Total de visualizações de página

Seguidores


domingo, 1 de abril de 2012

"Um método perigoso", de David Cronenberg


POR INÁCIO ARAÚJO
Para David Cronenberg não existe doença mental – ou antes: toda doença mental, toda dor psíquica tem uma tradução física. Basta ver a primeira cena de “Um Método Perigoso” para entender seu pensamento: uma mulher grita, contorce-se, bate-se dentro da carruagem que a leva até um hospital psiquiátrico.
Essa doente é Sabina Spielrein e, quando começa seu tratamento com o dr. Jung, tratamento pela fala, nota-se com clareza ainda maior como se manifesta essa doença: na dificuldade de falar, nos retorcimentos agônicos do corpo, na sufocação que parece inscrita em seu olhar.
Sabemos desde então por onde passará, no filme, tanto o encontro como o posterior conflito (ambos intelectuais) entre C.G. Jung e Sigmund Freud: pelo corpo. O corpo contido, protestante, de Jung. E o corpo inquieto, judaico, de Freud (inquietude que se manifesta no olhar, no charuto). Haverá no meio alguns outros corpos, mas o essencial é o de Sabina, cuja melhora a leva a tornar-se amante de Jung.
Sabina (aliás uma futura psicanalista) é, de início, um corpo em que a dor é produzida pela violência paterna. Transforma-se, com o tratamento, em corpo de amor, de prazer. Um prazer que não exclui a dor (ah, parece que Cronenberg é o último cineasta a saber filmar cenas de sexo, isto é, de amor).
Sabina será também, ao menos no filme, o eixo do conflito entre Freud e Jung, na verdade. Ela ama a Jung, o homem por quem revela-se o caminho do seu desejo, mas entende melhor a Freud: afinal é da resistência de Jung à abordagem da sexualidade por Freud que nasce a distância entre os dois homens.
Embora seja possível testemunhar algumas discussões sobre psicanálise ao longo do filme, está claro que não há a menor necessidade de compreendê-las. O essencial virá sempre da imagem, do físico. Assim é no momento em que Freud, sentindo-se apunhalado por Jung (desejo do filho de matar o pai) desmaia e cai, como que simulando a própria morte. Ou durante a visita a Jung de uma Sabina grávida (de outro homem) – momento lancinante, pois percebemos que esse filho deveria ser dele, Jung.
Se os filmes mais recentes de Cronenberg pareciam obra de um cineasta um tanto conformado com a atual realidade cinematográfica (que, no entanto, sempre buscou driblar), “Um Método Perigoso” o reencontra na trilha de sempre, de autor irredutível ao cinema dos bons modos. Podia-se temer ao abordar as relações entre um grupo de intelectuais: teria cedido ao “filme de arte”?
Seu “Método” prova que não, que é um cineasta do “filme de filme” a cada passo, a cada cena. E o que é próprio do humano, visto por Cronenberg, é o sofrimento, a agonia, o gozo: o perigo, enfim, de que essas aventuras intelectuais (a da psicanálise e a do filme) constituem uma demonstração.
Por fim: se Cronenberg não esconde que sua simpatia científica pende para o lado de Freud (o que já é bem mais que nada, neste momento em que se acredita na cura não pela fala, mas por pílulas mágicas), não deixa de reconhecer o que há de poético no pensamento metafísico de Jung.

Da leitura dos clássicos


Houve época em que às crianças era apresentado nos bancos escolares (e essa observação vale para o Brasil, para países europeus cuja influência se fez sentir aqui e para os Estados Unidos) um conjunto de obras (literárias, musicais, arquitetônicas...) chamadas clássicas. Naquele tempo, igualmente, os professores ensinavam que clássico era um estilo, que se diferenciava, por exemplo, do barroco, do rococó, do maneirismo; ensinavam que clássico era um período importante da história da cultura, que o próprio sentido da formação escolar era tributária de valores clássicos (a chamada educação refinada). Daí que, para gerações pretéritas, o ensino de clássicos ligava-se a um estágio na formação: o curso clássico, para quem queria seguir carreira em humanidades, e o científico, para os com maior queda para as ciências.


Fazer qualquer tipo de ponderação sobre a importância da leitura de obras clássicas, para mim, evoca um nível de formação perdida nas brumas do tempo. Acho que este é um bom mote para eu me situar tanto em relação ao tema, quanto às dificuldades no uso da palavra “clássico”. Acho interessante esta aproximação por duas razões principais: o sentido da palavra me remete em alguma medida a questões ligadas à formação escolar d’antanho; o uso da palavra, ainda hoje, opera um certo tipo de separação social, daí que a ela seja inevitável um recorte sobre o valor social da leitura. Um ponto que julgo importante e inevitável ao tratarmos do tema, então, refere-se à própria maneira como a palavra aparecia no vocabulário quotidiano: aprendia-se a usá-la como a outras palavras que acompanhavam a vida das pessoas.

Assim, para gerações d’antanho, clássico era o contato com obras antigas, geralmente apresentadas pelos professores de português ou de artes. Na escola ensinava-se que houve uma antiguidade clássica, que incluía dramaturgos como Sófocles, Esquilo e Eurípides, historiadores como Heródoto (o “pai da história”), Tucídides e Tácito, filósofos como Platão, Aristóteles e Epicuro. Ensinava-se, outrossim, literatura portuguesa, onde se lia Gil Vicente, Camões e junto a estes eram feitas referências a Petrarca, Erasmo de Roterdã e Shakespeare. E esses autores, no espírito renascentista, inspiravam-se nos modelos dos clássicos da antiguidade. Tinha-se, assim, um panorama do que era o mundo clássico, do que veio a ser o classicismo, para que se pudesse apreciar, traçar comparações com o que vinha depois na grade curricular.

