a serviço de todas as partes, do que qualquer das acusações trocadas.
Conselho de Jornalismo não é embaixada do inferno, não é chavismo, não é ditadura, necessariamente. São muitos os países "civilizados" e democráticos em que tal conselho existe.
Na França, por exemplo, foi criado há muito tempo, prestou muitos serviços e ninguém pensa em dissolvê-lo, assim como o da TV. A Inglaterra, os países nórdicos e outros têm as suas formas de conselho. Discuti-lo no Brasil seria difícil, mas não ameaçaria a democracia ou a liberdade de imprensa.
A esse conjunto de desproporções e deformações vêm somar-se três iniciativas. Sindicatos e jornalistas resolvem fazer uma manifestação pública contra os meios de comunicação. O que pode vir daí senão o acirramento de um lado e de outro? A dez dias das eleições, nem alguns trocados eleitorais essa manifestação localizada pode obter. Sua aparência é só a de um ato de indignação.
A pouco mais de uma semana das eleições, professores, advogados, escritores, e outros, fazem manifestação pública e lançam um manifesto "contra a marcha para o autoritarismo". Haverá mesmo tal marcha, pelo fato de que Lula, nos estertores do seu mandato, rebaixa a função presidencial à de marqueteiro e cabo eleitoral? Se não está aí, o que indicaria que a prevista eleição de Dilma Rousseff é a marcha para o autoritarismo? É óbvio que o papel assumido por Lula macula a disputa.
Mas o que mais suscita reação, parece claro, não é o papel em si, que a lei nem cuidou de restringir: é que Lula o assume do alto de uma popularidade devastadora, que cai sobre os adversários. Nem por isso, no entanto, até agora sinalizadora de ameaças à democracia.
Por fim, um convite. O Clube Militar convida para um "painel", às 15h de hoje em sua sede no Rio, com dois jornalistas de oposição a Lula e ao governo. Sobre nada menos do que "A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão". Tivemos longo aprendizado do interesse militar por ameaças à democracia e pelas restrições à liberdade de expressão. O título do "painel" não esclarece o sentido atual dado às expressões, mas tanto faz. Sua realização é sugestiva por si só.
As três iniciativas, à parte seus objetivos, são formas fermentadas das tensões decorrentes do processo eleitoral e das feições que tomou. Mas correm o risco de estimular projeções para depois do resultado eleitoral, e sobre ele. E, a depender do resultado, o risco de transpor o início do futuro governo. Como já aconteceu tantas vezes, nenhuma para resultar em algo bom.
FOLHA DE S.PAULO (23/09/2010)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FHC e Lula no Consenso de Washington


Os “Diálogos Interamericanos” do Rio em 1983, o “Consenso de Washington” em 1989, lá na Matriz. Muita gente esteve nos dois (Roberto Marinho, FHC, Roberto Civita), Lula só no da capital americana.

Antonio Santos Aquino:

