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domingo, 1 de abril de 2012

"Um método perigoso", de David Cronenberg


POR INÁCIO ARAÚJO
Para David Cronenberg não existe doença mental – ou antes: toda doença mental, toda dor psíquica tem uma tradução física. Basta ver a primeira cena de “Um Método Perigoso” para entender seu pensamento: uma mulher grita, contorce-se, bate-se dentro da carruagem que a leva até um hospital psiquiátrico.
Essa doente é Sabina Spielrein e, quando começa seu tratamento com o dr. Jung, tratamento pela fala, nota-se com clareza ainda maior como se manifesta essa doença: na dificuldade de falar, nos retorcimentos agônicos do corpo, na sufocação que parece inscrita em seu olhar.
Sabemos desde então por onde passará, no filme, tanto o encontro como o posterior conflito (ambos intelectuais) entre C.G. Jung e Sigmund Freud: pelo corpo. O corpo contido, protestante, de Jung. E o corpo inquieto, judaico, de Freud (inquietude que se manifesta no olhar, no charuto). Haverá no meio alguns outros corpos, mas o essencial é o de Sabina, cuja melhora a leva a tornar-se amante de Jung.
Sabina (aliás uma futura psicanalista) é, de início, um corpo em que a dor é produzida pela violência paterna. Transforma-se, com o tratamento, em corpo de amor, de prazer. Um prazer que não exclui a dor (ah, parece que Cronenberg é o último cineasta a saber filmar cenas de sexo, isto é, de amor).
Sabina será também, ao menos no filme, o eixo do conflito entre Freud e Jung, na verdade. Ela ama a Jung, o homem por quem revela-se o caminho do seu desejo, mas entende melhor a Freud: afinal é da resistência de Jung à abordagem da sexualidade por Freud que nasce a distância entre os dois homens.
Embora seja possível testemunhar algumas discussões sobre psicanálise ao longo do filme, está claro que não há a menor necessidade de compreendê-las. O essencial virá sempre da imagem, do físico. Assim é no momento em que Freud, sentindo-se apunhalado por Jung (desejo do filho de matar o pai) desmaia e cai, como que simulando a própria morte. Ou durante a visita a Jung de uma Sabina grávida (de outro homem) – momento lancinante, pois percebemos que esse filho deveria ser dele, Jung.
Se os filmes mais recentes de Cronenberg pareciam obra de um cineasta um tanto conformado com a atual realidade cinematográfica (que, no entanto, sempre buscou driblar), “Um Método Perigoso” o reencontra na trilha de sempre, de autor irredutível ao cinema dos bons modos. Podia-se temer ao abordar as relações entre um grupo de intelectuais: teria cedido ao “filme de arte”?
Seu “Método” prova que não, que é um cineasta do “filme de filme” a cada passo, a cada cena. E o que é próprio do humano, visto por Cronenberg, é o sofrimento, a agonia, o gozo: o perigo, enfim, de que essas aventuras intelectuais (a da psicanálise e a do filme) constituem uma demonstração.
Por fim: se Cronenberg não esconde que sua simpatia científica pende para o lado de Freud (o que já é bem mais que nada, neste momento em que se acredita na cura não pela fala, mas por pílulas mágicas), não deixa de reconhecer o que há de poético no pensamento metafísico de Jung.

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