Nos bancos escolares ensinavam as crianças a reconhecer uma obra do chamado período clássico e, com isso, lhes possibilitavam um primeiro uso da palavra, um sentido genérico, mas que, ao mesmo tempo, lhes fornecia os pilares para o reconhecimento de que Camões é clássico, Machado de Assis, realista e Mario de Andrade, moderno. Foi assim que, no antigo ginasial (atuais dois últimos ciclos do ensino Fundamental), apresentou-se a mim um primeiro sentido da palavra “clássico”. 

Assevero, no entanto, que o primeiro sentido da palavra apreendido por mim, com o passar dos anos revelou-se antinômico: clássico não diz respeito tão somente às obras do classicismo, pois esta palavra tem um escopo mais amplo, que inclui realistas como Machado de Assis e Eça de Queirós tanto quanto românticos como Balzac, Stendhal e José de Alencar. Enfim, aprendi que num sentido mais amplo clássico e moderno se opõem. 

Com isso, não só a palavra “clássico” ganhou outro relevo como a palavra “moderno”; aprendi que clássico identifica-se com adjetivos como tradicional e conservador e, por isso, que obras clássicas seguem modelos pré-estabelecidos; e, em contraste, o moderno diz respeito à vanguarda, à ruptura, à quebra de convenções. Nesse momento, as caracterizações de uma obra seguindo períodos como barroco, romantismo, realismo, diluíram-se – importantes para quem prestar vestibular (um soneto não identificado de Antero de Quental deve fornecer ao aluno indícios de que se trata de um exemplar da poesia realista portuguesa) –, pois o que se impõe é saber se um determinado autor é clássico ou moderno. 

Malfazejo o destino das palavras; dormiria o sono dos justos se a antinomia ficasse por aqui. A fortuna quis que com o tempo, com as leituras, aprendesse que não há fronteira nítida entre os clássicos e os modernos; que aprendesse nos últimos anos com o pós-moderno que tanto um romance como A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy, de Laurence Sterne, escrito no século XVIII, quanto Morte a crédito, de L. F. Céline, podem ser catalogados como modernos. Se for despropositado afirmar que Sterne não é um moderno, da mesma forma é com propósito que quando estamos lendo Proust, Joyce, Faulkner ou Guimarães Rosa, podemos afirmar que estamos diante de clássicos da literatura. E isso, adrede, causa-me desconforto: um clássico moderno e um moderno clássico desafiam meu senso de apreensão da realidade. 

Com isso, apenas quero traçar uma linha demarcatória entre o uso restrito que era feito da palavra quando estava nos bancos escolares (Camões e Boccaccio eram clássicos, Bocage e Quevedo, barrocos, Dostoiévsky e Machado de Assis, realistas, Fernando Pessoa, Mario de Sá Carneiro, Manuel Bandeira e Paul Valéry, modernos) e os numerosos debates que, com a vida e as leituras, me informaram acerca de um sentido mais amplo que é dado à palavra: D. Casmurro, de Machado de Assis, é um clássico da literatura brasileira (negar isso pode causar estranheza, dependendo do contexto); Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, também é um clássico da literatura brasileira. 

Bem, mas fiz esta breve digressão para chamar a atenção para uma dificuldade inicial e primária na aprendizagem das palavras, a fim de lançar um olhar retrospectivo para minha formação e poder assinalar qual foi o primeiro sentido da palavra “clássico” que me foi dado nos bancos escolares. Assim, na quinta série do antigo ginásio, na Escola Maria Augusta Siqueira, minha professora de português (Paula, de cujas lembranças são boas, mas da qual o destino hoje me escapa ao conhecimento) me ensinou os primeiros versos de Os Lusíadas, a contar as sílabas dos alexandrinos versos do épico português, e que, assim, estava aprendendo a ler, apreciar e reconhecer um clássico. 

No curso de minha vida, portanto, o sentido que aprendi e apreendi da palavra “clássico” foi se modificando: na escola, clássico era Camões; mais tarde, clássico se opunha o moderno e o realista Tolstoi era clássico; mais recentemente, clássico pode ser uma obra que não ultrapassou meia centúria (nas férias mais recentes reli Malone morre, do irlandês Samuel Beckett: um clássico! E, ainda, li Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee, Nobel de literatura em 2003: outro clássico!). 

Bem, mas o que tentei até aqui foi apontar para algumas dificuldades, para o percurso de meus próprios contatos e como minha compreensão acerca do sentido dado à palavra “clássico” se modificou. Com isso, a partir de minha experiência de leitura, quis mostrar que o tema é tão movediço quanto perturbador, pois tudo que escrevi pode ficar apenas confinado à minha formação. E, assim sendo, corro o risco de psicanalisar em demasia as observações feitas. Contudo, assim entendo, essas singelas e pessoais dificuldades representam a menor porção do iceberg: as questões mais espinhosas, quando me deparo com o tema, diz respeito, na mesma proporção, às questões de gosto e de valor social da leitura de um clássico. Sobre esses dois pontos, deter-me-ei a seguir; guardando, óbvio, os limites de uma pincelada ensaística.

A questão de gosto, como todos sabem, é antiga; por isso é inoportuno alinhavar seus contornos; seria uma pretensão desmedida. No entanto, olho para um aspecto que me parece inquietante: quando me posto diante de um clássico isso significa que aprecio o que estou a ler? Isso significa que estabeleço critérios ditados pela minha disposição interior para considerar uma obra clássica, ou que devo me curvar a um padrão exterior? Quando me faço essa inquirição, dou conta de que para a leitura de um clássico eu poderia ser movido por razões exógenas ao meu gosto e que o meu gosto, pelas minhas experiências pessoais, podem ditar escolhas que escapam completamente ao que um padrão externo tomaria para considerar que uma certa obra é clássica. 

