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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O prazer de ler romances



Por João Paulo (Estado de Minas)

Entre os maiores prazeres do mundo está a leitura de um bom romance. Por isso é preocupante que as pessoas leiam pouco: elas estão deixando de lado uma das melhores coisas da vida. Resumir a capacidade de ser feliz é sempre um problema. Para o filósofo Spinoza, o que caracterizava a felicidade era a ampliação do mundo. No caminho contrário, sempre que diminuímos o horizonte operamos um trabalho em favor da tristeza. 

Há prazeres e prazeres. Nossa época padece de uma mescla contraditória de hedonismo e ascetismo. Todos querem gozar muito e rápido, deixando de lado a lenta e agradável tarefa da preparação. Por outro lado, o que é considerado felicidade ficou tão contido na estreita faixa do consumo que a realização se tornou muito mais uma obrigação que um ato de liberdade. 

O homem de hoje não escolhe aquilo de que gosta, há uma imposição ditada pelos padrões de consumo que indicam o “lugar certo onde colocar o desejo”. Há algum tempo, a grande cisão se dava entre o ser e o ter. Hoje, no reino do simulacro e da sociedade do espetáculo, o ser foi destronado pelo parecer. As pessoas têm que parecer jovens (mesmo à custa de uma máscara horrorosa de botox e plástica que tira a diferença em nome de uma fealdade típica), parecer ricas (mesmo consumindo o que não apreciam), parecer vencedoras (mesmo à custa de dar rasteira no outro e furar filas).

Com esse receituário, algumas alegrias que atravessaram os séculos correm o risco de se perder no caminho. A leitura de romances parece ser uma delas. Em primeiro lugar, os temas clássicos foram sendo jogados de lado em nome de um realismo brutalista. Como ler se tornou chato, a saída foi aproximar as ficções do que a realidade tem de mais excitante. E dá-lhe livros policiais e assemelhados. Toda narrativa, para ser palatável, precisa ser curta, rápida, violenta e rasteira.

Para dar sequência a uma boa intenção que se perdeu, os romances, além de trocar a dimensão literária pela estética do jornalismo e do cinema, se tornou um produto desprestigiado no mercado cultural pela exigência que cobra do consumidor. Para que ler um livro se posso consumir um resumo, uma adaptação, uma resenha? Não foi por acaso que fez sucesso há poucos anos um livro que se chamava Como falar de livros que você não leu. O lance é parecer que leu.

Um terceiro aspecto do esvaziamento da literatura como entretenimento rico se deu exatamente pelo preconceito contra a diversão. Autores que se julgam sérios decidiram que livros bons precisavam ser cacetes. A chamada alta literatura se afundou num pântano de autorreferência e citações enviesadas, deixando a boa história de lado em nome da metalinguagem. O resultado foi um cisma, que ainda hoje deixa marcas no cenário: livro bom precisa ser metido a besta; livro divertido não merece respeito de gente séria.

Já vai longe o tempo em que autores como Jorge Amado e Erico Verissimo escreviam a melhor literatura brasileira e eram lidos por milhões. Mesmo eles, que algumas vezes chegaram perto da composição de obras-primas (como São Jorge dos Ilhéus e Gabriela, cravo e canela, no caso de Amado; e os vários volumes de O tempo e o vento  e Incidente em Antares, da pena de Verissimo), foram objeto de muxoxos por parte da crítica. 

O poeta José Paulo Paes e o crítico Antonio Candido foram dos poucos analistas literários de peso a defender a importância de uma literatura de entretenimento entre nós. Sofisticados e cultos, sabiam que o sistema literário só funciona se houver uma sedimentação quantitativa, que, com o tempo, prepara o leitor para trabalhos mais exigentes. Os escritores populares de hoje (como foram Balzac e José de Alencar em seu tempo) preparam o caminho e, muitas vezes, ajudam eles mesmos a indicar as melhores picadas. Sucesso de público não é defeito. O pecado é a má literatura.

Outro caminho que parece romper com o esquematismo que divide livros sérios e volumes descartáveis é a chamada literatura pop, marcada pela sensibilidade com os dilemas contemporâneos, de olhos nas pessoas que são gente como a gente. São livros que trazem personagens comuns, vivendo existências convencionais, mas tocados, em algum momento, por alguma sutil manifestação da transcendência. Pode ser o humor, a redenção, o mergulho no mistério. Uma epifania profana, como a dos personagens de Salinger, o mais cult dos pops – ou o contrário. O importante é que seja comunicável, agradável, excite a sensibilidade e incorpore inteligência ao mundo à nossa volta.

Sexo, rock e literatura Um exemplo de livro que reúne tudo que de bom a literatura pode dar ao leitor e ainda proporcionar altas doses de prazer é o romance A visita cruel do tempo, da escritora americana Jennifer Egan, que sai no Brasil pela Editora Intrínseca. A romancista ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 2011 e uma fileira de outras distinções. O livro agradou o público e vende como pão quente. Tem nele a mágica de convencer a crítica e divertir o público. O enredo é simples, os personagens verdadeiros. Tem sexo, drogas e rock’n roll. 

O que Jennifer Egan tem de especial é a capacidade de contar uma boa história, que tem como atores gente como um executivo do mundo do disco que toma café com flocos de ouro para recuperar o tesão perdido, uma marqueteira que acaba assessorando um ditador sanguinário, adolescentes problemáticos, mulheres em busca do amor, um ídolo decadente do rock em fase terminal, um jornalista de celebridades que sai da prisão por violência sexual contra uma personagem de suas matérias, um pescador desligado do mundo que se alimenta de peixes pescados em rios poluídos. Como se vê, em cada uma das personagens há uma enxurrada de símbolos. Mas o que mais agrada no livro é que a teoria foi deixada de lado. O que importa são as pessoas.

Em meio a um universo entrópico e aparentemente sem saída, o grande personagem da narrativa é o tempo. Desde Marcel Proust, com seu ciclópico Em busca do tempo perdido, a matéria de que somos feitos passou a ser o escorrer dos minutos, que fluem ora para a frente, ora em direção à aurora da vida. A romancista, com um domínio impressionante da estrutura narrativa, divide seu livro em 13 capítulos, cada um passado em uma época, narrado por um personagem, com um foco peculiar. A história se desloca no tempo, no espaço e na voz narrativa.

Como 13 contos que se entrelaçam a partir de detalhes, a construção do universo se dá ao final da narrativa, com o leitor partilhando experiências diferentes, vindas de pessoas sempre no momento de decisão. Em cada um dos capítulos, a narrativa começa de chofre, sem explicar quem fala, em que tempo se encontra, em que mundo habita o narrador. É a própria história, que vai se desdobrando para o leitor, que cria a segurança da identificação e a ancoragem do sentido. A romancista nos coloca em meio a um caleidoscópio que, com o desenrolar da história, passamos a girar para ver brilhar imagens encantadoras ou assustadoras. O nome do brinquedo é tempo.

A visita cruel do tempo reconstitui o prazer de leitura sem abrir mão do esforço do leitor. É um livro tão interessante exatamente na medida em que exige uma entrega à linguagem, à fabulação e à visão de mundo de pessoas já vividas, mas nem por isso céticas ao ponto de desprezar uma história bem contada. Quem acha que não tem o que aprender com romances está perdendo uma boa chance de incorporar humildade no seu patrimônio afetivo. Afinal, o tempo é cruel e não vai deixar de nos visitar na hora certa. E também nas erradas.

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