“Hélio, sempre digo com convicção: Tudo o que escreves deve ser lido e refletido. Quanto a FHC ter “desfilado” no Consenso de Washington, corretissímo. O que esqueces de dizer, é que Luis Inácio da Silva (ainda não tinha incorporado Lula), estava lá na mesma hora e local, no IMF METING MEMBERES IN BRASIL: DIALOGO INTERAMERICANO. Juntamente com David Rockefeler (IMF),George Sultz (US Estate Secretary), Ronadld Regan (US Presidente), Donald Regan (Treasury Secretary), Jim Carter (IMF Councyl), Paul Voucker/James Backer (IMF), Jeffrey Sacchs, George B. Bush (Central Intelligency Agency). BRASIL: Batista Figueiredo, Delfim Neto (Braziliam Planning Ministery), Fernando Henrique Cardoso (US-Brazilian Embassy), Ernane Galveas (Finance Ministery), Pedro S. Malan (Brazilian economist), Luis Inácio da Silva (AFLCIO – member and Brasilian opposition deputy), Roberto Civita and Roberto Marinho (Brasilian Media), Cristina Pitanguy, Celso Laffer, Jaime Lerner (Curitiba Admnistration), Marco Maciel, Langone, Ricardo Semeler, José Goldenberg, Leopoldo Collor. MÉXICO: Herrera. CHILE: Pinochet. ARGENTINE: Menem, Videla, Viola.
Fica faltando muita gente. Isso não é segredo, muita gente tem esse documento; inclusive gente do PT. Ninguém desmentiu. Foi em 1983, fazem portanto 27 anos. LULA NÃO É ESTA CRIANÇA INGÊNUA SOBREVIVENTE DA SÊCA, QUE TODO MUNDO APREGOA. LULA COMEÇOU CEDO. A fazer o que, e a serviço de quem, ninguém sabe. Ou sabe? PELO MENOS DEVERIA CRIAR UMA CPI PARA VER SE HOUVE CRIME NAS PRIVATIZAÇÕES. Nada fez; se houve crime, ele Lula é co-autor.”


Comentário de Helio Fernandes: 

Foram dois encontros, Aquino. O primeiro, aqui no Rio (na Filial), em 1983, organizado pelo FMI, através de seu protegido FHC (também patrocinado pela Fundação Ford) que acabava de assumir a vaga de Montoro no Senado. Este se elegera governador, deixava 4 anos intactos para o “Sociólogo da parceria”).
Foi sobre este que escrevi. Chamado de “Diálogos Interamericanos”, e determinado pelo FMI, participaram apenas economistas do próprio FMI, Banco Mundial, BID e de alguns países latinos. Mas é natural, apareceram “não economistas”, como Roberto Marinho, Roberto Civita, Marco Maciel e outros que detalharei a seguir.

