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sábado, 13 de novembro de 2010

O dólar papel pintado


Em 1944, em Bretton Woods, o ouro foi considerado herança maldita. Substituído pelo dólar, pela primeira vez na História, a moeda de um país passava a servir de troca universal. Mantega não era nascido, podia ter estudado.

Helio Fernandes
A Segunda Guerra Mundial estava acabando. Desesperados, os alemães tentavam acordo de “paz em separado”, com os soviéticos, precisavam retirar tropas para fortalecer Berlim. Stalin não admitia, sabia que era ali, naquele momento e naquele local, que Hitler seria destruído para sempre. (Da mesma forma que Napoleão, 140 anos antes, derrotado pelo “general Inverno”.
Churchill e Roosevelt, que haviam feito boa camaradagem com Stalin, não queriam fortalecê-lo. Roosevelt era sincero, Churchill um tremendo jogador de xadrez político, que bebia, jogava e fumava, mas jamais perdia o rumo. Stalingrado ardia como a maior batalha dessa guerra, Moscou a 100 quilômetros de distância parecia uma chama, provocada pelas tropas de Hitler, entrando na União Soviética pela bela Ucrânia.
Enquanto ouviam as notícias pelo rádio (ainda não existia a televisão), Roosevelt e Churchill tratavam de um assunto que não pretendiam dividir ou debater com Stalin: a situação econômica do mundo. Sinceramente queriam o fim de Hitler, mas se usassem de sinceridade total, admitiriam que se Stalin desaparecesse junto com Hitler, não derramariam uma lágrima.
Convocaram então reunião de “aliados” para Bretton Woods, onde pretendiam fixar as condições e as regras da economia mundial. Lógico, tinham que dizer alguma coisa a Stalin, era imprescindível reconhecer a contribuição da União Soviética para a vitória sobre a Alemanha.
Mas para ele, para os países participantes, e até para o mais importante economista da época, John Maynard Keynes (o líder e organizador do encontro), não falaram tudo. Diziam que era para “regular a economia do mundo que surgiria depois da guerra”, mas não passavam daí. Era o que Keynes sabia e pensava que fosse verdade.
Apesar de ser inglês, Keynes não recebeu a menor instrução ou informação vinda do primeiro-ministro da Inglaterra. Por intuição, (e sem dúvida por competência, para a época era importantíssimo) se convenceu que as grandes potências não queriam mais o ouro como moeda-padrão.
Sabia muito bem como o ouro era raro e existente em poucos países, com isso os que possuíam o metal, ficavam tão poderosos quanto as potências dominadoras. Começou então, da própria cabeça, a planejar a implantação de uma nova moeda.
Já tinha até o nome, se chamaria BANCOR. Quando começou a falar sobre o assunto, ainda reservadamente, com os representantes de alguns países, é evidente que tudo vazou. (Como diria hoje, o “braço direito” de Dona Dilma, Erenice Guerra).
O presidente do Banco Central dos EUA (desculpem, não consigo lembrar o nome), acionado por Roosevelt, chamou Keynes para conversar. Mas o Banco Central criado em 1913 para tratar com os Rotchilds e congelar (“calotear”, como se acusa hoje o Brasil) amigavelmente as dívidas, não tinha importância para conversar com um economista da repercussão de Lord Keynes.
O constrangimento foi total. O presidente do Banco Central não conseguia explicar, Lord Keynes estava longe de entender, sabia que pretendiam alguma coisa dele. E pela forma tímida com que falavam, tinha certeza de que era fundamental.
Sobrou para Roosevelt, que não quis, mas concordou em pedir a Churchill para falar a Lord Keynes, também inglês. Mas esqueceram de contar a Churchill. Este finalmente explodiu e Roosevelt contou: “O que pretendemos é que dessa reunião de Bretton Woods, surja uma nova moeda universal, o dólar”.
Eterno gozador, Churchill perguntou: “Só isso?” Não sabiam se estava de acordo ou perguntando por perguntar. E aí, mais descontraído, Roosevelt, respondendo a uma pergunta sobre “O que Keynes ganharia”, não teve dúvida: “O que ele quiser”. Pode parecer exagero, mas o preço não era exagerado, os EUA estavam tentando controlar o mundo, e conseguiram.
***
PS – Keynes não teve o menor problema. Alguma dificuldade, apenas porque já falara na moeda BANCOR, agora teria que dizer que seria o DÓLAR.
PS2 – Quanto à recompensa, o economista sabia o que é eterno: “No capitalismo, nem um almoço é de graça”. Ficou esperando.
PS3 – Meses depois, o presidente do maior banco de investimentos dos EUA, procurou-o pessoalmente em Londres. Entregou um cheque com “quinhentos zeros”. Disse apenas, “sua conta está zerada”.
PS4 – Menos de 2 anos depois, Lord Keynes morreu de um câncer fulminante. Deus não perdoa.

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