Li na infância e gostei de D. Casmurro (seminal para minhas disposições e interesses por literatura com o passar dos anos); li também A pata da gazela e gostei da mesma forma que de D. Casmurro. Mas com o correr dos anos aprendi (lendo Silvio Romero, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Roberto Schwarz...), que há uma distância abissal entre romances como esses dois quando se ajuíza o valor de um livro na história da literatura. Creio de aprendido que não posso confundir minhas disposições pessoais com a fortuna crítica de um livro.

A questão de gosto, pelo menos para mim, é complexa; como gosto de ler romances, por que prefiro Cervantes a Carlos Heitor Cony? Por que, como a maioria das pessoas, exibo conhecimentos da leitura de um Virgilio ou de um Dante? Quando levo em conta o gosto, por que, como muitos, sou irreverente a padrões externos e tomo o meu cânon de “clássicos” como se fosse o Cânon? O ponto a que chego é: a questão de gosto pode muito bem ser excluída quando da leitura de uma obra clássica, justamente porque a apreciação de um clássico requer uma disciplina, a qual é alheia a qualquer imperativo de gosto. O entendimento de uma obra clássica pressupõe esforço e, por conseguinte, trata-se de algo de que podemos ou não gostar. 

(Não me era difícil notar como meus colegas de escola resistiam à leitura de José de Alencar, de Machado de Assis, de Euclides da Cunha, de Lima Barreto. Não me é difícil notar, hoje, como grande parte das crianças do fundamental (o antigo ginásio) troça dos romances que devem ler: eles simplesmente não gostam!). 

Então, um passo mais e chego ao seguinte ponto: antes do gosto, ler um clássico possui um valor social. Deve-se conhecer a melhor literatura simplesmente porque isso configura um padrão de cultura, de civilidade. A leitura e a exibição, portanto, têm muito mais a ver com etiqueta (no sentido dado por Erasmo, Baldassare Castiglione e Giovanni della Casa) do que com projeções de gosto pessoal. Daí que muitos estabelecem uma discreta distinção entre alta e baixa cultura; entre obras – por assim dizer – para um público elitizado e obras para um público mais amplo: Virginia Woolf, André Gide, Günter Grass ou Edward Albee seriam para uma elite intelectualizada – portanto, que se afirma socialmente pela leitura de clássicos –, enquanto Patrícia Highsmith, François Sagan ou Peter Handkler, para leitores com uma visão mais pasteurizada, mais afeita aos imperativos do consumo. 

Claro que esta separação é meramente casual, mas é nesse ponto nos dias de hoje que as coisas se complicam. Minha constante remissão à grade curricular de outrora é para lembrar que a leitura de clássicos e as chamadas humanidades estão encolhidas nos currículos. Em nome do multiculturalismo, da diversidade cultural e do politicamente correto, a grade curricular nas escolas brasileiras (com os “Parâmetros Curriculares Nacionais”), americanas e de paises europeus que influenciam o modo de pensar de educadores brasileiros coloca em xeque o valor social da leitura de clássicos. 

A importância do tema, para mim, é o de situá-lo na contra-corrente dos debates pluralistas em educação; é o de reafirmar o valor social da leitura de clássicos, se temos em vista a afirmação de um padrão de cultura e civilização que se forjou com humanistas e iluministas. Com isso, ainda que sinta um certo nonsense na defesa do ensino que valoriza a leitura de obras clássicas, eu me posto ao lado de críticos americanos como Harold Bloom, Robert Hughes e Susan Sontag, que se colocaram no furacão dos debates sobre currículos. Entenderam que não se pode deixar de lado um Mark Twain da disciplina de leitura de uma criança com a alegação de que se trata de um escritor racista. 

Antes de qualquer discussão sobre catálogos e gosto pessoal, creio que a pergunta fundamental é: ainda faz sentido ler obras que, respeitado um padrão de cultura, são consideradas clássicas? Ou seja, faz sentido submeter às crianças a disciplina de leitura para que aprendam a ler obras clássicas? A esta pergunta, como se segue do que escrevi atrás, respondo afirmativamente: sinto um orgulho desmedido por ter me submetido à leitura de autores clássicos em minha infância; vejo com muito gosto jovens que quebram as convenções (ditadas pelo imperativo do mass media) e se deleitam com Homero ou Hesíodo antes do sono. 


Humberto Pereira da Silva 
São Paulo, 14/2/2005

quarta-feira, 28 de março de 2012

Perdemos Millor

Tradutor exemplar, escritor, intelectual, humorista, desenhista, cartunista e, principalmente, um livre pensador, Millor Fernandes é um dos maiores nomes da cultura brasileira. "Sou livre, como um táxi", costumava dizer.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A construção de uma imagem