O segundo , em 1989, lá mesmo na capital dos EUA, que passou a ser conhecido como “Consenso de Washington”. Washington era a capital e CONSENSO, o contrário de DIÁLOGO. A mudança do nome do encontro era obrigatória .DIÁLOGO pressupõe  debate, controvérsia, diferença de idéias e convicções.CONSENSO é a unanimidade (no caso, antecipada) a respeito do que se trataria e tratou mesmo. Só que com personagens mais importantes, com mais autoridade e objetivos.
Dizes que foi em 1983, mas na verdade é uma tremenda confusão, entre esse 1983 e o seguinte, em 1989. Na realidade, é uma espantosa “salada” de nomes e de personalidades, que JAMAIS vieram ao Brasil. Em 1983, é evidente que, como citas, seria fato de REPERCUSSÃO INTERNACIONAL, a presença aqui do presidente Reagan, Jimmy Carter, Paulo Volcker, David Rockefeller (o mais importante financeiramente), Bush (o grandão da CIA, depois presidente), gostando ou não gostando, eram personalidades.
Não escrevi sobre 1989, e esses naturalmente estavam presentes, o-b-r-i-g-a-t-o-r-i-a-m-e-n-t-e, junto com brasileiros que participaram dos DIÁLOGOS, no Rio.
Sobre 1983, Lula não estava presente, era um sindicalista desconhecido. Também não era deputado em 1983. Foi candidato a governador de São Paulo em 1982, tirou penúltimo lugar, foi se eleger deputado em 1986. Na Constituinte.  Sem qualquer importância, na verdade deixou apenas uma frase primária, que repercutiu contra ele: “O Congresso tem 300 PICARETAS”.
Pelos nomes que colocas em destaque, deves estar falando mesmo sobre 1989 e não 1983. Excluindo os brasileiros, (muitos estiveram em 1983 e 1989, e estariam em quantos outros se realizassem), alguns nomes não poderiam ter vindo em 1983 ao Rio e não vieram mesmo.
Como escrevi intensamente sobre os DIÁLOGOS, e sei pouco sobre o já denominado CONSENSO, tratemos do encontro do Rio. Seguindo a tua lista, e começando por Pinochet, o ditador de plantão no Chile, que em 1983 não podia sair do Chile.
Imposto pelos Eua, deposto muitos anos depois pela revolta do povo, liderado por lutadores torturados, marginalizados, revoltados, muitos representando os milhares que foram AS-S-A-S-S-I-N-A-D-O-S por Pinochet. Ainda não havia sido feito o extraordinário filme do cineasta Costa Gavras, contando o golpe, a destruição do palácio presidencial e a morte de Allende, que não se entregou.
(De passagem e para constatar a isenção, a insuspeição e a profissionalização de Costa Gavras, a confirmação. Ele fez três sobre regimes ditatoriais, sempreCONDENANDO-OS.  O primeiro foi “Confissão”, libelo sobre a União Soviética. Depois esse “Desaparecido”, revelando toda a participação dos EUA. E o terceiro, “Estado de Sítio”, a respeito da ditadura do Brasil).
O selvagem ditador do Chile, tinha o prazer enorme de passar madrugadas em subterrâneos de tortura, dizem que participava, não se limitava a assistir.
Como só tratei de 1983 (e referência aleatória, alguma coisa de 1989), não coloquei os cruéis e selvagens generais torturadores, Videla e Viola. Em 1983 a ditadura da Argentina estava sendo derrubada, em 1989 não seriam bem recebidos, os EUA estavam na fase de recuperação.
No Rio, na primeira reunião dos “Diálogos”, alguém do FMI, que dominava o “Encontro”, sugeriu o nome de FHC para presidente, gargalhada geral. Mas aconteceria 11 anos depois, 1994, o que vem provar a minha teoria de que quase tudo tem como base o DESTINO.
(Ou então o FMI era poderoso mesmo. Deve ser. Em 1955, viajando por quase 40 dias, como presidente eleito e ainda não empossado, Juscelino ouviu de Salazar: “Presidente, se quiser governar seu mandato inteiro, não negocie com o FMI nem faça reforma cambial”. Veio gente, (estávamos nos jardins do palácio presidencial), Juscelino não pôde pedir explicações, depois lembrei a ele: “Presidente, Salazar é ditador, mas foi o mais importante professor de Finanças da Universidade de Coimbra”. (Mas JK continuou intrigado).
