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sábado, 10 de setembro de 2011

Vincente Minnelli: o cineasta do bom gosto

O cinema de Vincente Minnelli é pautado pelo bom gosto. Bom gosto na escolha do elenco, no equilíbrio das cores, na composição dos quadros, na construção dos cenários. O que não significa que ele tenha sempre investido em terreno seguro ou trilhado caminhos que facilmente conduziriam à beleza. O aprendizado do bom gosto, para ele, foi fruto de uma inusitada combinação de referências heterogêneas. A educação estética de Minnelli passou tanto pelo estudo dos clássicos e pela admiração dos quadros dos maiores coloristas da história da pintura quanto pela experiência profissional em espetáculos da Broadway, números de music-hall e outras modalidades de diversão popular. O diretor de Agora Seremos Felizes soube, como poucos, unir comércio e arte, nutrir o mundo do espetáculo de fontes eruditas (Flaubert, Goethe), misturar Broadway e Shakespeare, ser tanto um decorador de vitrine quanto um esteta experimental, anular a separação entre cinema de gênero e cinema de autor, tornar inútil a hierarquia entre grandes e pequenos temas, alta e baixa cultura.

Minnelli, a priori, não distingue entre um assunto nobre e um assunto menor. Qualquer coisa lhe parece digna da mais alta representação artística. Ele não necessariamente dá ao público dito intelectual um tema rico e profundo para refletir após a sessão (embora filmes como Paixões sem Freios e Papai Precisa Casar possam render conversas densas e intermináveis). Se muita gente relutou em considerá-lo um grande cineasta e não apenas um embelezador de espaços, foi porque se prendeu a um caduco pressuposto de que a grande arte só se faz a partir de um grande assunto. Ora, isso relegaria a um segundo plano uma parcela considerável das obras-primas da pintura. As maçãs de Cézanne ou as bailarinas de Degas não são geniais porque representam maçãs ou bailarinas, mas antes por conta do traço peculiar que as vivifica na tela. As botas de um camponês, num quadro de Van Gogh, condensam um mundo. O que dá o tamanho de uma obra é menos o objeto escolhido pelo artista do que a forma como ele o representa. Os filmes de Minnelli, assim como as pinturas de Van Gogh, só fazem sentido pela cor, pela composição, pela textura dos materiais, pelo arranjo dos corpos e dos elementos plásticos no interior do quadro. O “touch” minnelliano é o motivo pelo qual vemos seus filmes. Se todo grande autor possui um tema recorrente, que ele explora sistematicamente no decorrer de sua obra, o de Minnelli foi a própria função da arte – e, mais especificamente, do cinema – enquanto transformação estética do mundo. Algo que ele deixa bastante claro em seus dois filmes plantados no universo do cinema: Assim Estava Escrito (1952) e A Cidade dos Desiludidos (1962). Neste último, que é certamente o precursor imediato de O Desprezo (Godard, 1963), Minnelli enfatiza alguns detalhes que, no set de filmagem, são responsáveis pelo sentido geral da obra. Uma mudança de ângulo da câmera, um objeto acrescido ou subtraído ao quadro, e a cena será outra – para melhor ou pior.

Os dois gêneros que mais marcaram a carreira de Vincente Minnelli, musical e melodrama, definem as duas características principais de sua obra: diversão e emoção. Assistir a seus filmes é entrar em contato direto com as forças que fizeram o cinema ser o grande espetáculo de massa do século XX; é reviver o encantamento primordial do cinema. Os sonhos e as lutas de seus personagens se manifestam na tela com toda a energia necessária para embalar os espectadores nesses sonhos ou engajá-los nessas lutas. A melodia de uma canção, o movimento de uma dança, a explosão de um drama individual ou mesmo a vibração de uma determinada cor podem levar o espectador ao êxtase ou às lágrimas em questão de segundos. No universo minnelliano, tudo é muito intenso.

A lógica dos filmes de Minnelli se resume na relação do personagem com a cenografia. No começo de A Roda da Fortuna (1953), Fred Astaire desce do trem em Nova Iorque e encontra uma realidade confusa, barulhenta, incompreensível. Mas basta que ele comece a cantar e dançar para que tudo se harmonize. O cenário com que seu corpo estava em conflito agora acolhe seus movimentos. As pessoas que esbarravam nele de maneira incômoda agora participam de uma coreografia coletiva. Os ruídos das máquinas se organizam em melodia. O personagem se entende com o ambiente. É por essa relação positiva do personagem com o cenário que se define o musical minnelliano.

Em Paixões sem Freios (1955), a história é outra. O jovem pintor atormentado, que se recupera numa clínica de tratamento psiquiátrico, vê a chance de fazer algo que pode deixá-lo feliz: os médicos sugerem que ele pinte as novas cortinas que serão confeccionadas para a biblioteca. O rapaz se anima com a perspectiva de deixar sua marca pessoal na cenografia da clínica. Uma disputa interna, contudo, coloca em xeque a troca das cortinas. Diante da possibilidade de não poder mais dar vazão a seu imaginário, de não poder expandir ao espaço as imagens que se agitam em sua mente, o jovem pintor entra em crise e foge da clínica, causando um enorme rebuliço na vida de todos. O que ele queria era exatamente o que Fred Astaire havia feito em A Roda da Fortuna: mudar o cenário a seu favor. Quando essa mudança se mostra impossível, o personagem se desestabiliza. O melodrama narra a tristeza que se apossa do homem quando a imaginação artística não consegue mais transformar a realidade. Sede de Viver (1956), um dos projetos mais pessoais da carreira de Minnelli, aborda justamente a figura do artista (Van Gogh, no caso) confrontado a um mundo exterior que lhe é, na maior parte do tempo, hostil.

Alternando musicais e melodramas, Minnelli se dedicou às relações entre o peso da realidade e a potência do sonho (sem que uma coisa necessariamente se oponha à outra, pois, em seus filmes, realidade e sonho se comunicam, se nutrem reciprocamente), e demonstrou uma necessidade de representar o andamento desigual da vida, os contrastes que fundam nossa existência. Para conhecer a felicidade, é preciso já ter vivido a tristeza. E vice-versa.

Há tempos o cinéfilo brasileiro não tem a oportunidade de ver Minnelli numa sala de cinema. Com a presente mostra, poderemos redescobrir o charme e a beleza inconfundíveis de seus filmes. Redescobrir Minnelli nada mais é que reencontrar a paixão pelo cinema em estado puro.

Luiz Carlos Oliveira Jr.

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