Por Cacá Diegues

A população do país precisa se dar conta da importância da Lei 12.485 para todos nós brasileiros. Essa lei, recentemente aprovada pelo Congresso, trata de conteúdo nacional nas televisões por assinatura. Mas não se trata de reivindicação corporativa, benefício exclusivo para a atividade que fabrica esse tipo de produto. Trata-se de exibir, nas telinhas brasileiras, sons e imagens do Brasil, num diálogo com o público que esteja à altura de nossas criatividade e diversidade, que seja um espelho de nossos costumes e, ao mesmo tempo, capaz de propor novos comportamentos para novos tempos. 
Quando dizemos “sons e imagens”, estamos nos referindo a toda uma família do audiovisual da qual o cinema é apenas um avozinho que gerou descendência luminosa, da televisão aberta à internet, do DVD à televisão por assinatura. Além dos múltiplos novos formatos que ainda vêm por aí.
Poucos sabem que o cinema brasileiro é um dos mais antigos do mundo. A primeira sessão de cinema se deu no dia 28 de dezembro de 1895, num café de Paris. Em junho do ano seguinte, já se realizavam projeções, aqui mesmo no Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, as primeiras sessões de cinema na América Latina. Cerca de apenas um ano depois, um fotógrafo ítalo-brasileiro já estava filmando a entrada da Baia da Guanabara, realizando assim o primeiro filme sul-americano.
Mas o cinema brasileiro nunca teve uma história fluente, sempre viveu de ciclos que se abriam com grande euforia e, depois de muito pouco tempo, se fechavam melancolicamente, vítimas de circunstâncias políticas, econômicas ou institucionais. Foi assim com a vasta produção de filmes brasileiros na primeira década do século 20, com os ciclos regionais dos anos 1920 e 30, com a chanchada, a Vera Cruz, o Cinema Novo, a Embrafilme.
Desde a promulgação da Lei do Audiovisual, ainda durante o governo Itamar Franco, o cinema brasileiro vive um novo período que, passados 20 anos, já podemos desconfiar de que não se trata de mais um ciclo, mas da inauguração do cinema como atividade permanente no Brasil.
Isso significa que podemos enfim contar com a fabricação regular de uma imagem para o país através de seu cinema. Uma imagem que deve ser espelho e estímulo, descoberta e reflexão, capaz de colaborar com a construção de nossa identidade. Sendo que a identidade de um povo não se determina pela data imutável de seu nascimento no passado, mas pelo futuro do que ele for capaz de construir.
A Lei 12.485, pela qual tantos lutaram, inclusive os responsáveis pelo sucesso de nossa televisão aberta, representa a consolidação desse movimento coletivo, abrindo nossas telinhas àqueles novos sons e imagens, representantes de nossa diversidade geográfica, étnica, cultural. Essa lei reserva, para a exibição do audiovisual nacional independente, três horas e meia semanais (cerca de dois por cento de toda a duração da semana) da programação de cada canal, além de 1/3 de canais nacionais (tipo Canal Brasil) nos pacotes de cada operadora.
Contra isso, se insurgem alguns poucos insatisfeitos, como a Sky, recorrendo à Justiça para impedir essa redenção do nosso audiovisual. Ora, a lei não estupra ninguém, não impede que cada canal faça sua programação como bem entender, contrate o produto nacional que lhe for mais conveniente, estabeleça preços de mercado para essas operações. Ninguém se mete na vida deles, apenas pedimos licença para ocupar um espaçozinho modesto em nossa própria casa.
Não basta que a Ancine e os cineastas brasileiros se unam na defesa dessa lei. É preciso que a população compreenda que ela é uma necessidade do país como um todo, uma necessidade que não atende apenas à corporação do cinema mas ao interesse de todos. Não estou exagerando: temos que lutar pela regulamentação e execução da Lei 12.485 como fizemos há quase dois séculos pela independência do país. Ou como nos empenhamos, mais recentemente, para livrar o país da ditadura que nos oprimia.  
Em contrapartida, é preciso que a Ancine ouça a todos e que todos colaborem com a Ancine para evitar a burocracia que estrangula as leis e as torna ineficazes. É preciso produzir uma regulamentação que não sufoque nem exclua o  produtor independente mais modesto, que não imponha nem cerceie a liberdade das operadoras e programadoras. 
Essa semana, em entrevista na televisão, um político respeitável como Aldo Rebelo, liderança proeminente do mesmo partido do presidente da Ancine, alguém que já passou pelos cargos mais importantes do Legislativo e é hoje Ministro dos Esportes, reclamava do que chamou de “excesso de burocracia no país”. Se um ministro da confiança do governo tem esse cuidado, imagine nós que não temos o seu poder.  
 
O Globo, 10 de março de 2012




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cordas e Camarotes: cinturões da exclusão



TEXTO DO PROFESSOR E MÚSICO MESSIAS G. BANDEIRA

A recente declaração de Bell Marques (Chiclete com Banana), justificando a manutenção das cordas no carnaval de Salvador, é o sintoma mais aparente do preconceito de classe que subsiste na Bahia. A novidade é que, ao expressar publicamente sua índole, Bell aperta, até o último buraco, o cinturão da exclusão na maior festa popular do mundo.

Poderíamos dizer que se trata de uma fala isolada, um deslize. Não é o caso. O carnaval dá relevo a uma situação sistêmica da desigualdade em Salvador. Bell Marques e sua turma acentuam a discriminação, empurrando as cordas e o preconceito contra aqueles que, ironicamente, deram-lhes palco, prestígio e riqueza.

O silêncio de outras estrelas da axé music diante de tal declaração é um aval ao apartheid pretendido por muitos blocos, camarotes e suas correias de transmissão instaladas nos órgãos e secretarias da (des)governança da cidade de Salvador. Eles não podem continuar dando as cartas. E o município não pode amesquinhar-se ante aqueles que operam no submundo do esquema marqueteiro.

Da aviltante “popcorn experience” — acreditem: um cercado que permite aos ilustres pagantes dos camarotes a vivência do carnaval no asfalto “sem se misturar” — ao sequestro dos espaços públicos por alguns camarotes, tudo parece nos expulsar do carnaval.

Não carrego ilusões. O carnaval baiano não é a festa da igualdade. No limite, ele subtrai o distanciamento físico de estratos sociais, falseando uma equidade que, na realidade, se apresenta apenas de forma simbólica durante 6 dias. Ou seja: entre “chupar um geladinho na corda” e apreciar um drink no espaço gourmet do camarote, há um imenso abismo. Inclusão social? Capitalismo de estado? Qual? Aquele que oferece 9.837 m2 ao Camarote Salvador e 0,6 m2 ao isopor de cerveja?

É bem verdade que o carnaval não será o locus da superação de disparidades sociais históricas. Trata-se de uma festa. Mas é exatamente por isso que o vetor mercadológico deveria estar submetido ao core cultural da festa. E não o contrário. O carnaval também é um campo de disputa política. Cordas e camarotes até podem ser justificáveis em algumas situações. No entanto, usá-los como forma de opressão é inaceitável.