Muito do que publiquei era de informação (ou até “informe”, como dizem os militares), não tive acesso ao documento que você agora transcreve, traz entre parênteses e em inglês mesmo, a identificação com a qual se apresentavam nessa reunião tão excêntrica, diversa, variada, com gente tão poderosa.
Roberto Marinho e Roberto Civita, (que eu não revelei como presentes ao encontro) eram participantes natos, por direito de conquista e de r-e-c-i-p -r-o-c-i-d-a-d-e, palavras exuberantes, fascinantes, delinquentes.
Civita volta às origens do enriquecimento e a libertação do trânsito entre as potências . Italiano, expulso da Itália, foi para a Argentina, de onde teve que fugir para não ser preso, “bateu” nos EUA, onde se capitalizou para ser o “pombo correio” dos interesses dos EUA no Brasil. Tinha que estar nesse Consenso, para ser visto, prestar contas, receber os cumprimentos “pelo belo trabalho feito no Brasil em apenas 15 anos”.
Roberto Marinho compareceu em 1983 e 1989, com o indispensável “ghost-writer” (de som e de texto), não sabia escrever e não falava uma palavra do que se conversava no Consenso, perdão, de uma usava e abusava: “OK”. Essa ele sabia de “cor e salteado”, por intuição e interesse, tinha certeza de que servia para tudo.
Era a primeira vez que ia ao EUA depois de enganar o pessoal do Time-Life e inaugurar sua extraordinária potência “jornalística”. A princípio ficou meio constrangido. Mas os americandos fizeram tanta festa a ele, que compreendeu logo: estava servindo melhor aos interesses homenageados no “Consenso” do que o pessoal do Time-Life executaria.
A TV Globo começou em 1965, estava aqui em 1983. E lá em 1989. Voltou satisfeitíssimo, provocando raiva e ressentimento do próprio Civita, que se julgava “mais da casa do que Marinho”.
Mas gostou de receber os cumprimentos “pelo belo trabalho feito no Brasil em apenas 18 anos”.
***
PS – Aquino: “Lula começou cedo a fazer e a lucrar, de quem, ninguém sabe. Ou sabe? (Isso em 1989, Lula já presidenciável, esteve na Matriz).
PS2 – “Pelo menos deveria criar uma CPI para investigar as privatizações, para ver se houve crime. Nada fez. Se houve crime, Lula é co-autor”. (Concordo, já disse várias vezes).
PS3 – Nem preciso dizer, Aquino, que CONCORDO inteiramente com muito. Desde o governo do próprio FHC, vinha pedindo investigação sobre essasPRIVATIZAÇÕES-DOAÇÕES, e o enriquecimento de TODOS, MAS TODOS MESMO que integraram a infame COMISSÃO DE DESESTATIZAÇÃO.
PS4 – Cheguei a escrever que a ENTREGA DE UMA PARTE ENORME DO NOSSO PATRIMÔNIO, deveria levar toda essa Comissão, à cadeia, por crime hediondo.
PS5 – Não parei um momento. E assim que Lula tomou posse, comecei a insistir, jornalísticamente, para que ANULASSE TUDO. Não anulou e seu então poderosoDONO do Ministério da Imprensa, (um japonesinho cujo nome esqueci) afirmou: “Enquanto estiver aqui, a Tribuna da Imprensa não receberá nenhuma publicidade”.
PS6 – Não recebemos mesmo, ninguém protestou, esse japonesinho só fazia o que Lula mandava.
PS7 – Agora, na hora de deixar o governo, pelo menos na aparência, em discurso público, Lula afirma: “EU SOU a opinião pública, o povo não precisa MAIS de formadores de opiniã.
PS8 – Saiu NÓS, foi descuido, desprezo e desisteresse do presidente. Quanto a esse MAIS, Lula, espertíssimo, colocou para justificar os 25 BILHÕES de “”publicidade” que DEU, ano a ano, a esses órgãos que NÃO FORMAM MAIS OPINIÃO. Se NÃO FORMAM MAIS, a conclusão é de que FORMAVAM ANTES.
HÉLIO FERNANDES NO SITE DA TRIBUNA DA IMPRENSA (22.09.2010)

