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domingo, 22 de maio de 2011

Fernando Haddad, ministro da deseducação brasileira



Pedro do Coutto
Não há a menor possibilidade de explicar, em termos lógicos, a omissão do ministro Fernando Haddad quanto à edição, por uma ONG chamada Ação Educativa, Editora Global, de um livro (que deveria ser didático) contendo erros crassos de concordância, impropriedades, absurdos de linguagem, exemplos contrários a todos os princípios básicos de uma tarefa extraordinária chamada Educação. Aprovando semelhante ato catastrófico, o ministro Fernando Haddad, que por sua vontade a presidente Dilma Roussef não o teria mantido no MEC, transformou-se, isso sim, no titular da deseducação brasileira. Inconcebível o que aconteceu.
A obra, plena de erros, já foi distribuída a 485 mil jovens do ensino fundamental e médio do país. Haddad nada diz, nem ao menos determina o recolhimento da cartilha que promove, não a cultura popular, como defendeu a autora da tempestade, professora Heloisa Ramos, mas simplesmente a ignorância.
Excelente, sem dúvida, a reportagem de O Globo de terça-feira 17 sobre o tema, assinada por Adauri Antunes Barbosa e Demétrio Weber. No contexto da matéria, ótima a entrevista do presidente da ABL, Marcos Vilaça, à repórter Dandara Tinoco. Impossível mesclar-se a linguagem oral, real porém errada, ao texto escrito, cujo objetivo, como seu nome indica, é ser didático.
Acentua bem Elena, minha mulher, que concordar com tal prática retira do MEC a faculdade de reprovar alunos por erros de português em sua rede de ensino no país. Pois como não aceitar um texto com digamos, a expressão nós vai, se a bússola do Ministério da Educação aponta nesta mesma direção? Será uma contradição absoluta: a de incentivar o erro e sua aceitação como algo normal, e rejeitá-lo numa prova.
O exemplo é extremamente negativo ao país. É um crime político o  de estimular o desconhecimento e o mergulho da juventude no universo verbal usado nas portas dos botequins. Isso, no fundo, significa incentivar o analfabetismo, ao invés de combatê-lo. O analfabetismo, não se iludam os leitores, permanece muito alto em nosso país.
Não são apenas os 12% a que se refere o IBGE em seu último censo. O índice é muito maior. O Mobral foi um mito dos governos militares cujo ciclo se encerrou em março de 85. Na realidade, ele nunca existiu. Só se tornou aparentemente visível pelo fato de ter sido presidido por Mario Henrique Simonsen, até o momento em que nomeado ministro da Fazenda pelo general Ernesto Geisel.
A alfabetização – como definia meu amigo Antonio Houaiss – não é apenas saber assinar o nome e ler a sua própria assinatura e a assinatura dos outros. Não. É saber escrever um simples bilhete e compreender o que está escrito em outro texto curto, digamos apenas um recado. Houaiss nunca apoiou escrever-se uma concordância errada. Não considerava propriamente um desacerto, isso sim, trocar-se o pronome oblíquo lhe em vez de lo. Também não o uso da crase. E citava um exemplo, muito comum nos vidros de bares: bebida só à dinheiro. Não se craseia antes de palavra masculina. Porém, no caso, qualquer pessoa entende o que a frase quer dizer.
Ao me referir ao Mobral que desapareceu no tempo (cheguei a trabalhar lá), me inspirei em título do filme O Homem Que Nunca Existiu. Era uma trama de espionagem na Inglaterra durante a segunda guerra. O espião nazista foi identificado. Mas não poderia ser preso, pois no caso tal fato exporia para o inimigo a rede de contraespionagem. Então para a Scotland Yard, tornou-se o homem que nunca existiu.
O ministro Fernando Haddad parece não existir à frente do MEC.

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