Bem, eu poderia fugir do carnaval e virar as costas pra tudo isso. Mas estarei ali, ocupando o espaço público, na companhia de cidadãos que querem celebrar o carnaval, que exigem respeito e dignidade. E não apenas porque pago os meus impostos — o que me reduziria a um simples consumidor de serviços públicos. Mas, sobretudo, porque vivo nesta cidade.

Minha fórmula? Abaixem as cordas e desçam do camarote. Venham viver não a “popcorn experience”, mas a “human experience”. Depois de 35 anos pulando atrás do trio de Dodô e Osmar, eu garanto: além de uma atitude cidadã, é muito mais divertido!

 Messias G. Bandeira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O prazer de ler romances



Por João Paulo (Estado de Minas)

Entre os maiores prazeres do mundo está a leitura de um bom romance. Por isso é preocupante que as pessoas leiam pouco: elas estão deixando de lado uma das melhores coisas da vida. Resumir a capacidade de ser feliz é sempre um problema. Para o filósofo Spinoza, o que caracterizava a felicidade era a ampliação do mundo. No caminho contrário, sempre que diminuímos o horizonte operamos um trabalho em favor da tristeza. 

Há prazeres e prazeres. Nossa época padece de uma mescla contraditória de hedonismo e ascetismo. Todos querem gozar muito e rápido, deixando de lado a lenta e agradável tarefa da preparação. Por outro lado, o que é considerado felicidade ficou tão contido na estreita faixa do consumo que a realização se tornou muito mais uma obrigação que um ato de liberdade. 

O homem de hoje não escolhe aquilo de que gosta, há uma imposição ditada pelos padrões de consumo que indicam o “lugar certo onde colocar o desejo”. Há algum tempo, a grande cisão se dava entre o ser e o ter. Hoje, no reino do simulacro e da sociedade do espetáculo, o ser foi destronado pelo parecer. As pessoas têm que parecer jovens (mesmo à custa de uma máscara horrorosa de botox e plástica que tira a diferença em nome de uma fealdade típica), parecer ricas (mesmo consumindo o que não apreciam), parecer vencedoras (mesmo à custa de dar rasteira no outro e furar filas).

Com esse receituário, algumas alegrias que atravessaram os séculos correm o risco de se perder no caminho. A leitura de romances parece ser uma delas. Em primeiro lugar, os temas clássicos foram sendo jogados de lado em nome de um realismo brutalista. Como ler se tornou chato, a saída foi aproximar as ficções do que a realidade tem de mais excitante. E dá-lhe livros policiais e assemelhados. Toda narrativa, para ser palatável, precisa ser curta, rápida, violenta e rasteira.

Para dar sequência a uma boa intenção que se perdeu, os romances, além de trocar a dimensão literária pela estética do jornalismo e do cinema, se tornou um produto desprestigiado no mercado cultural pela exigência que cobra do consumidor. Para que ler um livro se posso consumir um resumo, uma adaptação, uma resenha? Não foi por acaso que fez sucesso há poucos anos um livro que se chamava Como falar de livros que você não leu. O lance é parecer que leu.

Um terceiro aspecto do esvaziamento da literatura como entretenimento rico se deu exatamente pelo preconceito contra a diversão. Autores que se julgam sérios decidiram que livros bons precisavam ser cacetes. A chamada alta literatura se afundou num pântano de autorreferência e citações enviesadas, deixando a boa história de lado em nome da metalinguagem. O resultado foi um cisma, que ainda hoje deixa marcas no cenário: livro bom precisa ser metido a besta; livro divertido não merece respeito de gente séria.

Já vai longe o tempo em que autores como Jorge Amado e Erico Verissimo escreviam a melhor literatura brasileira e eram lidos por milhões. Mesmo eles, que algumas vezes chegaram perto da composição de obras-primas (como São Jorge dos Ilhéus e Gabriela, cravo e canela, no caso de Amado; e os vários volumes de O tempo e o vento  e Incidente em Antares, da pena de Verissimo), foram objeto de muxoxos por parte da crítica. 

O poeta José Paulo Paes e o crítico Antonio Candido foram dos poucos analistas literários de peso a defender a importância de uma literatura de entretenimento entre nós. Sofisticados e cultos, sabiam que o sistema literário só funciona se houver uma sedimentação quantitativa, que, com o tempo, prepara o leitor para trabalhos mais exigentes. Os escritores populares de hoje (como foram Balzac e José de Alencar em seu tempo) preparam o caminho e, muitas vezes, ajudam eles mesmos a indicar as melhores picadas. Sucesso de público não é defeito. O pecado é a má literatura.

Outro caminho que parece romper com o esquematismo que divide livros sérios e volumes descartáveis é a chamada literatura pop, marcada pela sensibilidade com os dilemas contemporâneos, de olhos nas pessoas que são gente como a gente. São livros que trazem personagens comuns, vivendo existências convencionais, mas tocados, em algum momento, por alguma sutil manifestação da transcendência. Pode ser o humor, a redenção, o mergulho no mistério. Uma epifania profana, como a dos personagens de Salinger, o mais cult dos pops – ou o contrário. O importante é que seja comunicável, agradável, excite a sensibilidade e incorpore inteligência ao mundo à nossa volta.

Sexo, rock e literatura Um exemplo de livro que reúne tudo que de bom a literatura pode dar ao leitor e ainda proporcionar altas doses de prazer é o romance A visita cruel do tempo, da escritora americana Jennifer Egan, que sai no Brasil pela Editora Intrínseca. A romancista ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 2011 e uma fileira de outras distinções. O livro agradou o público e vende como pão quente. Tem nele a mágica de convencer a crítica e divertir o público. O enredo é simples, os personagens verdadeiros. Tem sexo, drogas e rock’n roll. 