domingo, 19 de setembro de 2010

Setaro's Blog: Dor e beleza em Carl Theodor Dreyer

Setaro's Blog: Dor e beleza em Carl Theodor Dreyer: "A Palavra (Ordet, 1955), de Carl Theodor Dreyer: um momento de sublimidade Antes do DVD, ver um filme do dinamarquês Carl Theodor Dre..."

A grande família

EDITORIAL DA FOLHA DE S.PAULO em 17/09/2010

A ministra Erenice Guerra, braço direito e substituta da petista Dilma Rousseff na Casa Civil, não resistiu a mais uma reportagem com relatos acerca de atividades de tráfico de influência e cobrança de comissões supostamente praticadas por membros de sua família. A Folha trouxe, na edição de ontem, a explosiva história de uma empresa que afirmou ter sido orientada a procurar a Capital Consultoria, de um filho da então secretária-executiva do ministério, para liberar um empréstimo bilionário do BNDES.


Segundo os autores da denúncia, em conversas gravadas pela reportagem, houve troca de e-mails com um assessor da Casa Civil e realizou-se uma reunião entre representantes da empresa que pleiteava o empréstimo e Erenice.

A firma do filho da ministra demissionária teria cobrado pelo serviço seis pagamentos mensais de R$ 40 mil, além de uma "taxa de êxito" -um eufemismo para propina- de 5% sobre o valor do financiamento. Segundo as declarações, o pacote também incluiria uma doação de R$ 5 milhões, supostamente para a campanha de Dilma Rousseff.
Em síntese, de acordo com os depoimentos colhidos pelo jornal, um balcão de negócios, montado no coração do Poder Executivo, tentou vender facilidades para uma empresa interessada em recursos bilionários do banco de fomento do governo federal -que utiliza dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador na concessão de crédito a juros subsidiados.

Para completar o descalabro, segundo um dos entrevistados, o ministério servia de guichê partidário com a finalidade de arrecadar fundos para a candidatura oficial. Em que pesem as negativas, o pedido de demissão da ministra reforçou conjeturas acerca de sua participação nas tratativas.
O caso, que se reúne aos malfeitos reportados pela revista "Veja" nesta semana, também lança dúvidas sobre o comportamento de Dilma Rousseff e da própria Presidência da República. Todas as reportagens dão conta de que havia uma quadrilha atuando sob o nariz do chefe do Executivo, em seu mais próximo e estratégico gabinete -a mesma Casa Civil em que se montou, no primeiro mandato, o esquema do mensalão.

O episódio não deixa dúvida quanto à crescente promiscuidade, no atual governo, entre interesses públicos e privados. Oito anos de incrustação petista na máquina pública foram suficientes para promover, além do conhecido loteamento fisiológico, a partidarização sem precedentes do Estado brasileiro.
O pequeno clã dos Guerra talvez possa ser visto como uma espécie de ilustração em miniatura de um conglomerado maior, a grande família dos sócios do lulismo, formada por uma legião de militantes, aproveitadores e bajuladores que parece ver no exercício das funções públicas uma chance imperdível para enriquecer e perpetuar privilégios.

Infelizmente, essa espantosa instrumentalização das estruturas governamentais, em tudo compatível com o perfil estatizante, corporativo e arrivista do PT, tem encontrado na figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o seu principal fiador.
Inebriado com seus elevados índices de popularidade, o mandatário é o primeiro a estimular a impunidade e a minimizar os "erros" de seus companheiros.

Da compra do apoio de partidos e parlamentares à violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, passando pela devassa no Imposto de Renda de milhares de cidadãos, entre os quais adversários políticos do PT, tudo é atribuído a conspirações da imprensa ou de "inimigos do povo"; nada é investigado a fundo.

Apurar, ao que tudo indica, não é mesmo um verbo que se conjugue no Palácio do Planalto. Ali, prefere-se iludir, tergiversar, apaniguar. Por isso mesmo é de esperar que ainda existam instituições públicas com suficiente independência e iniciativa para proceder a uma averiguação rigorosa desses episódios.
Nesta hora em que as pesquisas de intenção de voto apontam para uma vitória acachapante da candidata oficial, mais do que nunca é preciso estabelecer limites e encontrar um paradeiro à ação de um grupo político que se mostra disposto a afrontar garantias democráticas e princípios republicanos de forma recorrente.
O Brasil não pode ser confundido com uma espécie de "hacienda" da grande família petista.
Se não há evidências sobre a participação de Dilma Rousseff em desvios como os agora apontados, é inevitável questionar a escolha de Erenice Guerra para exercer as funções de secretária-executiva e, posteriormente, chefe da Casa Civil da Presidência.

Ninguém mais do que Dilma sabia com quem estava tratando. Faltou-lhe argúcia para perceber o que se passava? Desconfiou, mas não tomou providências? Tudo não passa de um grande engano? É preciso que se responda.

Há tempos o país vem assistindo à modelagem da figura pública da postulante petista pelo presidente da República e seus propagandistas. Já é hora de o marketing dar lugar ao debate e ao questionamento. Os brasileiros precisam de informações que permitam aferir com mais acuidade as virtudes e defeitos daquela a quem Lula, em mais uma de suas sintomáticas e infelizes metáforas, empenha-se em entronizar como a "mãe" do país.