O que Jennifer Egan tem de especial é a capacidade de contar uma boa história, que tem como atores gente como um executivo do mundo do disco que toma café com flocos de ouro para recuperar o tesão perdido, uma marqueteira que acaba assessorando um ditador sanguinário, adolescentes problemáticos, mulheres em busca do amor, um ídolo decadente do rock em fase terminal, um jornalista de celebridades que sai da prisão por violência sexual contra uma personagem de suas matérias, um pescador desligado do mundo que se alimenta de peixes pescados em rios poluídos. Como se vê, em cada uma das personagens há uma enxurrada de símbolos. Mas o que mais agrada no livro é que a teoria foi deixada de lado. O que importa são as pessoas.

Em meio a um universo entrópico e aparentemente sem saída, o grande personagem da narrativa é o tempo. Desde Marcel Proust, com seu ciclópico Em busca do tempo perdido, a matéria de que somos feitos passou a ser o escorrer dos minutos, que fluem ora para a frente, ora em direção à aurora da vida. A romancista, com um domínio impressionante da estrutura narrativa, divide seu livro em 13 capítulos, cada um passado em uma época, narrado por um personagem, com um foco peculiar. A história se desloca no tempo, no espaço e na voz narrativa.

Como 13 contos que se entrelaçam a partir de detalhes, a construção do universo se dá ao final da narrativa, com o leitor partilhando experiências diferentes, vindas de pessoas sempre no momento de decisão. Em cada um dos capítulos, a narrativa começa de chofre, sem explicar quem fala, em que tempo se encontra, em que mundo habita o narrador. É a própria história, que vai se desdobrando para o leitor, que cria a segurança da identificação e a ancoragem do sentido. A romancista nos coloca em meio a um caleidoscópio que, com o desenrolar da história, passamos a girar para ver brilhar imagens encantadoras ou assustadoras. O nome do brinquedo é tempo.

A visita cruel do tempo reconstitui o prazer de leitura sem abrir mão do esforço do leitor. É um livro tão interessante exatamente na medida em que exige uma entrega à linguagem, à fabulação e à visão de mundo de pessoas já vividas, mas nem por isso céticas ao ponto de desprezar uma história bem contada. Quem acha que não tem o que aprender com romances está perdendo uma boa chance de incorporar humildade no seu patrimônio afetivo. Afinal, o tempo é cruel e não vai deixar de nos visitar na hora certa. E também nas erradas.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Democracia em questão


POR CARLOS HEITOR CONY

Acho que já contei esta história, mas vou repeti-la para justificar o título desta crônica. Faz tempo, o escritor Álvaro Lins, crítico literário e chefe do Gabinete Civil no governo JK, recebeu convite oficial para visitar a Suíça. Começou em Genebra. No primeiro dia, leu os jornais da cidade e ficou sabendo que haveria eleição geral em toda a Confederação Helvética.

O cicerone colocado à sua disposição veio apanhá-lo no hotel e começou a mostrar os pontos mais interessantes da cidade. Em dado momento, Álvaro perguntou: "Li nos jornais que hoje é dia de eleições gerais, mas não estou vendo nenhum movimento, nenhuma fila, nenhuma seção eleitoral...".

O cicerone explicou: "Não, não temos isso de filas e seções especiais. Em cada edifício público, banco ou escola, há uma maquininha, o eleitor aperta o número de seu candidato e vai embora, sem nenhuma outra formalidade".

Álvaro pensou um pouco e novamente perguntou: "E se um eleitor apertar mais de uma vez o número de seu candidato?". O cicerone ficou escandalizado: "Mas dr. Álvaro, quem faria isso?".
Álvaro não teve outro remédio senão recolher o palpite e admitir que na Suíça não haveria ninguém capaz de façanha tão condenável.

Imaginemos o processo suíço instalado no Brasil. Um candidato a vereador em São José das Três Ilhas (MG) amanheceria junto da maquininha, dela tomaria posse, ali passaria o dia inteiro, apertando o próprio número. Por essa e por outras, Churchill declarou que a democracia era o pior regime político, excetuando-se os outros. Vencedor absoluto da ditadura nazista, Churchill perderia a primeira eleição pós-Guerra. Somente uma democracia estável, em nível superior, explicaria a derrota de um gigante. De um herói incontestável.

O dilema colocado pela política, desde que os povos na mais remota Antiguidade começaram a se estabelecer como nações soberanas, até agora não superou a dicotomia maniqueísta entre democracia e ditadura.

Há pequenas variantes (regimes mistos, parlamentarismo, colégios eleitorais, monarquia constitucional etc.) que não modificam essencialmente um regime do outro.

Qualquer cidadão minimamente politizado conhece e amaldiçoa todos os malefícios, todos os crimes e aberrações das ditaduras. Daí que a democracia é venerada como a melhor forma de regime político, excetuando-se as outras -repetimos Churchill.

Agora a pergunta: depois de viver séculos e séculos cultuando a democracia como a solução ideal para a vida das nações e dos indivíduos, é natural que algum espírito de porco questione o problema. As elites pensantes da humanidade, filósofos, historiadores, estadistas, gênios de toda a espécie ainda não conseguiram criar não digo uma terceira via, mas um sistema de conduta política mais eficiente e justa. E que não poderá ser imposta com tanques, canhões e mísseis dos povos mais fortes.

No momento atual, neste início de século 21, com quase todos os países declarando-se democráticos, atravessamos sucessivas crises que não poupam sequer as grandes economias do mundo.

Quando tomei posse na Academia Brasileira de Letras, querendo expressar minha posição pessoal sobre a sociedade como um todo, fui buscar o fecho do meu discurso em Eça de Queiroz, que era apenas um escritor, um literato sem formação política nem filosófica. Encontrei em suas "Notas Contemporâneas" as palavras que poderiam me definir ideologicamente:

"A presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criança sem pão, a incapacidade da Monarquia e da República, da Ditadura e da Democracia para realizar a única obra urgente do mundo, a casa para todos, o pão para todos, lentamente me tem tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo."

Bem sei que a anarquia pura e simples, e, sobretudo, inofensiva, sem bombas, saques, sem dinamitar pontes e trens nem degolar criancinhas nos orfanatos, representaria uma solução desesperada, cujo único mérito seria contestar o establishment, levando a humanidade a criar um regime político baseado nas liberdades individuais, operado com paz e produzindo progresso. Liberdade, paz e progresso. Nesta ordem.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Carnaval do governador

Jaques Wagner não cuidou de sustar a eclosão da greve; se fez alguma outra coisa útil, e de seu dever, não se sabe 


POR JANIO DE FREITAS 

Os feitos da violência na Bahia mostraram, em sua gratuidade na rua e irresponsabilidade no palácio, o mesmo espírito carnavalesco que, como sempre, há semanas invadiu Salvador por antecipação.
A quebra dos limites que levou aos saques e destruição de lojas, a outros roubos e violências, e mesmo a tantos crimes de morte, não foi causada diretamente pela greve da Polícia Militar. Veio da espontaneidade que tem o motivo único e simples de estar liberado. Para vestir o que quiser ou desvestir-se, cantar e dançar nas ruas, assaltar, encher-se de bebida ou de tóxicos, roubar e saquear, agarrarem-se uns aos outros, soltar-se para o sexo ou para o crime: o carnaval autêntico e o carnaval da violência permitidos pela mesma ausência de impedimentos.

A cota mais pesada de responsabilidade pelos distúrbios criminosos na Bahia cabe ao governador Jaques Wagner, o mais prestigiado por Dilma Rousseff. Não é imaginável que a greve da sua polícia o surpreendesse. Ainda que o fizesse, já no começo da semana estava concretizada e, portanto, evidente.
Logo se comprovava que o governador não adotou medidas preventivas. Não cuidou de sustar a eclosão da greve, não preparou o deslocamento de contingentes policiais discordantes do plano de greve, não se articulou com os comandos militares para eventualidades previsíveis, e não se coordenou com o governo federal para o auxílio da Força Nacional. Se fez alguma outra coisa útil, e de seu dever, não se sabe.
Diante disso, nem importa saber onde estava e o que fazia o governador enquanto a sua PM cuidava de deixar a capital do Estado desprovida de policiamento, como também outras áreas. A seu favor (se é), só o fato de que não esteve sozinho na omissão. Os secretários de Segurança e de Justiça, o comando da PM e várias assessorias o acompanharam na ausência de ação. Os fatos o atestam.

Efetivada a greve e iniciadas suas consequências sobre a população, o governo baiano tardou ainda dois dias, ou algumas horas menos, para adotar providências perceptíveis. Só na quinta-feira foi possível perceber algumas delas, sobretudo a pedida presença de militares nas ruas.

Greves de serviços públicos essenciais, em especial os chamados de saúde (a rigor, falta de) e os de segurança da população, sempre serão polêmicas. Não precisam, porém, ficar nesse limbo em que permanecem no Brasil. Entre direito, abuso, consequências públicas e particulares desrespeitadas pelo poder público, e outras muitas obscuridades artificiosas. Mas convenientes aos governantes e aos parlamentares, que assim escapam aos ônus eleitorais, em qualquer sentido, da posição definida.
Quando escrevo, as indicações do número de mortos continuavam contraditórias. Mais de 20, por certo. Em circunstâncias também mal definidas. Teriam ocorrido, todas, fossem diferentes a greve e o que se passou à sua volta no governo? Ora, isso não importa aos poderes públicos que têm mais o que fazer. E de preferência o que não fazer. 
 
QUEM SABE?
Pergunta sem resposta: por que um deputado federal se movimenta, como Vicente Cândido, do PT paulista, para que se faça aos fabricantes de cerveja a gentileza de liberar bebidas alcoólicas nos estádios? Não só na Copa: sempre e em todos os estádios.
A proibição foi uma batalha áspera. Já a liberação, exigida na Copa pela casa de negócios Fifa, depende.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Entrevista inédita com Pasolini


''Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim''. Entrevista com Pier Paolo Pasolini
Uma entrevista inédita com o escritor italiano Pier Paolo Pasolini, gravada em Estocolmo, na Suécia, no dia 30 de outubro de 1975, pouco antes da sua morte. "Não há mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista". O texto completo está publicado no novo número da revista Espresso.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi escritor, ainda é. Como decidiu fazer cinema?

Isso tem raízes distantes. Quando eu era jovem, tinha 18-19 anos, por um momento pensei em ser diretor. Depois, veio a guerra, e isso cortou por longos anos toda possibilidade e toda esperança. E depois houve circunstâncias: depois que eu publiquei o meu primeiro romance, Ragazzi di vita, que teve sucesso na Itália, fui chamado para fazer roteiros. Quando gravei Accattone, era a primeira vez que eu encostava em uma câmera. Ele nunca tinha feito nem uma fotografia, e nem agora eu sei fazer uma fotografia.

O senhor prefere atores não profissionais. Como trabalha? Busca um ambiente e, quando o encontra, escolhe as pessoas depois?

Não é exatamente assim. Se eu faço um filme de ambiente popular, pego pessoas do povo, isto é, não profissionais, porque acredito que é impossível para um ator burguês fingir que é um operário ou um agricultor. Soaria falso de modo intolerável. Ao contrário, se eu faço um filme de ambiente burguês, já que não posso pedir que um engenheiro, um médico ou um advogado venha ser ator para mim, eu pego atores profissionais. Naturalmente, falo da Itália, e da Itália de dez anos atrás. Se eu estivesse na Suécia, provavelmente pegaria atores, porque não há mais diferença entre um burguês e um operário na Suécia. Falo de um fato físico. Na Itália, há uma diferença assim como entre um branco e um negro.

Nos seus últimos filmes, não há elementos religiosos, não é?

Não estou tão certo de que não haja elementos religiosos nos meus últimos filmes. Nas Mille e una notte, também havia uma espécie de inspiração religiosa em todo o filme. Não havia religiosidade confessional, temas religiosos diretos, mas uma situação de mistério e de irracionalidade havia. Todo o episódio de Ninetto, que é a parte central das Mille e una notte...

O senhor participou do diálogo entre católicos e marxistas na Itália?

Não há mais marxistas e católicos na Itália, não há mais católicos na Itália.

Explique, então, qual é a situação.

Na Itália, ocorreu uma revolução, e é a primeira da história italiana, porque os grandes países capitalistas tiveram pelo menos quatro ou cinco revoluções, que tiveram a função de unificar o país. Penso na unificação monárquica, na revolução luterana reformista, na revolução francesa burguesa e na primeira revolução industrial. Mas a Itália, ao contrário, teve pela primeira vez a revolução da segunda industrialização, isto é, do consumismo, e isso mudou radicalmente a cultura italiana em sentido antropológico. Antes, a diferença entre operário e burguês era como entre duas raças. Agora, essa diferença quase não existe mais. E a cultura que foi mais destruída foi a cultura camponesa, que era então católica. Assim, o Vaticano não tem mais sobre as costas essa enorme massa de agricultores católicos. As igrejas estão vazias, os seminários estão vazios. Se você vai a Roma, não vê mais filas de seminaristas que caminham pela cidade, e, nas duas últimas eleições, houve um triunfo do voto secular. E os marxistas também foram mudados antropologicamente pela revolução consumista, porque vivem de outro modo, em uma outra qualidade de vida, em outros modelos culturais e também foram mudados ideologicamente.

São marxistas e consumistas ao mesmo tempo?

Há essa contradição, todos aqueles que são declaradamente marxistas, mesmo que votem em marxistas, são ao mesmo tempo consumistas. Não só isso: o Partido Comunista Italiano aceitou esse desenvolvimento.

Mas quando o senhor fala de marxistas, fala do Partido Comunista ou de outras facções?

Sim, dos comunistas, socialistas, extremistas. Por exemplo, os extremistas italianos jogam bombas e depois, de noite, assistem à televisão, Canzonissima [programa de variedades da RAI], Mike Bongiorno [famoso apresentador de TV italiano].

Ainda existe a sociedade de classes?

As classes existem, mas – e este é o ponto original da Itália – a luta de classes é no plano econômico, não mais no plano cultural. Agora, a diferença é econômica entre um burguês e um operário, mas não há mais diferença cultural entre os dois.

E o novo movimento fascista?

O fascismo acabou, porque se apoiava em Deus, família, pátria, exército, todas as coisas que agora não têm mais sentido. Não há mais italianos que, diante da bandeira italiana, se comovam.

Há, portanto, uma dissolução da sociedade italiana de hoje, não é verdade?

Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, porque o clérico-fascismo, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante. Só um exemplo que posso dar: o fascismo tentou, durante todos os 20 anos em que esteve no poder, destruir os dialetos. Não conseguiu. Ao contrário, o poder consumista, que diz querer preservar os dialetos, os está destruindo.

Faça uma profecia, seja Tirésias. Há esperança no futuro?

Deveria ser mais Cassandra do que Tirésias. Perguntei hoje a dez jovens suecos com quem falei, fiz-lhes esta pergunta: vocês ainda se sentem mais próximos da civilização humanista ou já se sentem dentro da civilização tecnológica? E me parece que eles responderam, tristemente, contudo, que eles se sentem como a primeira geração de cerca de 30 gerações diferentes daquilo que tem havido até agora. E, para concluir, tudo o que eu disse, eu o disse a título pessoal. Se vocês conversarem com outros italianos, eles lhes dirão: "Aquele louco do Pasolini"...



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"Charada" ("Charade"), de Stanley Donen - Trailer

Charada (Charade, 1963), thriller de Stanley Donen com fortes acentos hitchckianos, com Cary Grant e Audrey  Hepburn, um dos últimos moicanos da era de ouro de Hollywood. Comédia e suspense. Classe e elegância. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Jerry Lewis in concert

Nelson Rodrigues na intimidade

Uma raridade filmada em 1968 pelo teatrólogo João Bethancourt que mostra Nelson Rodrigues em 1968 na sua casa, na intimidade de seu lar, lançado livro, batendo com dois dedos, em programa de televisão com João Saldanha, na redação do jornal O Globo.. O filme foi achado recentemente nos Estados Unidos. 


sábado, 17 de dezembro de 2011

Morre, aos 88, o grande ator Sérgio Brito

Colegas de palco, diretores e críticos lamentaram a morte de Sergio Britto na manhã deste sábado (17), no Rio. O ator e diretor morreu por conta de problemas cardiorrespiratórios aos 88 anos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Corrupção musical na televisão baiana

O noticiário televisivo Bahia Meio-Dia, da Rede Bahia, sobre ser um programa telejornalístico profissional e competente, peca, todavia, pela corrupção musical, pelo lixo que oferece, em termos de música, todo santo dia aos baianos. Como se a Bahia, que tem tantos nomes expressivos na história da música brasileira, estivesse, agora, reduzida a medíocres grupos de axé, arrocha, pagodé e o escambau. A regra dos responsáveis pela edição é chamar o que há de pior, esquecendo-se completamente de outros valores que possam, atualmente, existir nesta tão maltratada soterópolis. Uma exceção, há um mês, foi a apresentação do sambista de qualidade Nelson Ruffino. Agindo nesse propósito, o referido noticiário ajuda sobremaneira a embrutecer o seu telespectador, e o embrutecimento, como dizia Shakespeare, é um crime.